Ponta Porã, Segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
08/07/2017 05h40

A libertação de um espirito por José Alberto Vasconcellos

Naquele dia e naquela hora o cemitério estava praticamente deserto.

Divulgação (TP)
 
 

Ela chegou cabisbaixa, caminhava devagar e parecia insegura. Trazia nas mãos um pequeno buquê de flores, que certamente havia colhido nas redondezas do interior do cemitério onde se encontrava. Procurava uma determinada sepultura. Acercou-se de um túmulo, que pelas condições de abandono, servira há muito tempo para o sepultamento de alguém, seguramente um ancestral daquela moçoila, que aparentava idade de dezessete ou dezoito anos. Após certificar-se de que o túmulo era aquele mesmo, sentou-se sobre ele e pôs-se a chorar. Chorava copiosamente com o pequeno buquê ainda nas mãos.

Eu, em companhia de minha irmã estava a pequena distância daquela moça, contudo ela pareceu não nos ver ou, deliberadamente, ignorou a nossa presença. Chorava copiosamente com seguidos soluços que, para nós duas, representava um profundo e inconsolável sofrimento. Qual seria o desconforto sentimental que cobrava daquela pobre e solitária moça, tanto sofrimento?

Naquele dia e naquela hora o cemitério estava praticamente deserto. Ao longe via-se algumas pessoas limpando túmulos ou acendendo velas em lembrança a entes queridos, ali sepultados. Eu e minha irmã estávamos ali para limpar o túmulo de nossa mãe, visto que Dia de Finados seria observado na próxima semana.

A mocinha continuava sentada naquele velho túmulo, com seu buquêzinho de flores nas mãos, chorando, inconsolável. Incomodada com o sentimento que apertava o coração daquela quase-menina, disse à minha irmã que seria bom a gente ir até ela, para saber o que se passava. Descobrir o que a fazia chorar e confortá-la, se possível! Haveria alguma maneira de minorar o sentimento que a fazia chorar, copiosamente, por tanto tempo?

Nesse momento, o tempo que já prometia chuva, escondeu o Sol e iniciou uma garoa. Escureceu um pouco, embora não fosse mais que meio-dia. Repentinamente, quando acabávamos de combinar que íamos abordar a mocinha, para tentar ajudá-la a superar aquela crise de choro, vimos claramente — eu e ela — uma tocha de fogo sair da cabeceira daquele túmulo, onde se encontrava a tal mocinha sentada. Incidente inexplicável, que ela não viu, porque estava de costas para a cabeceira da sepultura.

Mais impressionante foi que, num descuido nosso, a tal moça desapareceu. Restou, contudo, o pequeno buquê sobre aquele velho e abandonado túmulo em ruínas, como testemunha de tudo que presenciamos e que, se contássemos para alguém, esse alguém não iria acreditar.

Contudo e a despeito de tudo, relatamos o que vimos no cemitério para um escritor versado em "causos simples e complexos". Ele, depois de nos ouvir, recorreu aos alfarrábios da sua biblioteca, principalmente a obra de Fernando Chaij "Forças Misteriosas que atuam sobre a mente humana", para tentar obter uma explicação plausível para evento extraordinário que presenciamos, no caso uma chama de fogo que saindo do túmulo subiu para o céu, desaparecendo com a distância.

Leciona Fernando Chaij, considerado um arqueólogo da Bíblia Sagrada: "Sem que o pretenda, a moderna Teologia tem sustentado o espiritismo por postular a imortalidade da alma e do espírito. Naturalmente, se o espírito ou alma continua a viver após a morte, terá de estar existindo em algum lugar..." "Nos primeiros livros do Velho Testamento, Moisés menciona várias pessoas (...) que agiam como médium de espíritos (Deut. 18:10,11). Este registro da lavra de Moisés, autor do Pentateuco, confirma, com segurança, a existência dos espíritos.

Eclesiastes, livro bíblico (séc. III a. C.) na tradução Católica, ressaltando o caráter precário da vida, assim dispõe: 12: "7 antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro da vida retorne a Deus que o deu." Na tradução protestante, a Bíblia tem traduzido o mesmo texto, assim: 12: "7 e o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu."

"Jesus falou: "—Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas Eu vou despertá-lo do sono, ( S.João 11:11)." Conforme nos diz a Bíblia: a morte é apenas um sono. Curiosamente, a palavra cemitério vem da palavra Koimeterion, significando "um lugar para dormir" (op. cit.).

Pelo exposto, ficou clara a existência do espírito ou da alma. Assim sendo, o que se viu naquele velho túmulo onde a mocinha chorava, teria sido a libertação de um espírito até então preso, em decorrência de algum trato extratemporal, a exemplo do que fez o Doutor Fausto com o Príncipe das Trevas.

Naquele dia, no cemitério, as irmãs assistiram ao espetáculo de um espírito liberto, que voltava para Deus, conforme está escrito: "...,e o espírito volte a Deus, que o deu." (Ecles. 12:7).

4.03.07-2017 (4720)Membro da Academia Douradense de Letras.

5.(josealbertovasco@yahoo.com.br)

Envie seu Comentário