Ponta Porã, Sábado, 21 de abril de 2018
23/07/2016 05h50

Aquele lugar, contou-me a sua história - José Alberto Vasconcellos

Era uma sexta-feira e nosso projeto seria passar ali o final da semana e voltar somente na tarde do domingo.

Por: Tião Prado
 
 

Eu e dois companheiros, deixamos a caminhonete na beira da estrada e seguimos caminhando em direção ao rio, seguindo o Valdemar, que se gabava de conhecer profundamente o local. Percorremos meio quilômetro por uma antiga carreteira retomada pela floresta, da qual restava só uma trilha. A trilha só existia porque era utilizada por alguns pescadores que poderiam ser – como nós – classificados como irracionais e destemidos!

Vencida a mata, via-se os restos do que teria sido uma olaria e o que restou de um rancho de pau-a-pique cuja cobertura, seguramente de sapé, tinha desaparecido pela ação das chuvas e do abandono. Em tempos idos, o conjunto dos escombros que se via, demonstravam que ali vivera uma família; que ganhava o pão de cada dia, com a fabricação de tijolos naquela olaria, da qual restava tão só a parte em alvenaria da fornalha, ainda negra, onde os tijolos eram queimados.

Havia restos do chiqueiro dos porcos e, ao lado, fincados quatro moirões, que sustentaram o que teria sido o paiol. No conjunto, aquelas ruínas contavam uma história. Testemunhavam o encontro e os desencontros de uma família, vivendo em meio do nada, municiada com todas as dificuldades e privações que afrontam o ser humano. Apenas o amor e o amparo de Deus, com certeza, aqueceu os corações e deu alguma esperança, àquelas pobres criaturas que habitaram aquele lugar perdido, possivelmente, em companhia de algum filho.

Incontáveis – imaginei – foram as noites que aqueles pobres e desamparados moradores acordaram de sobressalto, com o esturro de uma onça, os gritos desesperados dos quero-queros ou o assovio de um saci, entidade que adora freqüentar as lagoas nascidas com a retirada do barro, para a fabricação de tijolos. Debaixo de uma figueira, ainda via-se os restos de um carretão que, seguramente, foi utilizado no transporte do barro da lagoa até a olaria, tirado por uma junta de bois.

Foram muitos os minutos gastos, para examinar todo aquele triste e abandonado quadro. Imaginar e deduzir como teria sido triste a vida daquela gente – solitária e esquecida – sem festas de Natal, de Ano Novo e de vizinhos, para conversar, trocar idéias e saber de alguma possível novidade.

Envolvido por aquele quadro desolador, com os pensamentos voltados para aquela pobre família, que impelida pela pobreza foi obrigada, pela contingência da vida, a viver ali isolada do mundo, sem ter a quem contar suas agruras, pedir e receber alguma ajuda, mesmo que fosse apenas um simples alento para espantar a solidão. Naquele lugar abandonado tudo era triste... muito triste!

Tomado por pensamentos que fluíam como os ventos que açoitam as madrugadas, viajei através do tempo, induzido pela visão daquele lugar, que parecia possuir força hipnótica, que me induzia àquelas reflexões. Já encontrava-me alheio, aos motivos que me levaram até ali: a pescaria!

Por obra e graça do Valdemar, com o assentimento e colaboração do Hernández, um paraguaio apaixonado pelo Brasil e fanático por pescaria, eu fora aliciado e encontrava-me ali, com o mato pela cintura, absorto, tomado pelos pensamentos que me faziam flutuar sobre a corrosão, que o tempo provoca nas coisas e nas pessoas.

Despertei do torpor com o grito do Valdemar Preto: — É aqui moçada! Aqui é que moram os pacus e as piraputangas, tendo como vizinhos os dourados! Dei um tranco no pensamento e voltei para a vida, sentindo as picadas dos pernilongos.

Era uma sexta-feira e nosso projeto seria passar ali o final da semana e voltar somente na tarde do domingo. O rio passava manso, a pouca distância daqueles escombros, onde viveu o oleiro e sua família; e onde o Valdemar começava a montar o acampamento.

Repentinamente fui tomado por uma profunda tristeza, a proximidade do sábado, dia em que encontramos os amigos para a cerveja e as conversas fiadas, esvaziou meu ânimo e turvou o meu estado de espírito. Caso arrependimento matasse, eu estaria moribundo, internado numa UTI!

Já anoitecia, quando passou um barco com alguns pescadores que iam embora. Dentre eles reconheci um amigo, um colega advogado, o saudoso Isaquinho, que também reconhecendo-me, alegre como sempre fora, gritou: — Vamos embora, Vasco! Chega de sofrer!

A alegria do colega que voltava para casa, agravou minha tristeza e trouxe-me de volta à realidade, quando me perguntei: — Afinal o que eu estava fazendo naquele lugar, no meio do nada, dando sangue aos pernilongos, sujeito a ser engolido por sucuri ou picado por cobra?

Acometido por mal-estar súbito, já nas raias do desespero, implorei ao Valdemar para irmos embora, com o que, estranhamente, o paraguaio concordou e ajudou-me a convencê-lo.

Sem tardança saímos dali, embarcamos na camionete e sumimos na lonjura estrada. Em pensamento apaguei até as marcas dos passos que dei, para chegar àquele lugar, esquisito e triste, naquela sexta-feira...

01.07.2016(4948) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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