Ponta Porã, Terça-feira, 24 de abril de 2018
08/10/2016 11h

Artigo: Batalha em campo aberto - A sobrevivência

Por: José Alberto Vasconcellos.

Divulgação: Dora Nunes
 
 

Eudoxio Albuquerque da Silva, é quem nos conta sua história de morador de rua, na qual relata-nos tudo o que é necessário para sobreviver em campo aberto, ao nível do chão.

Dormir numa calçada de rua é a última escala para baixo, que o ser humano depois que perdeu todos os patamares que o sustentavam como ser social, passa a conviver com iguais num zoológico, onde enturmam-se pessoas inteiramente desidratadas da sua condição humana. A sobrevivência nesse submundo cobra aptidões inexplicáveis do "homeless" para safar-se dos ataques de predadores.

Embora com a mente embotada pelo álcool, drogas ou qualquer outra porcaria, conserva o reflexo municiado pela invejável audição, ferramenta que lhe garante a defesa e muita vez a própria vida.

Além da audição privilegiada, Eudoxio poderia ser considerado um moderno Champollion, pela capacidade que possui em adivinhar quem é quem — não pelos hierógrifos — mas pelos calçados das pessoas que o acercam: coturnos – é a polícia; sandálias simples – é religiosa que vem, movida pela solidariedade, trazer-lhe algum alimento; sapatos caros – é delegado de polícia; calçados cambados e rotos – companheiros de infortúnio. Claro, há ainda outros tipos de calçados que afloram a pouca distância dos seus olhos, quando deitado na calçada. Examinado o calçado, detectado perigo, como um relâmpago — defender-se ou esquivar-se — para safar-se do perigo que se revela iminente.

Sua privilegiada audição sempre salvou-lhe a vida. Já fugiu de policiais que executaram "seus colegas" na Candelária; viu pessoas que pareciam normais, jogando álcool em "colegas" e metendo fogo. Ouvido algum barulho ou apenas um chiado, abre os olhos, analisa e decifra o dono do calçado que está próximo e decide qual a reação, para conservar-se vivo.

Esquivou-se de policiais assassinos, ao ouvir o "click" de uma arma de fogo sendo armada para o disparo e teve tempo para esgueirar-se rastejando, enrolado nas cobertas da cor do chão sujo da rua, enquanto ouvia, já safo do perigo, os gritos dos pobres e desvalidos companheiros, misturados ao rumor dos disparos dos agentes fardados e remunerado pelo governo, para dar segurança à sociedade.

A vida no submundo das ruas é coisa medonha, crua e truculenta, que poucos conhecem e podem avaliar as agruras desse quadro paupérrimo e miserável, do qual os políticos fazem de tudo para manterem-se distantes. É certo que algumas Associações religiosas fazem o que podem, enquanto alguns órgãos públicos, encarregados de cuidar dos desvalidos, nada ou muito pouco resolvem, além de querer impor protocolo de procedimento, àqueles que vivem num mundo onde um prato de comida e a liberdade das ruas, falam mais alto.

O ser humano quando nasce do pecado, algumas vezes é jogado no lixo; quando nasce no seio de uma família, raramente é rejeitado. Em quaisquer das hipóteses depende dos cuidados do Anjo-da-Guarda, que algumas vezes atrasa-se e o curatelado morre de frio e fome. Feliz e seguro é o nascituro, que é amado e cuidado por uma mãe carinhosa e responsável.

Alguns filhos ouvem os conselhos paternos, outros só em parte, e alguns esquecem-se, completamente, o que ouviram. Estes, com o tempo, passam a ouvir conselhos de pessoas que não conhecem. Desorientados, viciados, descem todos os degraus da degeneração humana, passando a ocupar "uma vaga" numa calçada, com a mente embotada pelas porcarias que consome.

Anêmico pela fome, gesticula e confunde o dia pela noite, mas e a despeito de tudo, está equipado com um sistema auditivo soberbo, que funciona como um radar, que pode detectar um avião a milhas. Ao primeiro tic ou tac já está pronto — para correr ou para defender-se — quando atacado o reflexo é invejável, reage prontamente com uma faca; caso o ataque venha da Polícia, como têm acontecido, esgueira-se rápido e silencioso como um rato, e desaparece.

Eudóxio, ainda mocinho, deixou sua família em Quixadá, no Sertão de Quixeramobim, no Ceará, e veio para o Rio de Janeiro com um primo, o Quinca. Na cidade grande encontraram trabalho braçal. Um dia Quinca foi para São Paulo, ouvira que lá seria mais fácil encontrar bons trabalhos e melhor remuneração; Eudóxio ficou só, na Cidade Maravilhosa.

Sozinho, misturou-se a pessoas que devia evitar. Acabou viciado em craque e morador de rua, onde a duras penas aprendeu o que tinha que fazer para manter-se vivo e conservar o seu patrimônio: uma faca afiada e um cobertor, indispensáveis para dormir ao relento e defender-se, de tudo que pode acontecer.

Nunca mais pôde voltar para Quixadá e tampouco deixar as ruas. — Até quando? É seu pensamento.

18.09.2016 (4.860) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

Envie seu Comentário