Ponta Porã, Sexta-feira, 18 de agosto de 2017
31/12/2016 16h

Artigo: Político - O reflexo

Por: José Alberto Vasconcellos

Divulgação: Dora Nunes
 
 

Ele amanheceu como uma caldeira apagada: fria, sem força, inerte. Arrastou-se para fora da cama e foi até o banheiro fazer o que mais gostava: ver-se no espelho. Sentia-se como um pano de prato mal torcido, estava úmido pelo suor.

Encarou-se longamente, mostrou a língua e pôde observar que ela já continha uma porção de saburra. Precisava removê-la, pensou, provoca mau hálito e afasta as pessoas.

O povo! Exclamou mentalmente. O povo exige, cobra, desgasta e aborrece o homem público. Controla seus passos, observa seus movimentos. Até anota a placa do seu veículo. Para o homem público não existe liberdade e tampouco privacidade.

Por mais que se empenhe em trabalhar direitinho – com honestidade e interesse absoluto no bem estar da comunidade – sempre há alguém, quando não uma turba, que está insatisfeita com ele. Política é sofrimento, desprendimento, abnegação, sacerdócio. Sacerdócio, às vezes até com disfarçado celibato, para não assanhar algumas eleitoras, que se arvoram em peitar o homem público, para uma proposta indecorosa. O político tem que se preservar a todo custo, a prática tem demonstrado isto. Para o povo não há político bom!

A ideologia é outro ponto que aborrece o homem público. Declarando-se de centro, indeciso; se de direita, gorila; e se de esquerda, megatério.Tendo votos, todos os partidos tentam plugar nele. Sem votos, é fritado e jogado aos canibais de plantão.

Lá fora o dia corria e o sol esquentava. Ele continuava encarando o espelho e pensando, avaliando situações, revendo princípios e, sobretudo vendo-se. Analisou seu olhar – legítimo olhar do político: indefinido, impossível de perscrutar, de vislumbrar nele qualquer revelação. Enigmático, misterioso, impossível de ser interpretado!

Olhando para o norte, o rumo poderá ser qualquer outro indicado na Rosa dos Ventos, tamanho seu controle emocional. Olhos de Carcará! Murmurou para si e sorriu apenas para seu ego, para o fundo da alma, verdadeiro sarcófago, que encerra, longe dos olhares profanos, os planos de um homem talhado para as lides políticas, integrante do contexto democrático nacional.

A vida pública exige conduta, pensou. Conduta enigmática, que faça, sempre, o eleitor pensar isto quando se está, na realidade, querendo aquilo. É um jogo de inteligência. Sem inteligência um político tem vida curta, processos na justiça e um fim terrível: o abominável ostracismo.

Atentou, novamente para o espelho. Velhaco! Exclamou em silêncio, admirando a si mesmo. Você nasceu predestinado para a política: é inteligente, conhece os meandros da ciência e as manhas do povo; você é o protótipo da vitória, o sucesso sem volta; a história que já foi escrita, com os dotes da premonição. Você é a alavanca necessária para mover o mundo! E concluiu com humildade: tenho até nojo de ser tão bom. O sujeito certo, na hora certa, com o destino traçado. Como dizem os árabes, "Maktub!"(está escrito!).

O espelho já estava embaciado, com o vapor emanado dos seus suspiros, decorrentes da sua emotiva e profunda meditação, contemplativa e premonitória. Hábil condutor das massas! Um novo Führer (aquele que conduz), título com o qual o povo alemão consagrou Adolf Hitler. Retratou-se em seguida: não Führer já é demais, riu com falsa modéstia. Já pensou ? Condutor das massas! Plagiando Joubert, para retratar com fidelidade o homem público e aplacar o patriotismo que o corroia, recitou com voz rouca pela emoção: "A política tira a metade do espírito, a metade do bom senso, três quartos da bondade, e certamente todo o repouso e a felicidade." Política é sofrimento e renúncia, concluiu com lágrimas.

Alguém bateu na porta do banheiro. Ele saiu do transe:--O que foi? Perguntou irritado, irritadíssimo! Desceu do Olimpo, deixou seus pares. Visivelmente aborrecido, contrariado, voltou para o mundo dos mortais.

Era seu cabo eleitoral. — Sou eu, Dr., o Mané! Vim avisá-lo que estamos prontos, lá embaixo esperamos pelo senhor. A campanha começa hoje e para que o senhor se eleja vereador, nós temos que correr. Os outros candidatos já estão na rua, e nós não podemos perder tempo! O senhor sabe que a primeira vez é mais difícil. O Joaquim Barnabé está chegando com o seu pessoal, vamos trabalhar com força total!

Entre o sonho e a realidade existe um abismo – como diria dom Eládio, o caçador de tatus – e é habitado por lobisomens.

Megalomania ? Talvez!

10-05-2008/ (4515) do livro "Fadas, Raposas e Lobisomens", do autor.

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