Ponta Porã, Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
08/08/2015 10h

Cardeal, bispo, diácono e esculápio, por José Alberto Vasconcellos

Eu quero; tu queres; eles (também) querem; todo mundo está querendo... “Porque a prefeitura é boa demais, sô!”

Divulgação (DN)
 
 
Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: josealbertovasco@yahoo.com.br Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: josealbertovasco@yahoo.com.br

No período de 1962/1980, como secretário-geral da 18ª Junta Apuradora da Comarca de Dourados, pude testemunhar muitos acontecimentos relacionados às eleições realizadas e apuradas no período, sob a presidência do juiz Ítalo Giordano, e depois pelo juiz Jesus de Oliveira Sobrinho, sempre assessorados pela saudosa dona Nélsia Braff.

Além do município de Dourados, a 18ª Junta Apuradora também contabilizava os votos e proclamava os eleitos, nos municípios de Caarapó, Itaporã, Glória de Dourados e Fátima do Sul, que compunham a Comarca.

Conheci muitos candidatos, preenchi muitos mapas, relacionados às contagens dos votos; assinei, junto com os presidentes da 18ª Junta, muitos diplomas outorgados aos eleitos. Testemunhei a eleição do nosso primeiro deputado federal: Weimar Gonçalves Torres. Um dia, em 1980, filiei-me num partido político e pedi dispensa da função, que então tornara-se incompatível. Nessa época, 1980, a cidade já contava com população dez vezes maior do que aquela que encontrei em 1962.

Na década de 1960, ao tempo do regime militar, havia uma animosidade latente entre os políticos, e o Exército fazia a segurança do local da apuração, com armamento pesado. Na função de secretário-geral da Junta conheci um candidato a deputado estadual, que foi eleito pela primeira vez e continuou reelegendo-se, continuamente, enquanto concorreu para a função. Recebeu pela longevidade no exercício de deputado estadual, o cognome de “Cardeal”. Nas eleições de 2014, esse clérigo político concorreu como candidato a vice-governador, na chapa de um senador do PT e amargou sua primeira derrota. Pelo tempo em que foi deputado, pode pleitear e obter jure et de jure, aposentadoria cumulada com adicionais de periculosidade e insalubridade !!! Enquanto o “Cardeal” avalia se valeu a pena ter gasto a vida inteira na Assembléia, um outro deputado, também reeleito inúmeras vezes, começou a aparecer com cara de “Bispo”, e, não tem guardado segredo: sonha “Papar” a Prefeitura de Dourados. O que não faltam são candidatos. Um outro, médico, no quarto mandato como deputado federal, faz pose de Euríclides Zerbini: quer cuidar do coração sofrido e judiado do município, embora sua especialidade – todos sabemos – é mais embaixo ?!

Também um deputado, advogado, que pode ser classificado como “Diácono”, porque munido de um “batistério” recém expedido, que define seu domicílio eleitoral em Dourados, onde se elegeu para a Assembléia, já disse:“— Quero ser prefeito!” Embora pareça ser um neófito, vem com denodo e profissionalismo, angariando prosélitos para concretizar seu desejo.

Claro! Ele já conta com algum tempo de monastério – já fora prefeito no Vale do Ivinhema. Sabe que tem obstáculos para superar, na circunscrição da “Cúria”, onde pretende candidatar-se: vai medir forças com gente poderosa e aclimatada; e ainda terá de vencer um embaraço técnico filosófico: “Ninguém pode ser devoto da própria santidade, ou líder de si mesmo.” Essas premissas constam dos alfarrábios, que estabelecem os princípios da política. Reconhecido como bom de púlpito, sabe fazer o sermão, e com suas pregações, convencer aqui e alhures nobres e plebeus, para sua causa. Por sua postura e desempenho, já desponta como opção, para a renovação das lideranças locais. Prestem atenção nele!

Pelo volume de interessados – novos, velhos e antigos – a disputa poderá ser fratricida no trajeto que demanda a “Paróquia”, o que não ajudará ninguém; o que valerá será a civilidade e o respeito mútuo, assim todos poderão um dia, chegar ao comando da “Paróquia”; evidentemente – um depois do outro – e se a longevidade permitir, poderão ainda alcançar o cardinalato.

Outro médico, que já foi vice-prefeito, deputado estadual e agora secretário de Saúde na atual administração, não tem feito mistério: confessou aos amigos que também quer ser o prefeito! Há, ainda, outros, aí incluídos conhecido quarteto, todos a bordo de uma velha jardineira, acompanhando o moderno comboio, com sonhos na cabeça. Estes últimos, a toda evidência, carecem de um profissional em oniromancia, para orientá-los!

São notícias esparsas que chegam até nós, desgarradas entre si, adubadas por especulações, que possibilitam interpretações várias, principalmente, se considerados os vários modos como se conjuga e rege o verbo querer: Eu quero; tu queres; eles (também) querem; todo mundo está querendo... “Porque a prefeitura é boa demais, sô!”

Nesse ínterim, em busca da “Meca”, peregrinam os que mais sonham, ansiando ouvir dos profetas, gratuitamente, os conselhos que querem (só os que querem) ouvir!

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: josealbertovasco@yahoo.com.br

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