Ponta Porã, Sábado, 20 de janeiro de 2018
07/02/2015 08h

Carrancas e maus espíritos. José Alberto Vasconcellos.

“Essas figuras ocupam lugar de destaque na arte popular nordestina, pela expressividade artística e pela originalidade tipicamente brasileira.”

Divulgação (TP)
 
 

“O Rio São Francisco – que os indígenas chamam Opará – é também a principal via de comunicação das populações ribeirinhas, sendo sua cultura barranqueira. Na região demarcada pelas corredeiras de Pirapora e a cachoeira de Paulo Afonso, entre as porções mais navegáveis do São Francisco, está a Bacia do Corrente, onde das mãos do carranqueiro Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987) surgiram as belezas misteriosas das Carrancas.”

“As Carrancas, obras de arte: conjunção de forças milenares, enlaçadas na mente de Guarany, são fruto da criação de uma cultura de uma região isolada do resto do país e ao, mesmo tempo, ligadas pelo São Francisco, cujos artistas populares, a partir da idéia de esculpir uma figura de proa, criaram soluções plásticas próprias, de elevado conteúdo artístico e emocional, que provocam um verdadeiro impacto, despertando a sensibilidade e mesmo uma perturbação, na contemplação dessa mistura singular, entre elementos naturais e humanos.”

“Segundo os historiadores, as barcas que circulavam pelo Rio São Francisco, foram as únicas embarcações primitivas de povos ocidentais, que usaram figuras de proa ou carrancas. Essas esculturas surgiram na cultura nordestina, mais propriamente no meio da civilização ribeirinha do Médio São Francisco, por volta de 1875/1880 e durou até o ano de 1940, quando se encerrou o ciclo das embarcações no Brasil.”

“Existem muitas versões históricas sobre o aparecimento das carrancas, na região nordestina. Porém a tese decorrente de estudos antropológicos, que possui maior probabilidade, é a que defende o aspecto lendário das carrancas, que segundo a crença e o misticismo do povo primitivo, que habitava aquela região, as carrancas serviam de amuletos de proteção e salvaguardavam os barqueiros, viajantes e moradores contra as tempestades, perigos e maus presságios.” “Serviam também para espantar os animais e os duendes moradores no Rio São Francisco que de noite saiam das profundezas das águas, para assombrar barqueiros, tentar mulheres e roubar crianças. Esses seres ao verem as figuras das carrancas nas proas, de olhos esbugalhados, de bocas enormes escancaradas e agressivas, espantavam-se e se recolhiam em seus esconderijos.”

“Quanto ao aspecto econômico, pode-se dizer que o surgimento dessas figuras horripilantes de aspecto grosseiro, talhadas em madeira, tenha sido um dos mais relevantes motivos para a emancipação comercial, política e social da região do Médio São Francisco.”

“A produção amplia-se no início do século XX quando ocorrem sucessivos naufrágios, em face das corredeiras, das pontas de pedra do rio e a sobrecarga das embarcações. Dizia-se que “a rapadura, de tanta barca afundada, chegava a adoçar o rio...”

“Essas figuras ocupam lugar de destaque na arte popular nordestina, pela expressividade artística e pela originalidade tipicamente brasileira.” “A forte tendência à submissão e à crença do poder sobrenatural das carrancas, é explicado a partir do primitivismo e ingenuidade dos habitantes, que eram povos extremamente supersticiosos e acreditavam em várias lendas.” “Os dicionários de língua portuguesa definem a palavra carranca, como sendo figura sombria, de cara feia e disforme, indicativo de mau humor.”

“O Mestre Biquiba: Francisco Biquiba Dy Lafuente Gurany, “foi o profissional de inteligência mais multiforme que existiu na Bacia do Rio Corrente. A natureza permitiu-lhe viver mais de um século, a fim de que desse vencimento à sua inesgotável capacidade inventiva, sempre em dia coma História e com a Cultura do seu povo. Ele conjurou os seres malévolos das águas, com o poder das suas mãos meio espanholas, meio índias, meio africanas, totalmente brasileiras.”“Com suas carrancas as águas purificavam-se, e as viagens tornavam-se festivas aos som das violas. As carrancas protegiam os viajantes, dos terrores do rio.”

“Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, nasceu no dia 02.04.1884. Filho de Cornélio Biquiba Dy Lafuente e Marcelina do Espírito Santo. É bisneto de José Dy Lafuente, ex-jesuita espanhol, refugiado no Convento da Bahia que amasiou-se com um negra africana de Moçambique, indo morar na cidade de Curaçá, às margens do São Francisco, próximo à cidade de Juazeiro, onde passou a trabalhar como professor.”

“O Mestre Biquiba apresentava os traços fisionômicos e na cor, a mistura das raças que formaram o povo brasileiros. Faleceu em Santa Maria da Vitória (BA) em 1987. Esculpiu sua primeira obra 1901; a partir de 1910 até 1940, produziu cerca de oitenta carrancas. Com a substituição das barcas pelas canoas sergipanas, Guarany ficou dez anos, até 1950, sem esculpir. Seu trabalho é exibido em grandes museus, como o Castro Maia.”

Nota: A matéria foi pesquisada no Google.

14.01.2015 (4874) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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