Ponta Porã, Domingo, 20 de maio de 2018
27/01/2018 05h50

Gata Romana por José Alberto Vasconcellos

À noite o vento agitava as paineiras o que fazia parecer que elas mudavam-se de lugar.

Por: Tião Prado
 
 

A igreja de N.S. das Dores, com suas duas torres, enegrecidas pelo tempo imemorável em que foi construída e pela ação da fuligem da fábrica de manilhas que atendia quase todo o Estado -- (manilha tubo curto de cerâmica, que se encaixa sucessivamente para compor uma canalização hidráulica. Eram utilizadas antes do aparecimento dos tubos de PVC ) -- escura e silenciosa à noite, permanecia discreta ao lado de duas gigantescas paineiras, formando um quadro exótico, digno de ser apreciado a distância, com disfarçado temor. À noite o vento agitava as paineiras o que fazia parecer que elas mudavam-se de lugar.

Ao lado da Igreja, a casa paroquial que também servia de morada para o Pároco, o padre Augusto. Uma janela, todas as noites, invariavelmente, estava iluminada, indicando que o Pároco estava acordado, lendo, fazendo o que sempre mais gostou. Vez por outra ouvia-se no alto das paineiras, o piado de uma coruja ou o pio longo e triste de um Urutau, a que chamam de Mãe da Lua. Aquele fundo da Praça, com a Igreja, a Casa Paroquial e as duas gigantescas Paineiras – formavam um quadro surreal carregado de mistério e magia, embora no centro estivesse a Casa de Deus. Era uma visão que dava arrepios, quando se passava por ali altas horas da noite, onde – diziam – aparecia a sombração de uma religiosa vestida de branco.

Aquela janela iluminada na Casa Paroquial, despertava lembranças relacionadas com o livro de Eça de Queirós (1845-1900) "O crime do Padre Amaro", quando o escritor lusitano descreve a impiedosa aflição que se abate sobre o Padre Amaro, tomado pela irracionalidade do amor impossível, que o impelia a caminhar à noite sem parar, fazendo estalar o assoalho da casa Paroquial em Leiria, Portugal, dominado pelo amor que sentia por uma mulher, sentimento pecaminoso que conflitava com seu voto de castidade. A mercê da fraqueza da carne, era induzido a cometer pecado capital, o que conflitava com sua sadia consciência religiosa.

A cidadezinha, que tinha como única obra majestosa a Igreja, era modesta e contava com iluminação pública sofrível. À noite o único estabelecimento que funcionara era a funerária, quando havia um defunto para ser velado; o restante da cidade, mergulhada na penumbra, mantinha-se silenciosa, sem dar sinal de vida. Ninguém caminhava pelas ruas e os veículos, que se podia contar nos dedos, estavam nas garagens.

Nas madrugadas, como sinal de que a cidade ainda vivia, ouvia-se o estrépito das rodas de ferro da carroça do padeiro Lourenço, quando passava entregando os pães pela rua principal, a única pavimentada com paralelepípedos, que seguia até contornar o cemitério, já no final da cidade, não muito distante da Praça central, onde estava a Igreja.

Sobre o padeiro Lourenço e sua carroça, há uma estória que contam: que um tal "Mané Beiçudo", alcoólatra, um dia resolveu dormir no cemitério e já era madrugada, quando ouviu a carroça do Lourenço que vinha, fazendo o barulho característico sobre os paralelepípedos. Sabendo que era o padeiro, empoleirou-se no muro do cemitério e gritou: "—Ô padeiro!" Tentava parar a carroça para comprar um pão.

O Lourenço, ao ver aquela "coisa" sobre o muro do cemitério mal iluminado, pensou em assombração e chegou o rebenque no cavalo. A carroça, agora tirada por um animal enlouquecido, foi para um lado, o cavalo para outro e o Lourenço restou sentado no meio da rua rodeado por seus pães.

Pouco distante da rua central, numa chácara, morava uma espanhola já idosa, a Gata Romana, que se casou fora de época, com um "príncipe" com idade igual à dela. A morada do excêntrico casal era numa casinha baixa e modesta, quase escondida debaixo de uma Paineira. Lugar escuro, lúgubre e temido à noite, principalmente, quando se ouvia o cantar agourento de uma Coruja naquela árvore, profetizando alguma desgraça, o que era assustador para quem passasse pelo local. Para aquele modesto e realizado casal, os pios da coruja nunca incomodaram. Havia na cidade muitas paineiras, elas fornecem um tipo de lã, dentro das suas castanhas, utilizada para o enchimento de travesseiros. Um travesseiro de paina, era então muito apreciado.

A velha espanhola, dona Isabel, ganhou o nome de "Gata Romana", depois de procurar pelas redondezas sua gata desaparecida, que tinha o nome de Romana, daí o nome: "Gata Romana!"

Quando menino, muitas vezes passei defronte à casa da espanhola, armado com um estilingue, a procura de passarinhos, mas nunca entrei na chácara da "Gata Romana", tinha medo!

22-01-2018 (4700)Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br).

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