Ponta Porã, Quinta-feira, 26 de abril de 2018
22/10/2016 08h20

Isso melhora a nossa cultura?

Nesse rol de entrevistas, os repórteres fazem as perguntas e eles mesmos as respondem, acrescentando sempre algo mais, para prender a atenção dos telespectadores.

Por: Tião Prado
 
 

As emissoras de televisão, sem exceção, vêm apresentando todos os dias, a cada hora, notícias e imagens sobre o julgamento de um calhorda que matou o pai e a madrasta.

Nessas matérias que abordam o julgamento do homicida, aparece o delegado de polícia declarando – todas as vezes em que é entrevistado – que o crime foi premeditado; que a arma do crime foi encontrada; que houve motivo financeiro para induzir o duplo homicídio; que há testemunha; e que não resta dúvida sobre a autoria do crime praticado pelo parricida (àquele que mata os pais).

Os repórteres, ouvido o delegado, voltam-se para os advogados de defesa, e deles ouvem que o acusado é inocente; que na hora do crime ele encontrava-se na rodoviária da Barra Funda, escovando os dentes; que essa estória de dinheiro é falsa, porque o acusado acabara de ganhar – sozinho – o prêmio da Mega-Sena; que sempre foi uma criança, um adolescente e depois um adulto exemplar. Seu perfil não é de homicida. Mostram, então a foto do meliante já como um "pop star", com o semblante abatido e a barba crescida, recendendo a desodorante de boa qualidade.

Ouvidos o delegado e os advogados de defesa, correm agora para o promotor de Justiça: querem saber em quais provas baseou-se para a lavratura do libelo acusatório? Há nele algum fato novo não revelado pela polícia? O que ele acha da versão dos advogados de defesa, que negam tenha o acusado cometido o duplo homicídio? Atestam ainda os advogados, que o indiciado tem condição social definida, cumpre suas obrigações e sempre foi dedicado aos pais, que a polícia – sem provas palpáveis – insiste em afirmar que foram assassinados por ele?

Nesse rol de entrevistas, os repórteres fazem as perguntas e eles mesmos as respondem, acrescentando sempre algo mais, para prender a atenção dos telespectadores.

A dedicação da mídia ao assunto, é por tempo indeterminado. Quanto mais demorar para o início do julgamento e, se depois de iniciado arrastar-se indefinidamente, melhor! Os brasileiros por índole, adoram estórias sem pé nem cabeça, que não têm fim. Os produtores dos programas da TV, não os decepciona!

Nesse sistema "informativo", ligada a TV, você toma o café da manhã com o assassino; almoça com o delegado; janta com o promotor; e antes de dormir, ainda pode ver os advogados, com toda convicção profissional, empenhados em dizer que o calhorda é inocente! Uma boa alma, incapaz de matar uma mosca!

E assim rola o noticiário, enquanto no Brasil administrações públicas nas esferas: municipal, estadual e federal, na maior parte do tempo e em quase todo país, esquecem-se de que são serventuários remunerados para atender os anseios da população. Contudo, a maioria ao tomar posse no cargo público, interpretam o ato como sendo LATU SENSU (em sentido geral, amplo, irrestrito e incontestável) apossando-se, assim, como se proprietários fossem da coisa publica.

Embora legitimados para administrar apenas como procuradores e dentro dos limites da lei, que disciplina seus atos; agem, acintosamente, "erga leges", usando, abusando e dispondo do que não lhes pertence. Para eles, o cidadão de quem flui todo o poder na democracia, é simples lacaio pagador de impostos. Para esses "pais-da-pátria" a cultura atrapalha. Pão (cesta básica) e circo (futebol) são suficientes!

Desse envolvimento emocional das massas arredias a escola, induzidas pelas TV`s e enganadas pelo governo, uns torcendo para o bandido e outros para as vítimas, tem-se o "modus vivendi" da populaça que assimila os piores exemplos como cultura e orientação para a prática dos seus atos. Crianças ameaçam, batem e matam professores; mães jogam recém nascidos no lixo; marido mata a esposa; vagabundos estupram; viciados matam chefes de famílias, úteis ao país; roubam, seqüestram e estouram bancos em busca de dinheiro, para o sustento de vícios e sonhos próprios da doentia megalomania criminosa.

As administrações públicas subvertem prioridades e negam a chance para a criança evoluir. A "cultura" sensacionalista que se pratica, corrói a moral e os bons costumes, tira a harmonia do seio da sociedade e cria monstros!

Sem o cabresto da legalidade, que deve POR OBRIGAÇÃO DE OFÍCIO, ser sustentado pela autoridade pública eleita, A VIDA EM SOCIEDADE È INSUSTENTÁVEL!

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: josealbertovasco@yahoo.com.br

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