Ponta Porã, Quinta-feira, 19 de abril de 2018
21/02/2015 11h20

O abismo da miséria humana, cavado pela covardia, por José Vasconcellos

NÃO ESTRANHE, caso essa mãe resolva jogar seu bebê no lixo, como vem fazendo outras mães, em condições análogas, movidas pelo estado puerperal, previsto como dirimente na Lei Penal.

Divulgação (TP)
 
 

O abismo da miséria humana, cavado pela covardia, por

José Alberto Vasconcellos.

Ela sempre ouviu dizer que ser mãe, é o ato mais sublime da vida de uma mulher. Que só ela, mulher, pode dar vida a um novo ser humano, cumprindo a lei imutável da natureza e a missão que lhe foi delegada pelo Criador. A par desses salamaleques culturais, há ainda, o Dia da Mulher, o Dia das Mães, quando ela, mulher, é exaltada em versos, crônicas, prosas poéticas e músicas.

Não fosse a mulher para perpetuar a raça humana, esta definharia e soçobraria no correr do tempo, deixando o mundo vazio, escuro e deserto. É o que pode acontecer, prevalecendo a covardia daqueles que são responsáveis pelos nascimentos, que abandonam as parturientes à própria sorte, impondo-lhes a inimaginável obrigação, de procederem o seu próprio parto. Com esse procedimento que se repete, certamente caminhamos para o fim daquilo, a que chamamos humanidade.

Em data recente, mostrou-nos a TV, uma mulher de classe modesta, nos últimos momentos que antecedem o parto, abandonada na rua. Sozinha, sem ninguém que tivesse prestígio bastante, para interferir junto ao Hospital, no qual um médico obstetra descartou sua internação, embora estivesse prestes a dar a luz.

Aquela mulher estupefata, com o olhar perdido, causou aflição em quem a viu na tela da TV. Aquele quadro lastimável, mostrou-nos o quanto somos impotentes, para, pelo menos estender uma mão solidária tempestiva, àquele ser humano carente, sem tempo para esperar. O apoio que diferencia o ser humano, dos bichos.

A revolta, por fim, emerge como um Tsunami, quando lembramos dos impostos escorchantes que pagamos, e a contra-partida que nunca chega, para justificar sua cobrança. Aquela situação, que se pode, isento de medo ou de qualquer extrapolação, representa a extrema covardia do pediatra e demais responsáveis pela saúde pública naquele Hospital, que se omitiram da obrigação básica, sem considerar a solidariedade devida ao gênero humano.

O pessoal, com algumas ressalvas, que presta serviço nos hospitais públicos, numa escala que vai dos diretores a médicos, passando pelos enfermeiros e demais servidores, só dão atenção àqueles que podem desalojá-los do emprego público, no qual só trabalham quando têm alguma disposição, o que é raro! Estão sempre escorando-se na falta das condições, para o trabalho!

A tal falta de condições, é uma eterna cantilena: faltam médicos, faltam leitos, a UTI está em reparos, faltam medicamentos, faltam luvas... Falta, na maioria das vezes, até vergonha! Enfermeiros sem interesse,

nervosos, desatentos, vez por outra trocam os medicamentos e matam os pacientes.

As TV´s mostram, todos dias, o descalabro na saúde pública, que impõem um terrível sofrimento às pessoas, muita vez, pessoas idosas que labutaram a vida toda e, no fim são tratadas com desprezo e absoluto desinteresse. Enquanto reina o caos, o governo apegado ao seu marqueteiro, diz só bobagens, exaltando o que julga a solução: o programa” “Mais médicos”, instituído – na verdade – mais para sustentar o comunismo cubano do seu amigo Fidel Castro, do que atender o povo brasileiro que governa.

Voltemos à parturiente. Abandonada à própria sorte, tem refletido no olhar a frustração, o desapontamento e o sentimento de abandono daqueles que, por dever de ofício, tinham a obrigação inarredável de ajudá-la, mas omitiram-se, criminosamente, não atribuindo-lhe nenhum valor como ser humano.

Sozinha, desorientada e com o pensamento tomado por um turbilhão, como qualquer animal irracional, a puérpera procura um canto para dar a luz, assim como o pássaro que procura o ninho para por seu ovo. O ninho que ela encontra, é um banheiro público, fedorento e enriquecido com todas as bactérias do Planeta. Ali, esquecida e solitária, geme pela dor do parto; chora pela desilusão com um amor bandido, responsável pela sua gravidez; e soluça pela desventura de ser mãe, momento que deveria ser o ato mais sublime e feliz de uma mulher!

NÃO ESTRANHE, caso essa mãe resolva jogar seu bebê no lixo, como vem fazendo outras mães, em condições análogas, movidas pelo estado puerperal, previsto como dirimente na Lei Penal.

É assombroso o que se rouba do sistema público de saúde neste país e pior, é o atendimento aos pacientes. Muitos dos responsáveis pela prestação do serviço de saúde à população, desconhecem o que seja escrúpulo. Some-se, ainda, a ação de bandidos desnaturados que furtam e adulteram medicamentos, mesmo aqueles destinados a minorar o sofrimento de pacientes terminais.

Valha-nos, Deus dos miseráveis!

17.02.2015 (4730) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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