Ponta Porã, Terça-feira, 16 de janeiro de 2018
30/05/2015 05h40

“Quando eu vim me embora, do meu Cerá!” - José Alberto Vasconcellos.

O nordestino não precisa de muita coisa para viver.

Por: Tião Prado
 
 

Quando “vim-me embora” do Ceará, do que ainda me lembro, depois de abraçar a “maínha” viúva do “paínho” que morreu de trabalhar, chorosa, desconsolada e cheia de conselhos, para orientar minha nova vida em São Paulo, fui até o fundo do chiqueiro dos bodes e pendurei o meu gibão todo carcomido pelos espinhos da Jurema, numa “gaia” do Juazeiro. Não vou dizer que chorei, porque homem, que é homem, não chora, só funga quando sente dor na alma.

Estendi meu olhar para a caatinga, meu berço, minha terra, meu canto neste mundo! Apesar da miséria, da fome e de outras moléstias que atacam o sertanejo desassistido, a gente sempre acha que ali é o melhor lugar do mundo para viver, o apego é grande! Abençoado pelo silêncio, pelo sossego e por tudo o mais que fica ali por perto, bem próximo do nada e longe daquilo que não se sabe onde fica, o nordestino aquieta-se no seu canto.

O cheiro dos bodes, o vento morno da caatinga, as revoadas das avoançãs, a quentura do sol e a folhagem verde dos Juazeiros, enquanto o resto da vegetação está morta. A magreza das vaquinhas, a falta d´água e as promessas que o paínho ouviu a vida inteira, e eu numa porção dos anos enquanto vivi no sertão: que os políticos iam resolver o problema da água. Promessas... e promessas. Com essas promessas, foram-se as vidas de muitos filhos de Deus, gastas nas securas do nordeste, nesses quinhentos anos, sempre acreditando que os políticos – da última vez que apareciam por lá – finalmente diziam a verdade!

Jurema, facheiro, mororó e bode. Alguns jegues esparramados e alguns ranchos fincados no meio do nada rodeados por pequenos roçados e... sem água. O Senhor Deus, por algum motivo, esqueceu-se de que na secura do nordeste, moram muitos filhos Seus, com os pescoços aleijados de tanto olharem para o céu esperando ver as nuvens de chuva, que não vêm, que nunca vieram. Pessoas e as criações morrendo de sede. É covardia abandonar, por tanto tempo, o homem à própria sorte.

O nordestino não precisa de muita coisa para viver, bastam-lhe os gabirus, as avoançãs uns bagos de macaça, uma cuia de farinha e um pingo de água, nem que seja da macambira e, vez por outra, com a alegria de criança, comer uma buchada de bode, para levantar seu ânimo. Saciado da fome e amainada sua sede, anima-se: toca o fole (sanfona), assopra na Pífi (pífaro), bate na zabumba e faz tinir o triângulo, para completar o ritmo de um forró, e pronto! É a música forjada pela tradição e embalada na miséria da secura, que mistura o lamento e a alegria!

A música propala na gigantesca caatinga, beija o chão e desperta o sertão escuro, seco e sinistro, berço do sertanejo por vocação Divina.

Maínha teve treze filhos, oito morreram ainda pequenos; restaram só cinco, eu sou o quarto dos que sobraram e o terceiro dos treze que nasceram. A família nunca viu nenhum médico, meus irmãozinhos morreram no início da vida, acometidos pelo “mal dos sete dias”, que hoje sabemos: era tétano, provocado pelo curativo nos umbigos dos inocentes, feitos com bosta de vaca e azeite.

Mulher mirrada, fincada nos bons costumes ministrados por seus ancestrais, conduziu nossos primeiros passos, para evitar que desviássemos do bom caminho e conseguíssemos vencer na vida – ricos ou pobres – mas honrados!

Incansável, com equidade, mãezinha sempre distribuiu as migalhas que conseguia, para cada um dos filhos, aos quais dedicou a vida com um infinito amor. Era uma mulher rude, mas que sabia do que se consistia a missão de ser mãe. Sempre teve a sua prole (o que restou dela) como seu maior tesouro!

A miséria definha as pessoas. O nordestino tem a estatura mirrada, a tez escura crestada pelo sol e o olhar sempre perdido nas lonjuras do vazio, ocupado pela inóspita caatinga, que o abraça e o hipnotiza, fazendo com que se apaixone por ela, para depois, privando-o de água matá-lo, como faz o escorpião com seu amado. Sem água nada sobrevive, muito menos o homem e seus bichos de criação. ESSE JOGO DE AMOR E MORTE, JÁ DURA 500 ANOS, TIRANDO O RESTINHO DA NOSSA ÁGUA PELAS LAGRIMAS QUE VERTEMOS, PELO ABANDONO QUE SENTIMOS!

O sul é verde! A água é abundante e os rios sucedem-se a cada quilômetro. Aqui lembro-me do meu Ceará e da minha família, principalmente do meu paizinho que se foi quando eu ainda era um menino, e pergunto-me: —Por que tanta ingratidão, meu Deus, fazer o nordestino apegar-se à sua terra e depois esquecer-se dele quando repartiu as águas? Esse descuido tem causado muito sofrimento, visse?

—Por que essa ingratidão? Nós também somos Seus filhos!

A seca tangeu-me para S.Paulo, aqui sou classificado como retirante!

24.05.15 (4760) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

Envie seu Comentário