Ponta Porã, Quinta-feira, 26 de abril de 2018
25/06/2016 05h50

Sua majestade o sofá - José Alberto Vasconcnellos

A família faz conferências analisando a situação do sofá.

Por: Tião Prado
 
 

Sofá. "SOFÁ, s.m. (do árabe suffa). Assento estofado, com braços e encosto, para duas ou mais pessoas, geralmente usado em salas de estar." Como se confere, o sofá cujo nome origina-se do árabe, seguramente quem o inventou, para uso em palácios ocupados por árabes de alta patente, porque os árabes de vida simples, sem uma chancela que o distancie dos beduínos, preferem mesmo é sentarem-se no chão.

Anote que o chão das tendas no deserto hoje é mais seguro, que as casas nas cidades que – com sofá ou sem sofá – são constantemente destruídas por guerras ou pelo ataque de terroristas.

Os terroristas apresentam-se em duas categorias: os suicidas e os que preferem ficar vivos, estes acreditando só em parte, na promessa de ir para o harém no céu. Em quaisquer dos dois tipos de ataques, sempre ocorrem grandes estragos materiais (inclusos os sofás) e perdas de vidas de pessoas inocentes, entre ela, crianças e velhos indefesos.

Mas voltemos aos SOFÁS inventados pelos árabes, que é, realmente, o assunto que se pretende abordar nesta crônica. Entre nós, os brasileiros, no seio das classes mais modestas, há uma crença de que o sofá representa "statu social".

Assim sendo, muitos e muitos brasileiros sonham possuir um sofá. Móvel que vai – imaginam eles – embelezar e valorizar o modesto ambiente da pequena sala, vazia e despida de qualquer conforto. Vai impressionar e propiciar comodidade aos visitantes. Essa a crença!

A vontade de adquirir um sofá é grande; pequenas são as condições financeiras para adquiri-lo; assim sendo, o caminho escolhido é comprar um sofá de segunda mão. É tão grande a vontade de possuir o sofá, que o compram sem examiná-lo com a devida atenção. Compram Carcará como se Peru fosse: o móvel guarda estragos invisíveis decorrentes do uso, que não são detectados pelo comprador no ato do negócio.

Cumprido sua finalidade de propiciar conforto e atestar o "status familiar" que quem o possui, o sofá – inesperadamente – arria! Cai uma perna, rasga o fôrro, entorta o encosto... em pouco tempo torna-se um traste indecoroso, triste, deprimente e sobretudo vergonhoso, para continuar ocupando o espaço que ocupa na sala, onde são recebidas as visitas.

A família faz conferências analisando a situação do sofá. As mocinhas da família, mais esclarecidas, relacionadas com colegas de melhor suporte financeiro, têm vergonha de receber as amigas em casa, com aquele sofá na sala, que mais parece uma mula-sem-cabeça semi devorada por um crocodilo. As moçoilas protestam – querem porque querem! – um novo sofá, argüindo, para tanto, que o pai já tem melhores condições financeiras para comprar um novo; ademais, aduzem: as lojas estão vendendo sofás em doze prestações, sem juros!

Pouco tempo depois, o chefe da família, também sentindo-se envergonhado com o tal sofá, resolve comprar um novo. Comprar um novo e fazer o que com o velho? É a pergunta e vem prontamente a solução: a "desova" do trambolho num lixão clandestino.

"Desova" do trambolho é levar e jogar, no silêncio escuro da noite, o "finado" num lixão, o mais próximo de casa. Atestamos esse costume, porque há muito tempo vimos prestando atenção nesses lixões. Em todos eles, sem exceção, sempre há a carcaça de um sofá. É certo, ainda, que muitos lixões contam com mais de um velho e destroçado sofá como enfeite.

Qualquer sofá, por mais sofisticado que seja, um dia quando afrouxa nas suas qualidades, perde a majestade e vai morar numa sala mais modesta ou direto num lixão clandestino, se já entregou todos os pontos, levando consigo estórias e histórias de todas as matizes, verdadeiras, falsas e mentirosas.

Testemunhou o início e o fim de grandes paixões e serviu para consolidar essas paixões como leito, silencioso, cúmplice e servil. Ouviu mentiras e ajustes indecorosos entre políticos. Testemunhou falsidades nascidas da inveja decorrente da pobreza espiritual ou do despreparo para a vida social. Serviu até de morada para ratos e nunca reclamou.

Recebido com festa, gastou sua existência propiciando conforto e "status" para o lar que o acolheu. Passou em claro muitos Natais e conviveu com muitas festas de Ano Novo. Serviu como assento para que a mamãe amamentasse seus três filhos, mas... tudo tem um fim: as crianças cresceram, todos envelheceram, e... um dia – sem qualquer cerimônia ou sentimento – foi jogado com um traste inútil, num LIXÃO CLANDESTINO!

Era um móvel doméstico, inventado pelos árabes, que se CONSTITUIA num assento estofado, com braços e encosto para duas ou mais pessoas, usado em salas de estar...

Sofá abandonado em lixão teve sua glória e tem sua estória!

22.06.2016 (4778) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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