Ponta Porã, Terça-feira, 24 de abril de 2018
30/03/2015 08h

Jeitinho brasileiro por Waldir Guerra

Por conta desse maldito jeitinho brasileiro hoje estamos cientes que uma grande parte dos políticos perdeu a vergonha de usar dinheiro público para exercer um mandato.

Divulgação (TP)
 
 
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A história do jeitinho brasileiro vem de longe e provavelmente ninguém é capaz de dizer onde e quando tudo começou. Ninguém sabe se a irresponsabilidade que nos cerca se originou desse jeitinho, mas que hoje essa coisa ultrapassou os limites da decência, todos já se deram conta disso.

Uma coisa puxou outra certamente, mas foi daí que se originou essa roubalheira nas coisas públicas e que hoje a gente está se dando conta, especialmente depois de se ver o desnudamento dos contratos na Petrobras. E não adianta ficar criticando somente nas petrorroubalheiras porque a toda hora surge um escândalo novo numa prefeitura, ou numa repartição, ou mesmo num hospital público.

Por conta desse maldito jeitinho brasileiro hoje estamos cientes que uma grande parte dos políticos perdeu a vergonha de usar dinheiro público para exercer um mandato. Na verdade eles simplesmente perderam a vergonha – ou esses que assim agem nunca a tiveram mesmo.

A imprensa mundial se diz estarrecida com os valores astronômicos nos escândalos da Petrobras. Os brasileiros também. Mas nós ainda não nos tínhamos dado conta do pior: que a coisa ficou profissionalizada, saiu da individualidade dos candidatos e foi dominada pelos próprios partidos políticos. A gente também sabia que a maioria dos eleitos para fiscalizar, ou administrar o país usava e abusava dos recursos públicos para se eleger, mas não assim nesses valores.

Contudo, agora de nada adianta ficar batendo apenas neste ou noutro partido qualquer porque, pela sucessão diária de novos escândalos, só não têm culpa os partidecos de aluguel que não possuem cargos de mando, os demais...

Veja caro leitor, hoje a gente já não sabe mais quem está usando o jeitinho brasileiro, se o candidato ou aquele que se deixa “convencer” a votar nele recebendo benefícios públicos – os dois, claro, mas sempre com a participação desse infame jeitinho brasileiro. Foi ele, sim, o causador disso tudo.

Como disse no início, não sei da origem, mas agora o infame está por toda parte. Na esperteza da senhora que se finge de pedinte com criança no colo ganhando uns trocados na rua; no sujeito que fura a fila na maior cara-de-pau; no motorista que dirige irresponsavelmente; no policial que usa o cargo para achacar; naquele que desvia recursos públicos para si próprio mesmo que seja uma simples bolsa-familia (por favor, acrescente você mesmo, caro leitor, dezenas de outros exemplos que você conhece).

Discordo dos que afirmam que este mal somente terá cura através da educação e que isso nos consumirá duas gerações. Estaremos livres dele em poucos anos se usarmos a transparência total na administração pública. Penalizar duro quem, no exercício de função pública, não cumprir a transparência total dos seus atos, isso sim, nos levará rapidamente a eliminar a roubalheira – e ainda obrigará os administradores públicos a ter mais humildade.

Ao infame do jeitinho brasileiro possivelmente não, pois necessitaremos educar pelo menos uma geração para desenraizá-lo de nós. Apesar de sabermos quanto esse trabalho será difícil, assim mesmo, teremos que fazê-lo porque não podemos continuar a sermos vistos como um país que não é sério.

Quando o jeitinho brasileiro começou não sei, mas se tivéssemos nos dado conta da gravidade dele quando o presidente da França, Charles De Gaulle, nos alertou certamente não estaríamos nessa crise política que nos metemos hoje.

  • Membro da Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal. E-mail, wguerra@terra.com.br

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