Ponta Porã, Domingo, 22 de janeiro de 2017
10/01/2017 06h40

Samba enredo para 2017 cria conflito com produtores rurais de MS

Música é da Imperatriz Leopoldinense e remete o setor a 'belo monstro'

Correio do Estado
 
 
Fantasias que demonstram os invasores e a cobiça da Imperatriz Leopoldinense - Foto: Divulgação/Imperatriz Leopoldinense Fantasias que demonstram os invasores e a cobiça da Imperatriz Leopoldinense - Foto: Divulgação/Imperatriz Leopoldinense

O samba enredo "Xingu - O clamor que vem da floresta" gerou protesto de entidades ligadas aos produtores rurais de Mato Grosso do Sul e do país. A música foi feita para o carnaval de 2017 do Rio de Janeiro e é interpretada pelos músicos da escola Imperatriz Leopoldinense.

A principal crítica é porque a composição insinuou que a destruição da floresta, o domínio sobre a posse da terra em detrimento de índios e a poluição de rios está ligada a atividade produtora.

O principal trecho da música questionado é esse: "O belo monstro rouba as terras dos seus filhos/ Devora as matas e seca os rios/ Tanta riqueza que a cobiça destruiu."

A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) alertou que a posição da agremiação reforça estigmas e preconceitos e "distorce a realidade".

"O samba enredo e as fantasias da escola constroem um argumento onde o produtor rural é visto como destruidor, poluidor e violento e, nem de longe, representam o homem do campo que trabalha em prol do desenvolvimento do país", informou nota.

A entidade ressaltou que produtores do Estado têm trabalhado para implementar sistemas de integração, com a unificação do plantio de lavouras, produção pecuária e árvores plantadas. "Caminhamos para a consolidação do conceito Carne Carbono Neutro, onde a presença das árvores em sistemas de integração neutraliza o metano entérico exalado pelos animais", destacou.

Em MS, são dois milhões de hectares utilizados para essa prática de Carne Carbono Neutro. Pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicou que há 11,5 milhões de hectares no país com esse tipo de método.

A Famasul divulgou também outros dados para argumentar sobre como o setor vem atuando. Na área de plantação de eucaliptos, em julho de 2016 havia 950 mil hectares utilizados, sendo a maioria na região leste, onde o solo é arenoso e antes era usado apenas para pastagens.

Com relação à produção de grãos, Mato Grosso do Sul aumentou no setor em 119,2%, se considerados os últimos 10 anos. A safra 2014/2015 foi de 16 milhões de toneladas, com 34% de crescimento de área de cultivo.

"Hoje o agricultor consegue produzir mais em uma área menor, com uma produtividade que se aproxima a quatro mil quilos por hectare por safra", garantiu a federação.

GERAÇÃO DE EMPREGO

A Famasul também destacou que a agropecuária foi o único setor que fechou saldo positivo na geração de emprego ano passado. Também representou 21,35% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

"O cenário sustentável do agro se faz presente nas esferas econômica, ambiental e social. Respeitamos o processo criativo da escola de samba em questão. O que não concordamos é o estímulo feito para que o produtor seja visto como o vilão do nosso País", alegou nota da federação.

MAIS PROTESTO

A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) emitiu nota de repúdio e defendeu que a Imperatriz Leopoldinense mostrou "despreparo e ignorância quanto à história brasileira e à realidade econômica e social do país".

E prosseguiu: "Inaceitável que a maior festa popular brasileira, que tem a admiração e o respeito da nossa classe, seja palco para um show de sensacionalismo e ataques infundados."

As entidades não relacionaram as críticas aos conflitos indígenas que acontecem em algumas áreas do país. Em Mato Grosso do Sul, a região sul tem recorrentes confrontos.

A COMPOSIÇÃO

Os compositores do samba enredo que homenageia a região do Parque Nacional do Xingu, que fica em Mato Grosso, são Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna.

A reportagem procurou a escola de samba, que não havia retornado até a publicação desta matéria.

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