Ponta Porã, Segunda-feira, 26 de junho de 2017
20/03/2017 06h40

A primeira mulher transgênero candidata a um cargo executivo no Brasil

No site da instituição encontrava apenas o nome masculino, : "Eu me senti deslegitimada como mulher."

Revista Galileu
 
 
(Foto: FELLIPE ABREU, ISMAEL DOS ANJOS E LUIZ FELIPE SILVA) (Foto: FELLIPE ABREU, ISMAEL DOS ANJOS E LUIZ FELIPE SILVA)

Os 20 mil santinhos que conseguiu imprimir com a verba de r$ 1 mil que bancou toda a sua campanha, Samara Braga aparecia identificada por nome e sobrenome. Para o Tribunal Superior Eleitoral, no entanto, "Samara Braga" era apenas um apelido, desses que ficam entre parênteses ao lado do nome de registro do candidato. Quem procurava pela candidata a prefeita de Alagoinhas (BA) no site da instituição encontrava apenas o nome masculino, do qual ela se despediu há cinco anos: "Eu me senti deslegitimada como mulher."

Na véspera da votação, Samara repetiu a rotina de seus últimos meses como candidata. Reservou a primeira hora do dia para arrumar o cabelo comprido e se maquiar e logo saiu para distribuir santinhos pela cidade. De vestido curto, ela passou por pontos de ônibus, lojas e bares entregando um a um os folhetos com seu nome e número. Alvo de elogios sinceros e de olhares de reprovação, Samara tem plena consciência do impacto que causa ao simplesmente pôr a cara na rua. "As pessoas acham que não temos uma vida, que somos seres da noite, como vampiros", diverte-se. "Um dos meus objetivos é romper com esse estereótipo", afirma.

É justamente o estereótipo que afasta mulheres trans da política e do mercado de trabalho. A própria Samara, hoje, está desempregada. "A maioria das mulheres como eu não encontra oportunidades de trabalho e acaba nas ruas, exposta a todo tipo de perigo", diz.

O relatório Trans Murder Monitoring contabilizou o número de assassinatos de transgêneros em 65 países entre janeiro de 2008 e dezembro de 2015, e o Brasil ocupa a trágica primeira posição do ranking: das 2.016 pessoas trans executadas, 802 morreram aqui.

Só na Bahia foram 33 homicídios em 2015. "Eu tinha medo de apanhar na rua, de meus pais não me quererem mais. Eu me escondia e vivia uma vida dupla. E assim a gente não é feliz", lembra Samara, que só decidiu se transformar aos 28 anos. Hoje, aos 33, é mulher, é casada e é uma das vozes da nova política brasileira. Poucas têm essa sorte: a expectativa de vida média da população transgênero no Brasil é de 35 anos — para a população geral é de 74,9 anos.

 
(Foto: FELLIPE ABREU, ISMAEL DOS ANJOS E LUIZ FELIPE SILVA) (Foto: FELLIPE ABREU, ISMAEL DOS ANJOS E LUIZ FELIPE SILVA)

Antes de sua transformação, Samara militou em movimentos LGBT e chegou a se filiar ao PT, mas não obteve o espaço desejado e migrou para o PSOL. "A candidatura de Samara é o resultado natural do crescimento da pauta LGBT no país. Simbolicamente, é muito importante", diz o deputado federal Jean Wyllys, nascido em Alagoinhas e um dos maiores expoentes do partido hoje.

Antes das eleições, o economista Raimundo Barreto, filiado desde 2005, era o favorito a concorrer ao cargo pelo PSOL. Mas Samara acabou ficando com a vaga após votação interna do partido. Nascida na periferia de Salvador, ela entrou para a história — ao lado de Thífany Félix, que disputou a eleição em Caraguatatuba — como a primeira candidata trans a um cargo executivo na história do Brasil. Veio, então, o momento mais difícil do processo: enfrentar as ruas.

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