Ponta Porã, Segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
16/05/2015 08h10

Com a ajuda das forças do alem por - José Alberto Vasconcellos.

Observou-se que nas noites em que há trabalho do curandeiro, o os galos não cantam e os cachorros uivam

Por: Tião Prado
 
 

Com a a ajuda das forças do alem por - José Alberto Vasconcellos.

Impossível precisar sua idade. Homem de pequena estatura, negro, olhar indecifrável. Trajava uns farrapos e quando falava – o que era muito pouco e difícil de entender – agitava os braços e com os dedos parecia querer indicar alguma coisa, onde não havia nada e mais ninguém. Tinha-se a impressão que no local onde só eu e ele estávamos, havia mais pessoas ou entidades, participando daquele encontro.

Seu ranchinho de pau-a-pique, coberto de sapé, estava debaixo de algumas árvores grandes e frondosas, em meio a um descampado. A área pertenceu a um fazendeiro que, beneficiado por um “trabalho” do “seo Guizé” – nome daquele homenzinho eremita – que levava uma vida inexplicável e incompreensível para os mortais comuns, fez-lhe a doação.

Junte-se à esquisitice, que envolvia aquela pequena criatura humana, a pobreza do ambiente em que vive. O local espelha a mais negra miséria que se pode imaginar: a carência absoluta de tudo aquilo que um ser humano precisa, para viver no nível mais modesto e miserável. A despeito de tudo, o “seo Guizé” mostrava-se impassível, satisfeito até, com o que tinha e podia dispor: o ar que respirava, trazido pelas brisas frescas do campo.

Viver solitário e privado de tudo naquele local, levou-me a imaginar que por algum pecado, ele cumpria uma sina que lhe fora imposta pelo destino. Contudo, resignado, abraçou a imposição e a tomou como um sacerdócio a ser cumprido com determinação. Às vezes confuso pela obnubilação provocada pela inanição prolongada, viu nalgum momento de lucidez, abrir-se uma porta para comunicar-se com entidades que moram nas sombras, mas que falavam língua que podia entender; e delas, delirando pela fraqueza, aceitou a ajuda do além que lhe ofereciam, sem nenhuma cobrança que pudesse arrebatar-lhe uma migalha que fosse, do nada que possuia.

Desde então nunca mais sentiu fome ou qualquer incômodo que pudesse perturbar-lhe. Como eremita, sem precisar nada de ninguém, acabou despertando a atenção de algumas pessoas que o viam como revestido de poderes. Ocupavam-se em pensar que o velho tinha alguns poderes. Um benzedor? Um curador? Um vidente? Talvez! Contrapunham os mais lúcidos.

Com base nessas predições populares, o primeiro que realmente acreditou e pediu ajuda ao enigmático eremita, foi o dono da fazenda, o Dr. Alfredo, onde encontrava-se o rancho do eremita. O médico estava inconsolável. Em data recente perdera um filho, assassinado por alguém não

identificado.

O rapaz não tinha inimigos e identificar o autor do crime estava difícil. O Dr. Alfredo, foi até o rancho do curandeiro e depois de alguma dificuldade em comunicar-se, conseguiu contar a história do assassinato do filho. O eremita viu a angústia daquele homem, entendeu seu estado de desespero. Abanou a cabeça em sinal afirmativo, falou e falou coisas ininteligíveis, confabulou com entidades invisíveis que o rodeavam e, finalmente, com voz sumida e palavras quase incompreensíveis, disse que o assassino do seu filho voltaria para pedir-lhe perdão aos seus pés; que caso não fosse perdoado, ali mesmo ele morreria, sentindo as dores da reparação.

O Dr. Alfredo, médico, cientista, culto e viajado, relutou em acreditar nas palavras daquele homenzinho negro, com o rosto tomado pelas rugas, olhar enigmático e uma deplorável e impressionante magreza. Passados sete dias, quando saia da sede da fazenda, viu chegar alguém que prostrou-se aos seus pés – e, como disse-lhe o curador, pedir-lhe-ia perdão por haver matado seu filho!” Pasmo, o Dr. Alfredo não acreditava no que estava vendo.

O capataz que estava perto, curioso por ver aquele estranho ajoelhado aos pés do patrão, foi ver o que acontecia, quando ouviu da boca do patrão: “— Não o perdôo, você matando meu filho, matou também a mim e a inconsolável mãe dele!” O desconhecido que estava de joelhos, caiu de costas puxado por forças invisíveis, que o esganaram com poderosa e terrível força. Morreu silencioso, contorcendo-se pelas “dores da reparação”, como disse o velho. Restou no gramado a carcaça do desconhecido, com os olhos esbugalhados, como se tivesse visto alguma coisa do outro mundo, pelo medo que ficou estampado no seu rosto.

O Dr. Alfredo doou ao velho Guizé uma fração da sua fazenda, onde estava construído seu rancho. Desde então o médico vem tentando providenciar o que imagina que o velho precisa. O velho Guizé, contudo, nunca precisa de nada!

Pelo testemunho do Zacarias, capataz da fazenda, que presenciou a morte do assassino confesso, o velho eremita ficou famoso. É procurado por pessoas que se dizem com problemas.

Observou-se que nas noites em que há trabalho do curandeiro, o os galos não cantam e os cachorros uivam. O interior do ranchinho é tomado por uma tênue luz azulada, enquanto duram seus trabalhos.

25.04.2015 (4800) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

Envie seu Comentário