18/08/2017 17h

Artigo: Só faltava ter que mudar o nome da "sopa paraguaia"

Por: Edilson José Alves

Divulgação: Dora Nunes
 
 

Quando decidiu homenagear Fio Maravilha após um golaço pelo flamengo contra o Benfica em 1972, Jorge Ben Jor não imaginava ao invés de agradecimento seria alvo de processo judicial. Da mesma forma o vereador douradense Cirilo Ramão foi pego de surpresa ao querer homenagear o povo paraguaio com projeto de lei municipal tornando a iguaria ‘sopa paraguaia’ em patrimônio imaterial do município, o que não teria agradado os paraguaios.

Basicamente ‘sopa’ seria um alimento líquido, o que não é o caso da ‘paraguaia’. Segundo a história Carlos Antônio López que governou o Paraguai entre os anos de 1841 e 1862 estava habituado a se alimentar com ‘tykueti’ que era uma sopa branca. Mas em um determinado dia o cozinheiro resolveu dar uma incrementada acrescentando farinha de milho. A sopa acabou engrossando demais e como não daria tempo de preparar outro prato, o presidente experimentou, aprovou o sabor e batizou o novo prato de ‘sopa paraguaia’.

Quase dois séculos depois o alimento continua sendo produzido e agradando o paladar não apenas do povo guarani, mas também dos seus descendentes que vivem em terras que já foram paraguaias, como os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Mas não é só o sabor da sopa paraguaia que cruza as fronteiras, os brasileiros também adoram a chipa, a chipa guazú, o tereré e o som contagiante das guarânias e empolgação da dança polca paraguaia.

Como Dourados já foi fronteira com o Paraguai, já que foi distrito de Ponta Porã, os costumes paraguaios têm uma presença muito forte e é justamente isso que moveu Cirilo. Tanto que o município possui uma das maiores colônias paraguaias do Brasil, tendo inclusive público para prestigiar um programa de rádio cujo apresentador mistura as línguas guarani, espanhola e portuguesa, possui talvez o maior número de ‘chiparias’ do mundo, além de manter a cultura através da Associação do Povo Paraguaio, da igreja católica Virgem de Caacupé, no centro da Praça Paraguaia, bandeira do Paraguai hasteada, um local de lazer inaugurado com a presença do então presidente paraguaio, Juan Carlos María Wasmosy Monti.

Com uma influência tão forte, é natural que o legislador queira deixar registrado em lei e na história a sopa paraguaia como patrimônio imaterial de Dourados. Até por que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como patrimônio imaterial aquilo que a sociedade reconhece como parte integrante de seu patrimônio cultural e a sopa paraguaia é, sem dúvida, patrimônio cultural dos douradenses e, claro, especialmente dos paraguaios, até porque essa é a origem do nome. Agora o que não dá para admitir é essa onda de disse-me-disse, ‘mexericos’ de quem não conhece os rumos da história e ficam fazendo críticas que não levam a lugar algum. Ou será que vão criar tanta confusão que a vereança douradense terá de fazer como Jorge Ben Jor que acabou mudando a homenagem de "Fio Maravilha" para "Filho Maravilha", como forma de se livrar de processo. Só faltava agora ter que dar outro nome a sopa paraguaia.

*Jornalista

edilsonreporter@hotmail.com

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