20/06/2015 05h40

A Figueira do Renê Miguel, por José Alberto Vasconcellos

Lembrei-me do dia em que você pegou-me pelo braço e conduziu-me até ao (ainda pequeno) pé de figueira. Ali junto dela, (da figueira) uma grande pedra com o formato de um peixe.

Divulgação (TP)
 
 

A conversa: Hoje, um dia após o seu sepultamento, passei pela Praça Antonio João, cruzando a esquina (da Praça) que fica ao sul-leste, quase defronte à estátua do Getúlio. Lá estava o pé de figueira que você plantou por ocasião do nascimento do seu primeiro neto.

Lembrei-me do dia em que você pegou-me pelo braço e conduziu-me até ao (ainda pequeno) pé de figueira. Ali junto dela, (da figueira) uma grande pedra com o formato de um peixe.

Lembro-me, embora vagamente, das suas explicações a respeito do por quê do plantio daquela figueira:”—É que no futuro – você afiançou-me – esta figueira será um marco, uma testemunha, um ponto de referência. Isto, claro, depois de dizer que o plantio objetivava comemorar o nascimento do primeiro neto. O seu cartório ainda estava no velho endereço, na Av. Presidente Vargas, próximo ao prédio deste jornal.

Hoje eu passei ali, olhei para a figueira já crescida, instintivamente voltei meu olhar para onde funcionou por muitos anos o seu velho Cartório, como que esperando vê-lo, ainda vivo e alegre, trajando aquele seu colete ou calçado com as botas de caçador. De caçador de nhambu conforme o definiu um paraguaio. Estória que você gostava de contar, afirmando, contudo, que o tinha perdoado porque ele apenas confundiu o nome das aves.

Você gostava dos amigos e ficava parte do dia “mariscando” na porta do Cartório, para ver se via alguém conhecido para um dedo de prosa. Você vai nos fazer falta. Falta à nossa cidade. Falta naqueles bate-papos embalados pelo seu violão e suas milongas.

Você foi um dos que freqüentadores da Santa Paula. Tocando violão e cantando suas milongas, acompanhado pelo Riquito do júnior, ajudou a alicerçar a fundação da Organização dos Velhos Associados de Dourados. Entidade sem fins lucrativos, filosóficos ou filantrópicos, todavia muito ativa, sempre agregou pessoas dispostas a disputar o “vamos ver quem come mais!”, indiferente a raça, religião ou cor política. Ali você sempre se realizou como o artista que sempre foi.

A narrativa: O René Miguel, neto do primeiro prefeito democraticamente eleito de Dourados, João Vicente Ferreira, sempre foi uma figura marcante. Corintiano fanático e cultivador ainda mais fanático de uma boa prosa e de muitos amigos. Foi, também grande caçador de perdiz e pescador.

Como pescador, certa feita, foi atacado por um enxame de abelhas africanas quando navegava pelo Rio Brilhante. Ficou um ano inteiro mostrando a mão com a qual segurou o barco, enquanto mantinha-se mergulhado, para safar-se das picadas. “–Olha, perdi até os pelos da mão!” – dizia. Depois dava um sorriso largo, sua marca registrada. Nenhum amigo ficou sem ver a mão pelada e ouvir a estória das abelhas!

Noutra ocasião, convidou dois amigos para uma pescaria, ficando cada um deles encarregado de providenciar as coisas necessárias. O Noreci apareceu com umas garrafas de “tobaina” e foi barrado no embarque pelo Renê: —Tobaina é bebida de pobre e não entra no meu barco. Refrigerante aqui só Antártica!

Como caçador, sempre contava a estória do paraguaio que o apresentou a um estranho, como “grande caçador de nhambus”, desmerecendo, frontalmente, sua reputação auto propalada de imbatível caçador de perdizes”. Caçador nos velhos tempos, quando ainda havia perdiz para caçar, claro!

Tinha, sempre, uma estória para contar. Uma delas foi quando visitou Buenos Aires e se dispôs a cantar num restaurante, a convite dos músicos locais, depois de ingerir dois “tragos largos”. Cantou! Ora, cantou até tango!

Na Áustria alertou os companheiros de excursão no restaurante: “--Não comam! Isto é carne de cavalo!” O Renê nunca foi focado pelo Canhão de Luz, que este jornal publica nos finais de semana na página Dmais, assim, nunca ficaremos sabendo se ele detestava levantar-se cedo ou se gostava de lazanha.

Fome de que, ele a tinha, -- todos sabemos: prosear com os amigos, contar “causos” e rir p`ra valer. Se tinha um ídolo? Certamente responderia: “— Deus em primeiro lugar e os amigos em segundo!” Você, meu velho, passando por aquela esquina da Praça Antonio João, onde está o pé de figueira, poderá ver ou imaginar, o René sentado na pedra acenando-lhe, doidinho para um dedo de prosa. Então nós, os amigos de sempre, poderemos dizer mentalmente: — René você foi uma página bonita na história de Dourados, que lemos com alegria, com boas recordações e que nos traz, sempre, muita saudade.

05.09.2008 (4511) Bacharel em ciências jurídicas e sociais. (josealbertovasco@yahoo.com.br)

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