José Vasconcellos

Artigo: Preservam “direitos” alheios para garantirem os “ próprios”

Por: José Alberto Vasconcellos

23/06/2018 08h20 - DN

 

Em 1982, em cima de um caminhão, eu participava de um comício como candidato a vereador, ao lado do saudoso companheiro Ivo Cersózimo, quando o deputado, irritado com o procedimento de alguns elementos da outra agremiação política, disse que: "Uma raposa sente cheiro da outra; juntas, elas arrombam o galinheiro e comem as galinhas!"

O deputado Ivo, com sua parábola lembrando as raposas, lembrou-nos de que os políticos, por intuição congênita, agem como esses animais: "Mamíferos da família dos canídeos, de cauda longa, focinho pontiagudo e pelagem espessa, que se alimentam de aves." Raposa: esclarece ainda a enciclopédia consultada, também pode significar: "Pessoa astuta, sagaz." Neste caso, o político!

Assentado o entendimento de que os políticos guardam estreita identificação com as raposas, observamos que, repetidamente, desdobram-se objetivando acobertar, reciprocamente, as falcatruas que praticam e, bem assim, para que não percam — um e outro — os privilégios como a cassação do mandato. Com este objetivo, entendem que é dando que se recebe. Garante-se agora o "statu quo" do colega, mantida e respeitada a tradição de que se deve "segurar" o colega na função, preservando-lhe os privilégios como membro do Parlamento, já que todos freqüentam o mesmo galinheiro, dividem a mesma galinha, mas não sabem o que pode acontecer amanhã. Entendeu?

Vamos agora ao que nos informou o jornal. "Na terça-feira, o deputado federal Nelson Meurer (PP-PR) se tornou o primeiro parlamentar réu da Lava Jato a receber condenação da Corte. Além de Meurer , outros seis deputados federais e três senadores foram sentenciados por delitos como peculato, falsidade ideológica eleitoral,crime contra o sistema financeiro e fraude em licitação." Não se tem dúvida: todos são escroques! Bandidos enrustidos em elevados cargos públicos, eleitos com os votos dos simplórios desinformados e dos beneficiários das migalhas, distribuídas durante a campanha, adquiridas com recursos do obscuro enigmático "caixa dois".

Aí entra a tradição forjada à margem da moral e da vergonha, conforme pode-se conferir na notícia estampada no Jornal "O Progresso", edição de 2/3.5.2018, verbis "Condenado em maio de 2017 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o deputado Paulo Feijó (PR-RJ), representa um caso emblemático sobre a pendência de decisões tanto no Supremo (STF) quanto no Congresso. Quando a Corte analisou sua ação penal (...)decidiu também decretar a perda automática do mandato, por sugestão do ministro Luís Roberto Barroso, por ter sido condenado a mais de 12 anos de prisão em regime fechado, os ministros entenderam que a sanção era uma conseqüência lógica em função do deputado ter de cumprir pena na cadeia. No entanto, (...) Feijó continua livre e exercendo seu mandato." "A perda automática do mandato divide o Supremo, colocação apontada pelo próprio Maia (Presidente do Legislativo)na ação apresentada ao STF. Enquanto a Primeira Turma entende que a decisão da perda de mandato pode ser tomada pela Corte, a Segunda Turma atribui a função somente ao Congresso.

Nesse jogo, checado o interesse dos Congressistas e as providências do S.T.F., o sujeito — tendo como exemplo o caso do deputado Paulo Feijó (PR-RJ) — continua comendo os impostos que pagamos, com as mordomias concedidas pelo Congresso, da ordem anual de R$ 2,140.000,00 para cada parlamentar, ( Editorial - O Progresso, ed. 26.03.2018); além de desfrutar do butim que amealha com o peculato e outras manhas inconfessáveis.

Tivemos, recentemente, outro exemplo marcante: estando o ex-presidente Lula da Silva encerrado numa jaula em Curitiba, cumprindo pena de mais de l2 anos, ele perdeu o direito aos guarda-costas, veículos e outras mordomias esdrúxulas, vistas como direitos naturais pelos políticos e pagas com impostos cobrados dos contribuintes. Qual não foi a surpresa geral dos brasileiros, quando pouco tempo depois, foram os "direitos" prontamente restabelecidas pela Corte suprema, cuja independência e lisura dos seus membros já é bastante discutível, pelo fato de serem indicados e aprovados por políticos, aos quais devem deferência, quando estes são acochados pela Polícia e traumatizados pela caneta do Dr. Moro.

Observem, por fim, que eles decidem, mas o povo é quem paga as contas, ou melhor fornece as galinhas, para os galinheiros tomados pelas raposas.

04-06-2018 (4510) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br).

Envie seu Comentário