“Arranjos fúnebres”,

Morte e as diferenças que a terra tira por José Alberto Vasconcellos

Da analise feita, poderemos concluir se o finado, ali esticado dentro do caixão, era ou não, pessoa de posses: rica!

27/10/2018 06h50 - Divulgação (TP)

 

Em qualquer velório, encontraremos um cadáver: o personagem mais importante do evento, certo? Examinado os "arranjos fúnebres", incluídas – se houver – coroas e o número delas, o que eleva ou rebaixa a categoria do finado, assim como outras "alegorias" correlatas, adicionadas para "enriquecer o evento"; poderemos por fim, depois de atentar para os presentes, concluir se o finado era importante ou não. Trata-se ali do despacho de uma pessoa: querido para uns; nem tanto para outros; ou simplesmente: Já foi tarde! Para os restantes.

Da analise feita, poderemos concluir se o finado, ali esticado dentro do caixão, era ou não, pessoa de posses: rica!

Caso o finado (pessoa rica) apresente a carcaça gorda, ouviremos: — Era um "bon vivant", tinha um apetite de leão! Pulava do churrasco para um feijoada num piscar. Conhecia os bons vinhos e sabia apreciar uma boa mesa! Viveu o bastante para devorar tudo do bom e do melhor! O velório, dada a importância do finado, guarda um ar de festa! Não se ouvem lamúrias, é "um até breve". Todos conversam baixinho: falam de negócios e tecnologias.

Um velório sem coroas, sem flores e às vezes até sem velas, ao contrário, é tomado por pessoas que conversam com voz alta, abordando assuntos que vão desde a avó do falecido, que era benzedeira, até casos de assombração. Por fim até falam do mal, que está levando o finado para a sepultura. Nessas conversas, ouve-se: —Morreu gordo, o sacana! E a imediata correção: — Gordo não! O homem está inchado! Segue o comentário de um desconhecido que desembarcou naquele velório, sem prévia apresentação, mas demonstra conhecer a vida e as causas que levaram o "gordo" à morte.

—Tinha que estar inchado! Asseverou o "estranho". Seu corpo era como um edifício que hospedava todos os tipos de vermes, como "taenia solium", "taenia saginata" e mais uma quantidade incalculável de vermes. Completava o quadro dos "bichos" que habitavam sua carcaça, a doença de Chagas ("tripanossomíase") porque na juventude dividira o seu sangue com as "Chupanças", que com ele dormiam num mesmo catre!

Contudo sendo o cadáver de uma pessoa magra, mas reconhecidamente abonado financeiramente, o comentário será assim: —Morreu magro, sempre foi um atleta, um esportista, amava o próprio corpo, tinha uma saúde de ferro! Evitava extravagâncias. Morreu atropelado. Uma fatalidade!

Todavia no caso de o defunto ter sido um pobre, a magreza do cadáver vai revelar comentários diversos: —Morreu tão magro que dá para ver as costelas! Inanição, abuso da cachaça, do cigarro e outras porcarias corroeram sua carcaça! Caso um cadáver amarelo, com as solas dos pés brancas, valesse algum dinheiro, sua viúva estaria rica! O finado sempre desdenhou os conselhos dos amigos: bebeu todas e vangloriava-se de ser livre. Livre para fazer o que tinha vontade!

Dizem que dinheiro não traz a felicidade porque provoca a cobiça e tumultua a vida das pessoas. Afiançam alguns: — Dinheiro é bilhete de passagem só de ida, para lugares tenebrosos. Insultam e vilipendiam o dinheiro! O certo é que todos correm atrás dele! Ele não compra a felicidade — dizem outros — mas que, em qualquer circunstância, ajuda e muito! Abominado por uns e amado por muitos, o certo é que o dinheiro é um enigma: Tê-lo ou não tê-lo; eis a questão! Sabe-se que o dinheiro faz distinção entre o cadáver de um abastado e de um pobretão. O dinheiro muda as situações: o rico tem apetite; o pobre tem fome!

Para o rico, o casamento é o "Sonho de uma noite de verão"; para o pobre: "mais uma boca para comer feijão!"

Contudo, o certo, é que o dinheiro distingui as pessoas até depois da morte. O que elimina a diferença social entre o rico e o pobre, é a terra. Dizia um pedreiro: "—As minhas diferenças (nas obras) eu tiro com terra; as diferenças entre as classes sociais, a terra tira!

Interessante registrar, que os idosos – ricos ou pobres – precisam de poucas coisas. Precisam de uma casinha sem goteiras; de uma caminha macia e vários travesseiros, para assentar a cabeça e escorar-se; uma sopinha quente que adora e faz-lhe muito bem. Finalmente, o mais difícil: encontrar e cultivar o trato com uma pessoa que lhe seja fiel em qualquer circunstância, para preparar-lhe a tal "sopinha", fazer com que tome banho regularmente e ministrar-lhe os medicamentos nos horários e nas quantidades prescritas.

Depois da morte – rico ou pobre – em igualdade de condições, terão de prestar contas no tribunal do Juízo Final!

17.16.06.2014 (4657) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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