30/12/2017 05h50

O domador por José Alberto Vasconcellos

O silêncio na platéia continuava absoluto.

Divulgação (TP)
 
 

As luzes no interior do circo apagaram-se. A única claridade no ambiente, vinha de um conjunto de lâmpadas estrategicamente colocadas no centro da arena, iluminando a grande jaula redonda.

A orquestra executava uma partitura que produzia uma música com acordes que levavam o freqüentador do espetáculo a um estado de espírito enigmático, indecifrável, entre a curiosidade e o medo.

Cessou a música. Tambores rufaram e por uma pequena entrada lateral na grande jaula, entraram dois grandes leões africanos. Uma lâmpada focando a porta de entrada na arena destinada ao domador, foi acesa.

Uma figura esguia, soturna, surgiu do nada. Era o domador. Ele parou defronte à porta. Trajava uma camisa branca com mangas bufantes; oito botões no peito formando uma ferradura; o colarinho era justo como o do traje de um padre. Calças cáqui e botas com perneiras longas. No cinto, do lado direito um revólver no coldre. As botas, o cinto e o chapéu eram de tonalidade marrom. Ali estava o domador! Sua coragem era invejada pelos espectadores, e seu trabalho, emoldurada por um medo que resfriava os ossos.

Iluminado pela lâmpada que focava sua entrada, o domador, – antes que seu assistente abrisse a porta da jaula --, tirou o revólver do coldre, examinou o municiamento da arma e ajustou o cinto. Tirou a luva negra da mão direita e fez o "Sinal da Cruz". Recolocou a luva e com um discreto meneio da cabeça autorizou o assistente a abrir a jaula. O ajudante entregou-lhe uma cadeira estilizada e o chicote. A porta foi aberta e domador, sob o olhar atônito e aterrorizado da platéia entrou para junto dos leões.

O silêncio era absoluto! Um leão deu um esturro e o outro repetiu. Pessoas quase desmaiaram na arquibancada. Os esturros dos leões eram ouvidos a quilômetros. Seguiu-se o grito do domador em inglês: --Sit down, Kalan! Mamba, sit up! O chicote tinha um estalido cortante. O domador segurava o chicote com a mão direita; na mão esquerda, mantinha a cadeira com os pés virados para os animais.

A orquestra voltou com uma música suave, acariciante, com o volume do som moderado. No interior da jaula os esturros dos leões com quase trezentos quilos cada um, suas jubas volumosas esvoaçando e suas enormes presas arreganhadas e... os gritos do domador, no idioma inglês, porque domados nessa língua. Somente nessa língua os leões atendiam aos comandos, acompanhados dos estalidos do chicote.

Era um espetáculo dantesco: os esturros dos leões, os gritos do domador, os estalidos do chicote e aquele fundo musical com acordes místicos. Os bichos, agitados e indóceis, davam tapas no ar tentando arrebatar o chicote do domador, exibindo um conjunto de unhas aterradoras.

O silêncio na platéia continuava absoluto. Olhos arregalados, bocas abertas e o entorpecimento dos sentidos pelo medo.

No centro daquele ambiente surreal, emoldurado pelo misticismo e enfeitado pelos espectadores imóveis -- o domador! Único: admirado e invejado! Deliciava-se, tomado pelo orgulho da coragem que exibia, plenamente gratificado pela emoção que fluía da platéia.

Todos, agora despertos do torpor, já libertos do medo paralisante, de pé, desdobravam-se em aplausos.

O domador, soturno como uma entidade etérea, desdenhando da vida diante da morte, dava as costas aos bichos. Baixava a cabeça agradecendo os aplausos da multidão delirante, como sempre fizera.

Como o toureiro que vira as costas para o touro enlouquecido, o domador vira as costas para as feras, buscando consagrar sua coragem. Nesse momento, em meio a apoteótica manifestação da platéia, foi que um leão acertou-lhe, pelas costas, um tapa na cabeça. O guarda-jaula atento, disparou duas vezes seu fuzil, matou o bicho e tangeu o outro para fora da jaula. Já era tarde: o tapa da fera quebrara-lhe o pescoço.

O domador estava morto!

Impossível descrever o estado emocional das pessoas que presenciaram aquele espetáculo do começo ao fim. Espetáculo de coragem e de morte! A admiração virou profundo sentimento de perda pela morte do artista, que os havia deslumbrado há tão pouco tempo, com seu magnífico e insuperável trabalho de domador de feras.

A orquestra cessou seus acordes e o mestre de cerimônias pediu desculpas à platéia: "--Distinto público, lamentamos comunicar que por um acidente de trabalho perdemos, nesta noite, o nosso renomado domador. Na realidade uma domadora, Duquesa Eleanor Krowanski, natural da Polônia, que desde menina e contra os refinados costumes da sua família, dedicou-se por toda vida à arte de domar feras, chegando ao auge de sua carreira e na realização plena do seu sonho, em nosso circo. Era membro amado da nossa família de saltimbancos. Vamos sentir a sua falta."

"--Era uma virtuose, e seu último espetáculo aqui hoje realizado, testemunhado pelos senhores, certamente vai coroar com muito brilho sua memória, pela longa carreira e inteira dedicação à arte de domar. Obrigado senhores! Obrigado!"

Enquanto a Duquesa era atendida ainda dentro da jaula, a orquestra com muito apuro tocou "Ave Maria" de Franz Schubert. Muitas pessoas choravam ao deixar o circo, agora transformado num lugar triste e sinistro.

Foi assim que tudo aconteceu. Um dia de êxtase, pelo grandioso espetáculo; e de tristeza, pela morte do artista decorrente do ataque do animal, que ele tão bem soube conduzir durante todo espetáculo. Entre o triunfo do espetáculo e a morte do artista, transcendeu a surpresa de que "o domador" era, na realidade, uma mulher. Uma mulher com o título nobiliárquico de Duquesa na extinta casta de nobres da Polônia.

Fim.

3.02.07.2009 (5757) Bacharel em ciências jurídicas e sociais

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