24/04/2017 15h

Ponta Porã Linha do tempo: Causos e lendas do folclore da fronteira, o violeiro e os três cantos

Por: Yhulds Giovani Pereira Bueno

Divulgação: Dora Nunes
 

"Ponta Porã a princesinha dos ervais, cidade acolhedora e cheia de histórias dos seus ancestrais, Ponta Porã cidade vizinha, Junto à cidade de Pedro Juan Caballero que foi um paraguaio bravo guerreiro de outros tempos de honra e glórias que não voltam mais". Yhulds Bueno. http://pensador.uol.com.br/autor/yhulds_bueno/4/

"A arte emita a vida e a vida emita a arte, mas justamente pelo conceito 'imitar' determina que não seja a mesma coisa, especialmente em deliberação maquiavélica, não no caso da arte retratando a vida. Muitos dos mitos e lendas acabam se originalizado naturalmente de acordo com as crenças culturais e religiosas de uma civilização". Fonte: http://lounge.obviousmag.org/esquina_do_obvio/2012/04/de-onde-vem-os-mitos-e-lendas.html#ixzz42DuJZ2bG

 
Acervo de Carlos Morel, foto da família de Francisco Rodrigues, década de 1930, fazenda emboscada nesta época pertencia à região de Ponta Porã, hoje localizada no município de Aral Moreira.Acervo de Carlos Morel, foto da família de Francisco Rodrigues, década de 1930, fazenda emboscada nesta época pertencia à região de Ponta Porã, hoje localizada no município de Aral Moreira.

Causo é estória, algo narrado a beira de uma fogueira onde todos estão sentados em troncos de árvores, causo pode até ser uma lenda, mais é baseada em fatos vividos por pessoas simples da lida do campo do interior de outros tempos, onde a crença era diferente e respeitada, causo assunto de fim de noite com a família ou de reunião de amigos, o fato é que, acredita quem quer, mas na dúvida ninguém paga para ver se é verdade ou não, só mais um causo da região.

Essa é a lenda de um violeiro que andou na fronteira há muito tempo, homem bem apessoado de fino trato como se dizia antigamente, época que para escutar uma boa música tinha que convidar ou ir onde tivesse um bom violeiro, quem tinha essa habilidade musical era muito requisitado, em reuniões e festas, pois rádio nesse tempo na fronteira não existia, nem ao menos luz elétrica havia nesses tempos, a luz era o do sol ou da lua.

Dom Alejandro segundo relatos de quem cresceu escutando suas façanhas cercadas de mistérios tinha esse talento, além dos demais tocadores de viola ou violão, elegante e galanteador, mas com um ar cheio de mistério, por esse motivo dezenas de pessoas se reuniam ao seu redor, segundo conta sua lenda, Dom Alejandro hipnotizava as pessoas com seu olhar, gestos e maneira de falar. Hoje sua estória está há muito tempo adormecida na fronteira praticamente desconhecida pelas novas gerações.

 
Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto do acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40. Na imagem acima um tropeiro típico fronteiriço fazenda na região do maemi.Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto do acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40. Na imagem acima um tropeiro típico fronteiriço fazenda na região do maemi.

Dom Alejandro quando novo aprendeu tocar violão, mas conta lenda que repentinamente ele se tornou um exímio violeiro e também aprendeu outros atributos, entre eles, de ler a sorte e adivinhar o futuro, esses feitos em outros tempos eram cercados de mistérios algo que muitos preferiam não comentar.

O fato que ele fazia muito sucesso na fronteira, tanto do lado do Brasil em Ponta Porã que era uma pequena vila, de poucas casas e Pedro Juan Caballero que tinha uma vida social, mas agitada, ele também era chamado para tocar nas campanhas (estâncias ou fazendas) naqueles tempos, ninguém nem mesmo a família soube ao certo como ele adquiriu tanto conhecimento em áreas um tanto ocultas, e ninguém se atrevia a perguntar mesmo por que ele não falava a respeito e só realizava a leitura de sorte ou futuro quando queria e de quem ele queria, ou seja, nem todos tinham o privilegio de ser atendido por Dom Alejandro.

 
Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto década de 40. Acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40. Itrio Araújo e amigos músicos se preparando para realizar mais um baile no “Maem”i na região fronteiriça.Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto década de 40. Acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40. Itrio Araújo e amigos músicos se preparando para realizar mais um baile no “Maem”i na região fronteiriça.

Mas o mistério seria parcialmente desvendado quando, certo dia ele foi contratado para tocar, a festa seria em uma fazenda distante o trajeto era feito em lombo de cavalo por picadas, atravessando caraguatá (fruta) e chirca (planta erva daninha) lugar também de muitos espinhos, uma longa distância, para não ir só ele convidou outros dois amigos que às vezes o acompanhava nos bailes da região, o contratante que segundo a lenda era um homem misterioso chegara ao anoitecer, todo de vestimenta preta e um belo cavalo com detalhes de prata, veio ao seu encontro para acompanha-lo, após o longo trajeto tarde da noite chegaram ao local da festa.

Conta à lenda: que a casa que era grande sem janelas no meio da mata, quando chegaram estava vazia, o dono misterioso então ditou as regras, comece a tocar quando o primeiro galo cantar, o galo branco, continue tocando e cantando até o segundo galo cantar, o galo vermelho e você terá uma surpresa quando o terceiro galo cantar, o galo preto.

 
Foto arquivo do autor em meados década de 1920. Cavaleiros típicos das estâncias da região de fronteira. Dom Ramon e Eustáquio Cuevas, ambos, estancieiros produtores ervateiros nesses tempos, onde o cultivo da erva mate ainda estava em plena produção na região fronteiriça.Foto arquivo do autor em meados década de 1920. Cavaleiros típicos das estâncias da região de fronteira. Dom Ramon e Eustáquio Cuevas, ambos, estancieiros produtores ervateiros nesses tempos, onde o cultivo da erva mate ainda estava em plena produção na região fronteiriça.

Dom Alejandro estranhando o fato concordou já imaginando o que poderia acontecer, ao escutar o canto do galo começaram a tocar e cantar, o estranho é que não convidados nem barulho de pessoas, Dom Alejandro temeroso sussurrou para seus companheiros vamos tocar só musicas sacras amigos! Quando começaram a tocar eis que o homem misterioso gritou ao fundo, que pensam que estão fazendo! Parem, e toque outra música, essa não! Exclamou o homem que estranhamente mudara de forma, seus pés e suas mãos tinha a forma de pé de galos com três dedos, conhecido como "três cantos", assustados os três violeiros perceberam que uma movimentação estranha acontecia, subitamente o salão estava cheio de pessoas, esquisitas, com a mesma forma do homem misterioso.

O dono veio ao meio do salão olhando a Dom Alejandro exclamou quero que leia minha sorte! E adivinhe meu futuro! E diga quem eu sou! Rapidamente dom Alejandro começou a tocar novamente a música sacra como nunca tinha tocado, seus amigos o acompanharam mesmo assustados com que acontecia, a fúria tomou conta do salão, um grito ensurdecedor acompanhado de um clarão, e todos despareceram como se nada tivesse acontecido, segundo contam Dom Alejandro e seus amigos continuaram cantando no meio da mata, e foram encontrados dias depois saindo do caraguatá. Contaram o acontecido a todos da região.

 
Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal Ricardo Puléo: Sr. Luis Puléo e amigos músicos fronteiriços em confraternização.Ponta Porã Linha do Tempo. Arquivo pessoal Ricardo Puléo: Sr. Luis Puléo e amigos músicos fronteiriços em confraternização.

Passou algum tempo, até que em certo dia um homem andava a procura de Dom Alejandro, perguntando onde poderia encontra-lo, esse homem alto todo de vestimenta preta montado em um belo cavalo com detalhes prateados de voz grave e olhar intimidador.

Não demorou muito e o homem encontrou Dom Alejandro, novamente pediu para ele ler sua sorte, adivinhar seu futuro e dizer quem ele era, o mistério segue que os dois ficaram trancados dentro da sala da casa de Dom Alejandro, sua mãe esperava do lado de fora, orando e clamando proteção, e o que se ouvia era o homem exclamando leia ou devolva o que é meu e Dom Alejandro dizendo eu não leio e nem adivinho sorte de ninguém, o homem misterioso que na verdade era o "três cantos" gritou nunca mais vai ler nem a minha e muito menos o teu futuro, nunca mais você terá sorte, da mesma forma que o homem apareceu sumiu da região, cavalgando seu cavalo no entardecer sumindo nas matas.

Depois deste acontecimento Dom Alejandro pegou tudo que tinha colocou em uma caixa e seguiu em direção à mata, sabe-se que ele enterrou seus segredos dentro daquela caixa em algum lugar desta fronteira, em baixo da raiz de uma grande figueira, sua mãe curiosa para saber o que o filho faria com a caixa o seguiu, ao perceber Dom Alejandro olhou para mãe e disse mãe nunca mexa ou queira saber o que tem aqui dentro, esqueça esse local se quiser teu filho vivo e salvo, depois disso nunca mais tocou como antes e seu encanto se acabou, muitos diziam que ele tinha feito um pacto, e quando foi cobrado, quebrou o acordo e por isso foi retirado dele tudo que ele tinha pelo homem misterioso o famoso "três cantos". Muitos dizem que ele ainda anda pela fronteira em busca de novos pactos.

A lenda do violeiro foi passada de geração a geração, narradas por poucos descendentes destas épocas distintas de nossa fronteira, hoje pouco espaço tem para os causos de outros tempos, onde a fé o respeito eram virtudes a serem preservados. Lembrar-se do passado e preservar o futuro. As imagens que compõe o texto são ilustrativas.

 
Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor da Rede Municipal de Educação. Prof. Tutor das Faculdades Anhanguera Polo Ponta Porã MS. Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor da Rede Municipal de Educação. Prof. Tutor das Faculdades Anhanguera Polo Ponta Porã MS.