30/10/2017 14h20

Ponta Porã Linha do Tempo: Memória histórica e cultural dos carnavais fronteiriços de outros tempos

Por: Yhulds Giovani Pereira Bueno.

Divulgação: Dora Nunes
 

"O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho". Carlos Drummond de Andrade

Historiadores e arqueólogos forense defendem em suas pesquisas, que existem vestígios desta festa na Grécia antiga aproximadamente 600 a.C. Neste período antigo da civilização as festividades serviam para reverenciar os Deuses, em especial da fertilidade e produção. Séculos depois foi adotada pela Igreja católica aproximadamente em 590 d.C a data seguia o ano lunar, O período do Carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou do latim "carne vale" desta maneira originou-se ao termo utilizado nos dias atuais "Carnaval". Durante o Carnaval havia uma grande concentração de festejos populares. Cada cidade e país da Europa brincavam a seu modo, isso ocorria de acordo com seus costumes regionais, uns mais alegres outros mais reservados.

 
Ponta Porã Linha do Tempo: Foto Arquivo da Família Rodrigues (Francisco Rodrigues in memoriam). Acervo de Carlos Morel. Pancho Rodrigues com amigos e os famosos blocos de carnaval década de 50.Ponta Porã Linha do Tempo: Foto Arquivo da Família Rodrigues (Francisco Rodrigues in memoriam). Acervo de Carlos Morel. Pancho Rodrigues com amigos e os famosos blocos de carnaval década de 50.

O carnaval moderno tem influência direta da França em especial do período vitoriano do século XIX. Paris em especial foi a grande exportadora do evento carnavalesco para o mundo, pois quem visitava a cidade neste período presenciava muitas alegorias e fantasias pelas ruas, dando um colorido especial à cidade.

 
Arquivo pessoal Ricardo Puléo: Sr. Oldemar Sanches esposa Srª Dirce Sanches, Srª Percília Puléo e Sr. Luis Puléo.Arquivo pessoal Ricardo Puléo: Sr. Oldemar Sanches esposa Srª Dirce Sanches, Srª Percília Puléo e Sr. Luis Puléo.

Na fronteira o carnaval de outras épocas em meados dos anos 50 e 60 e 70, épocas essas douradas, de bailes de salão com decorações temáticas ricas em detalhes, que eram realizados no União Tênis Clube – UTC em Ponta Porã e Clube Social Amambai em Pedro Juan Caballero, mas bailes de carnaval também ocorriam no Clube Desportivo Dois de Maio e Clube Social Obreiro – PJC.

 
Arquivo pessoal de Simone Coelho Salles Junqueira. Amigos no Carnaval no UTC meados dos anos 80. Arquivo pessoal de Simone Coelho Salles Junqueira. Amigos no Carnaval no UTC meados dos anos 80.

Um fato épico ocorreu no final da década de 50 onde fora realizado um baile de carnaval nas dependências do galpão da oficina mecânica, do senhor empresário fronteiriço da época João Pinto Costa, A festa aconteceu paralelamente ao do UTC, segundo quem participou do evento, o mesmo foi de grande porte o galpão da empresa foi lindamente decorado, algo que ficou marcado na lembrança de quem participou, vários blocos de carnaval foram criados, em especial se destacou neste evento o bloco carnavalesco do flamenguinho, que pertencia ao Sargento Winckler, que era composto pelos membros do Esporte Clube Flamenguinho, a banda de São Paulo para animar a festa, no repertório marchinhas, entre elas Jardineira e Lua bonita entre tantas outras que animavam os foliões deste evento, que não eram poucos, muitos não puderam entrar, pois o evento superou a expectativa.

Hoje o carnaval de rua e o grande atrativo a nível nacional, em outras épocas os clubes promoviam bailes de gala, os foliões todos a caráter, fantasias elaboradas os blocos organizados, não era raro ver homens de calça de linho branco e camisa estilo havaiana, as mulheres sempre elegantes com seus vestidos estilos Carmem Miranda entre outros modelos de classe e elegância, muito raros era presenciar alguém com roupas curta demais e muito normal o uso de trajes de fina elegância nesses tempos áureos dos bailes de carnaval de clubes fronteiriços.

"Fantasia é um troço que o cara tira no carnaval". João Bosco

 
Arquivo Ponta Porã Linha do Tempo. Bloco dos sujos com seus saudosos participantesArquivo Ponta Porã Linha do Tempo. Bloco dos sujos com seus saudosos participantes

As brincadeiras de certa forma eram saldáveis como para entrar nos clubes somente eram vendidas mesas antecipadamente, meses antes, as famílias marcavam presença homens e mulheres com seus filhos, para dançar com as moças somente com a permissão dos pais, os clubes sempre bem iluminados impediam os namorinhos às escuras, mas sempre existiam os peraltas que gostavam de pregar peça nos outros foliões, indo às mesas distraindo o pessoal que ali estavam sentados cumprimentando conversando, enquanto um era incumbindo de pegar as bebidas e sumir com elas, ou encher os copos e depois saírem rindo, isso em uma época onde todos se conheciam e eram amigos, o lança perfume nesses tempos era somente para espirrar no ar ou na roupa do colega ao lado, sem malícia ou outros fins, um muito utilizado era o "sangue de boi" um spray estilo lança perfume que lançava um liquido avermelhado que manchava a roupa parecendo com sangue, que depois que secava a mancha desaparecia ambos foram proibidos décadas depois por seu uso um tanto indevido nos bailes.

 
Arquivo de Juliana Haselhorst. Banda de percussão do Bloco dos Sujos.Arquivo de Juliana Haselhorst. Banda de percussão do Bloco dos Sujos.

Muitos blocos saiam às ruas no último dia de carnaval, brincando e cantando suas marchinhas, certos blocos tinham sua bandinha que tocava as musicas animando quem estava por perto e quando os blocos se encontravam a disputa era certa, nada de briga ou xingamentos quem ganhava era a alegria, todos se dirigiam aos clubes para animar a festa.

 
Arquivo de Juliana Haselhorst. Componentes do saudoso Bloco do Sujos a concentração na época era casa do senhor Roberto Urizar (acostinha).Arquivo de Juliana Haselhorst. Componentes do saudoso Bloco do Sujos a concentração na época era casa do senhor Roberto Urizar (acostinha).

A origem do bloco mais famoso da fronteira, o "bloco dos sujos", segundo um dos participantes do mesmo, foi quando um grupo de amigos foliões deste período histórico sendo eles: Omenélio Bueno (Hélio), Samuel Campanholi, Atílio Campanholi, Acostinha entre tantos destes tempos, os mesmos saiam nas ruas da cidade, todos vestidos de saias no sábado de aleluia que era a dia do "enterro dos ossos" percorrendo as casas de amigos com uma espécie de caixão, arrecadando comes e bebes e convidando o contribuinte também para seguir o bloco, para fazer a despedida do carnaval que acontecia sempre na casa de um dos amigos, desta ideia que começou o bloco dos sujos que perpetuou por décadas na fronteira sendo seu idealizador o saudoso Roberto da Cruz Urizar (Acostinha).

A fronteira de Ponta Porã é rica em fatos épicos, rememorar os momentos que ficaram gravados na memória e marcaram uma geração e fortalecer a história de uma região e homenagear todos aqueles que contribuíram para o desenvolvimento cultural em seu tempo. Agradecimento especial a todas as famílias que disponibilizam seus arquivos fotos antigas nas redes sociais, enriquecendo as pesquisas com belas imagens.

 
Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Pós Graduado em Ensino de História e Geografia. UNIVALE Fac. Integradas do Vale do Ivaí. yhuldsbueno@gmail.comPesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Pós Graduado em Ensino de História e Geografia. UNIVALE Fac. Integradas do Vale do Ivaí. yhuldsbueno@gmail.com

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