03/10/2017 14h40

Reabilitação do Paciente Pós-AVC: A Vida Continua

Também conhecido como derrame cerebral, o AVC atinge 17 milhões de pessoas em todo mundo a cada ano¹

Divulgação
 

De 5 a 7 de outubro, Salvador (BA) recebe o XI Congresso Brasileiro de Doenças Cerebrovasculares, no Bahia Othon Palace Hotel, realizado pela Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e pela Sociedade de Neurologia da Bahia. A reabilitação do paciente acometido por Acidente Vascular Cerebral (AVC) será um dos destaques do evento, por meio do Simpósio "Integração Multidisciplinar na fase aguda e otimização da reabilitação no pós-AVC", uma vez que das mais 17 milhões de pessoas são atingidas pela doença a cada ano, e em 70% dos casos haverá sequelas funcionais importantes¹.

No Brasil, o AVC é a segunda principal causa de morte, atrás apenas das doenças cardiovasculares². Segundo dados mais recentes do Ministério da Saúde (2014), morreram no país mais de 99 mil pessoas. No mesmo período, mais de 180 mil pacientes foram internados para o tratamento do AVC no Sistema Único de Saúde (SUS). A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS)², inquérito epidemiológico de base domiciliar, avaliou o número absoluto estimado de pessoas com AVC e incapacidade por AVC e respectivas prevalências: mais de 2 milhões de pessoas com AVC e 568.000 com incapacidade grave. A prevalência pontual foi 1,6% em homens e 1,4% em mulheres, e a de incapacidade 29,5% em homens e de 21,5% em mulheres.

Existem dois tipos de AVCs: o hemorrágico, em que ocorre o rompimento de artérias e sangramento no cérebro, e o isquêmico, com o entupimento das artérias, sendo responsável por 80% dos casos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o AVC é a primeira causa de incapacidade funcional no mundo, interferindo nas atividades de locomoção e fala, algumas vezes incapacitando o indivíduo em funções como se vestir e comer sozinho.

Apesar de ter maior incidência entre idosos, pessoas em qualquer idade podem ter um AVC. Atualmente, tem-se observado cada vez mais casos recorrentes em jovens adultos, atribuído a fatores comportamentais nocivos à saúde. Ao mesmo tempo, a grande incidência da doença tem aumentado a urgente necessidade de cuidados adicionais para a reinserção do indivíduo pós-AVC à sociedade.

As recomendações¹ internacionais indicam que o reconhecimento dos sinais do AVC deve ser imediato e assertivo, dada a gravidade das sequelas, que dependerá do tempo de atendimento, que deve ser imediato pois o AVC é emergência médica, dos procedimentos realizados na internação hospitalar e da área do cérebro atingida.

A importância da reabilitação pós AVC

A vida pós-AVC continua e sua qualidade depende diretamente da reabilitação que permitirá ao indivíduo retomar gradativamente suas atividades cotidianas na medida da extensão das suas sequelas. Segundo o neurologista Alexandre Longo, um dos participantes do "Simpósio", membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e da Associação Brasil AVC (ABAVC), a intervenção do paciente deve ser multidisciplinar, formada por neurocirurgiões, neurologistas, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, nutricionistas, psicólogos, entre outros.

"A interação entre estes profissionais é muito importante para o paciente, devendo iniciar já na fase aguda nas Unidades de AVC, onde estes pacientes devem ficar internados e continuar após a alta hospitalar", explica o neurologista.

"O atendimento em Unidade de AVC hospitalar reflete em melhores prognósticos, com melhor progresso na recuperação das sequelas", ressalta Alexandre Longo. O neurologista afirma ainda que com o tratamento nestas unidades os índices de óbitos e de incapacidade são 20% menores em relação aos pacientes que não receberam o mesmo atendimento.

Sequelas - O indivíduo acometido por um AVC poderá ter sequelas, permanentes ou temporárias de acordo com a sua condição. Do total de pessoas acometidas por um AVC, 70% delas terá alguma sequela, cognitiva, de linguagem e/ou motora.

É frequente o paciente desenvolver espasticidade (comprometimento do tônus muscular e exacerbação dos reflexos de contração à movimentação) dos membros, perda de autonomia e dependência funcional. O comprometimento da função motora prejudica as tarefas de vida diária como alimentação, locomoção, transferência e os cuidados de higiene. Quando não tratada, causa contraturas, rigidez, luxações, dor e deformidades.

O tempo faz a diferença no processo de reabilitação, pois o tratamento iniciado de forma precoce aumenta as chances de recuperação do paciente e melhora de sua qualidade de vida. Isto exige um estabelecimento de processos e maior integração multidisciplinar para encaminhamento do paciente o mais breve possível para a reabilitação.

Cerca de 60% dos pacientes com comprometimento motor, ainda que brando, desenvolverá contração muscular excessiva (denominada espasticidade) no lado afetado no primeiro ano, o que pode levar à dor e posturas anormais com prejuízo na sua funcionalidade e cuidado.

A evolução da reabilitação pós-AVC com a ajuda da toxina botulínica A

Aprovada pela Anvisa para o tratamento de espasticidade desde 1992, a Toxina Botulínica A, indicada para a reabilitação, é injetada diretamente nos músculos afetados pela espasticidade e reduz a contração anormal pelo relaxamento destes músculos que, por sua vez, diminui tanto o tônus muscular quanto a dor associada.

A aplicação intramuscular da Toxina Botulínica A promove o relaxamento das fibras musculares, com consequente minimização das contrações involuntárias e/ou da rigidez excessiva, quando há limitação dos movimentos, principalmente, dos braços e das pernas. O relaxamento dos músculos é necessário para a aquisição de mais mobilidade, fundamental para a melhora da qualidade de vida aos pacientes, a fim de que realizem suas atividades cotidianas.

"A toxina botulínica A é considerada uma das formas de tratamento para a espasticidade após o AVC. Ela atua na redução da dor relacionada à contratura do membro, bem como no seu relaxamento. Isso permite também mais mobilidade para os exercícios indicados pelo fisioterapeuta", explica o neurologista soteropolitano Waldyr Rodrigues Jr., médico responsável pelo serviço de bloqueio neuromuscular do Hospital São Rafael, em Salvador (BA). Waldyr também participa da mesa de debates sobre a "Integração Multidisciplinar na fase aguda e otimização da reabilitação no pós-AVC".

No processo de recuperação, os resultados podem ser avaliados com auxílio de ferramentas como a Escala Modificada de Ashworh, a mais citada na literatura para avaliação do tônus muscular. "Esta escala é utilizada para avaliar e controlar os métodos de reabilitação, pois assim pode-se verificar se a intervenção está aumentando ou não o tônus muscular", conclui o neurologista Waldyr Rodrigues Jr.

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