26/01/2018 08h

Órfãos de futebol choram decadência e se viram como podem com portões fechados

Foi a solução encontrada por eles para acompanhar a rodada inicial da mais importante competição local, na tarde de quarta-feira (24).

Correio do Estado
 
 
Uma janela entre a realidade atual e as lembranças das glórias aos que ficam de fora - Foto: Rafael Ribeiro/Correio do EstadoUma janela entre a realidade atual e as lembranças das glórias aos que ficam de fora - Foto: Rafael Ribeiro/Correio do Estado

Deficiente auditivo e mudo, Edes Pires de Albuquerque, 59 anos, gesticula, aplaude, faz sinais que poderiam se passar facilmente como ofensas. Um comportamento normal de torcedor se não fosse um detalhe: o Estádio Morenão, onde ele e um grupo de quatro pessoas se acotovelam para ter uma vista parcial de uma das áreas, está proibido de receber público por determinação do Ministério Público Estadual.

Foi a solução encontrada por eles para acompanhar a rodada inicial da mais importante competição local, na tarde de quarta-feira (24).

A Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) diz ter encaminhado todos os laudos pedidos na última semana e aguarda uma resposta do MPE. Depois de quatro jogos adiados pelo Grupo A, onde estão os quatro representantes da Capital (Novo, Operário, Comercial e União ABC), a decisão era por jogar. E a solução foi jogar com os portões fechados.

Edes e o pequeno grupo são uma espécie rara na Cidade Morena: fanáticos pelos clubes locais, desprezam os grandes brasileiros, cada vez mais presentes nas escolhas dos jovens. E sonham com os grandes feitos de um passado cada vez mais esquecido no cimento desgastado do Morenão.

"A gente tem que valorizar o que é da nossa terra. Quer dizer, tentar. Nem isso eles deixam", disse Bebeto, um jovem de 19 anos que pede sigilo por um motivo mais do que compreensível: matou a ajuda ao pai na conveniência da família para seguir até o estádio.

É um ritual que Bebeto faz há pelo menos sete anos. Aprendeu justamente com o pai. E lamenta que o grupo de até 50 adolescentes que o acompanhava antes, hoje se limitem a duas pessoas.

"É triste, o pessoal cresce, tem outras prioridades na vida. Eu entendo. Mas tinha que trazer o filho, fazer o guri se viciar", disse, antes de ter um lapso de realidade fulminante. "Mas daí a chegar e não poder entrar... Imagina a decepção."

Exceto Edes, único que parece compenetrado na partida dentro daquilo que consegue enxergar, o restante brinca, conversa. São todos operarianos, que estrearia logo mais à noite, mas na distante Rio Brilhante. O Morenão, admitem eles, é mais do que clubismo. É a chance de vivenciar experiências cada vez menos habituais em suas rotinas.

"Eu cresci aaqui dentro", diz um emocionado Carlos Roberto Amaral, 53. Escrituário e morador do vizinho bairro Universitário, na região sul, saiu do trabalho e não pensou duas vezes em passar no velho conhecido antes de seguir para o descanso do dia puxado."Com tradição não se brinca", ri, constangido.

Com mais de 40 anos de arquibancadas do velho Pedro Pedrossian, Amaral é de todos os presentes do lado de fora o mais emotivo.

Pudera, já foi gandula e viu do gramado o seu Galo bater nos tais 13 grandes times brasileiros. Viu de tudo. Vivenciou a tal rotina boleira mencionada pelos jovens. Da semifinal do Brasileirão de 1977 a 1986, última vez que o alvinegro peitou os gigantes, não houve um só dia que o assunto futebolístico fosse outro. Talvez por isso, suas memórias sejam de fato mais doloridas.

"Hoje nós estamos aqui, em pequeno npumero, proibidos de entrar. Houve um tempo que todo esse Estado vinha para o Morenão, de Corumbá a Ponta Porã, a rodoviária enchia e onde estamos aqui, no portão 31, era uma festa de gente que não conseguiu entrar não por desleixo, como agora, mas sim porque não cabia mais ninguém", completou o escrituário, pouco otimista com a mudança de paradigma do cenário atual. "E quando nós partimos, o que sobrará?" A resposta, ninguém de fato parece saber.

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