02/03/2018 13h40

Cerro Corá: 148 anos depois as feridas da Guerra foram cicatrizadas?

* Nivalcir Almeida

 
 

Há quase um século e meio Cerro Corá foi o local para a batalha final da mais sangrenta guerra registrada pela História na América do Sul. A Guerra da Tríplice Aliança, (que recebe várias denominações como Guerra Contra a Tríplice Aliança, Guerra Grande, Guerra Guazu, Guerra do Paraguai) iniciada em 1864 teve seu final numa épica batalha que resultou na morte do que restou do exército paraguaio.

Em Cerro Corá tombou o presidente do Paraguai, Francisco Solano Lopez, um de seus filhos "Panchito Lopez" de 17 anos de idade e cerca de 400 homens. O que restou da sua guarda pessoal.

O enfrentamento com a tropa brasileira ocorreu no dia 1° de março de 1870. Cerro Corá se constituiu num refugio para Solano após um largo percurso por grande parte do território paraguaio. Há registros da passagem do grupo no que hoje se constitui a linha de fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. Localizado na Cordilheira de Amambay, Cerro Corá tem como característica a beleza de uma das maiores reservas ambientais do Paraguai. Na época da Guerra era local de difícil acesso. Provavelmente um dos motivos para Solano se refugiar, fugindo das tropas aliadas.

Hoje é um Parque Nacional que preserva recursos ambientais e muitas informações históricas, inclusive de vestígios de civilizações passadas que habitaram a região há milhares de anos.

Todo ano, no dia 1° de março, um grande número de pessoas visitam o Parque. Centenas de alunos de escolas de diversos locais do Paraguai acampam no local participando de diversos atividades culturais promovidas para relembrar a data histórica.

Autoridades do país vizinho participam de uma solenidade que conta também com a presença de brasileiros especialmente convidados.

Um fato que chama a atenção é que, frequentemente, um representante do Exército Brasileiro se faz presente na solenidade. Atitude que demonstra e existência de excelentes relações entre os dois países, com destaque entre as Forças Armadas.

Sabe-se que muitos oficiais paraguaios participam de cursos e treinamentos oferecidos pelos brasileiros. Até mesmo equipamentos bélicos do Exército do Paraguai com defeitos passam por reparos efetuados pelos técnicos do Exército Brasileiro.

Particularmente, em Ponta Porã, o 11° Regimento de Cavalaria Mecanizado através de seu Comando e de sua Fanfarra, periodicamente homenageiam os paraguaios. É comum ouvir a hino do país vizinho executado pela banda do "Onze", bem como a execução de músicas tradicionais paraguaias nas apresentações culturais que encantam os fronteiriços.

Mesmo com todos os sinais evidentes de cooperação e irmandade, o passado não é esquecido. As feridas da Guerra podem ter sido cicatrizadas, mas na memória coletiva o episódio ainda rende manifestações até mesmo agressivas.

Aqui na fronteira nem tanto, mas outras regiões paraguaias, sentimentos "não tão nobres" ainda são expostos quando o assunto é lembrado, especialmente em datas como a desta quinta-feira, 1° de março.

Uma prova de que os paraguaios ainda não viraram esta página é cobrança, por parte dos paraguaios, pela abertura dos "arquivos" sobre a Guerra, guardados pelo governo brasileiro e também a devolução de uma peça bélica tão estimada pelos vizinhos: o canhão Cristiano que hoje se encontra no Rio de Janeiro.

Em Cerro Corá inclusive há uma placa, assinada pelo então presidente da República, Federico Franco Gomez, instalada no pavilhão dos heróis de Cerro Corá no dia 1° de março de 2013, reiterando o pedido.

Diz a placa: "Pedimos desde aqui, o Altar da Pátria, à presidente do Brasil, pela terceira vez, com respeito, mas com firmeza, o justo e legítimo pedido que faz o povo paraguaio, e eu como Presidente da República: a devolução do nosso canhão Cristiano e os arquivos da Guerra da Tríplice Aliança que pertencem ao povo paraguaio.

Federico Franco Gomez

Presidente da República do Paraguai

1° de Março de 2013"

Quase um século e meio depois do seu final, a Guerra ainda desperta muito interesse entre os historiadores. No Brasil muita coisa já foi publicada, resultado de interessantes pesquisas feitas por estudiosos sérios, criteriosos. Também, e infelizmente, muito conteúdo sem a devida confirmação em documentos históricos, foi publicado, contribuindo mais para desinformar e criar preconceitos em relação aos fatos.

O importante é que não vamos esquecer nunca deste episódio que, mesmo sendo doloroso, ficou num passado em que as pessoas, especialmente os governantes, agiam motivados pela ganância, pelo orgulho, pelo delírio de grandeza. São lições que representam grande fonte de aprendizado para a geração atual e os futuros habitantes do nosso continente.

** O autor é Professor de História e Jornalista. Preside a Academia Pontaporanense de Letras. nivalmeida@hotmail.com

 

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