23/12/2017 05h30

Sete PMs viram réus por sequestro e cobrança de propina de "cigarreiro"

Esquema foi descoberto no dia 1º de dezembro, quando sargento e cabo foram presos. Uma semana depois, mais cinco policiais foram para a cadeia.

Campograndenews
 
 
Depois da prisão, policiais fazem a guarda do caminhão com cigarro que foi pivô de tudo. (Foto: Nyelder Rodrigues)Depois da prisão, policiais fazem a guarda do caminhão com cigarro que foi pivô de tudo. (Foto: Nyelder Rodrigues)

Sete policiais militares de Mato Grosso do Sul passaram, esta semana, à condição de réu por envolvimento em um episódio descoberto no dia 1º de dezembro, envolvendo a cobrança de R$ 150 mil para liberar carga de cigarro contrabandeado avaliada em R$ 1 milhão. A o juiz da Auditoria Militar, Alexandre Antunes, recebeu a denúncia do Ministério Público contra o terceiro sargento Alex Duarte de Aguir, de 38 anos, os cabos Rafael Marques da Costa, de 28 anos, Eduardo Torres de Arruda, 37 anos, João Nilson Cavanha Vilalba, 40 anos, Felipe Fernandes Alves, 31 anos, e os soldados Lucas da Silva Moraes, 28 anos, e Walgnei Pereira Garcia, de 34 anos.

Todos eram lotados no 10º Batalhão de Polícia Militar em Campo Grande, responsável pelo policiamento na região sul, onde o caso aconteceu, e agora passam a ser réus por concussão, crime exclusivo de funcionário público que exige vantagem indevida, e ainda por sequestro. Quando houve as prisões, a informação divulgada era de que tinham sido por corrupção passiva, mas agora a tipificação mudou.

 
Caminhão carregado de cigarro ficou parado na rua Verdes Mares durante o dia em que ocorreram prisões. (Foto: Direto das Ruas)Caminhão carregado de cigarro ficou parado na rua Verdes Mares durante o dia em que ocorreram prisões. (Foto: Direto das Ruas)

Baseada na investigação da Corregedoria da Polícia Militar, feita com apoio do Gaeco (Grupo Especial de Atuação e Repressão ao Crime Organizado, a denúncia da promotora Renata Ruth Fernandes Goya Marinho indica que os policiais usaram uma viatura da corporação para sequestrar, no dia 1 de dezembro, o motorista de um caminhão-baú carregado de cigarros vindo do Paraguai, por volta das 9h. O motorista ficou em poder dos policiais até 19h40 daquele dia quando foi armado um flagrante, com a colaboração de um homem chamado Fábio Garcete, que já foi preso este ano por contrabando de cigarro e denunciou a cobrança para liberar a carga.

Segundo o documento, o motorista da carreta, Rogério Fernandes Mesquita foi abordada na rotatória da saída para São Paulo, quando vinha da região sul do Estado, pela guarnição formada pelos cabo Vilalva e pelos soldados Moraes, Fernandes e Walgnei. Conforme a vítima, os policiais, de cara, se apossaram de R$ 5 mil que estavam no veículo.

Depois, à força, colocaram o motorista dentro da viatura e o levaram até o terceiro sargento Alex de Aguir, o policial de mais alta patente envolvido nesse episódio. Conforme a denúncia, Aguir estava em um carro particular, um Honda Civic, e exigiu a entrega das chaves e dos documentos do caminhão. Isso ocorreu, segundo descrito, sob ameaça "de dar um tiro" na vítima.

Na sequência, o motorista foi levado ao local do caminhão, onde o sargento exigiu que conduzisse o veículo até a Rua Verdes Mares, no bairro Tarumã. Lá, a ordem foi que Rogério entrasse no veículo de Alex de Aguir.

Enquanto isso, os policiais que abordaram o motorista voltaram ao serviços, segundo a denúncia para não despertar suspeitas. Aí entram em cena mais dois denunciados, o cabos Eduardo Torres e Rafael Marques. Torres utilizou-se de dois veículos, um Honda Civic e uma caminhonete Montana e o colega de uma Honda Twister, para fazer a vigilância da carga.

A hora da cobrança – Enquanto isso, o sargento Aguir, segundo as apurações, circulava com o motorista em seu veículo, pressionando-a para pagar a propina exigida, de R$ 150 mil, ou fornecer o telefone de quem pudesse fazer isso.

O relato segue dizendo que, em dado momento, o motorista recebe a ligação de Fábio Garcete e quem atende é o sargento, que faz a cobrança do valor. Garcete, então, informa que conseguiu reunir R$ 30 mil e combina a entrega em um posto de combustível, com a promessa de pagar o restante até a meia-noite do mesmo dia.

"Ocorre eu Fábio denunciou os fatos ao Gaeco", prossegue o documento, segundo o qual a partir disso, tudo passa a ser monitorado e a o flagrante ocorre, feito por integrantes do Batalhão de Choque, às 19h40 daquela sexta-feira. A investigação indica que Aguir encontra Fábio Garcete e entrega o montante. Na sequência, o policial entra no Honda Civic, dirige alguns metros, emparelha com a GM Montata do cabo Torres, a quem repassa o valor recebido. Depois, sai do local.

Quando deixava o posto, Aguir é preso por um oficial do Batalhão de Choque. Perto do local, também acaba preso o cabo Rafael Marques, depois de admitir que aguardava o colega. A denúncia não cita isso, mas a reportagem apurou que foram usadas imagens do circuito de câmeras do posto para a investigação.

E os outros? – O cabo Torres e os outros quatro policiais envolvidos na cobrança de propina só são presos uma semana depois, no dia 7 de dezembro. O texto da denúncia explica que a detenção dos cinco policiais que não forma preso em flagrante ocorreu depois do reconhecimento deles pela vítima.

Como estava com uma carga de produto de entrada proibida no País, o motorista do caminhão acabou preso e levado para a Polícia Federal. Como atuou como informante, a situação de Fabio Garcete não está esclarecida.

O processo em que os policiais viram réus corre na esfera judicial militar. A partir de agora, vão ser ouvidas as testemunhas, primeiro de acusação, depois de defesa. Por fim, é feito o interrogatório e depois o caso vai para sentença. Os sete policiais estão no Presídio Militar em Campo Grande.

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