Eleições 2018

A 4 dias do prazo final, maioria dos partidos ainda não definiu vice

O prazo para registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das chapas definidas até domingo é o próximo dia 15

01/08/2018 09h - Globo

 
Foto: Reprodução/GloboFoto: Reprodução/Globo

A quatro dias do prazo final para a definição das chapas, a maioria dos postulantes à Presidência da República ainda não conseguiu um vice para disputar a eleição em outubro. Os partidos têm até este domingo (5) para realizar as convenções nacionais nas quais serão definidos os candidatos, as alianças com outras legendas ou até mesmo a neutralidade na disputa presidencial. O prazo para registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das chapas definidas até domingo é o próximo dia 15.

Para especialistas ouvidos pelo G1, trata-se de algo inédito. Entre os motivos, eles apontam cenário eleitoral indefinido; receio de exposição ao lado de políticos envolvidos em escândalos; pragmatismo (alguns potenciais vices não querem trocar uma possível reeleição como deputado ou senador por uma campanha majoritária incerta).

Até esta quarta-feira (31), têm chapas completas somente

•PSOL (presidente Guilherme Boulos; vice Sonia Guajajara)

•PSTU (presidente Vera Lúcia; vice Hertz Dias)

•Democracia Cristã (presidente Eymael; vice Pastor Helvio Costa).

Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PSL) e Paulo Rabello de Castro (PSC) já foram oficializados por seus partidos como candidatos a presidente. Mas ainda correm contra o tempo para definir um vice até domingo.

Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Lula, Manuela D’Ávila (PCdoB), Marina Silva (Rede) e Álvaro Dias (Podemos) ainda se encontram na condição de pré-candidatos, aguardando oficialização das candidaturas no fim de semana. Todos estão em busca de um vice.

Pelo menos três postulantes à Presidência já ouviram "não" como resposta a convites para preencher as vagas de vice.

•Jair Bolsonaro (PSL) - Líder das pesquisas nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, é quem recebeu mais negativas. O senador Magno Malta (PR-ES) e o general da reserva Augusto Heleno (PRP) recusaram ser vice de Bolsonaro, que agora aguarda resposta da advogada Janaina Paschoal (PSL) ao convite para ser vice do capitão da reserva.

Geraldo Alckmin (PSDB) - O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) também ouviu "não" do empresário Josué Gomes (PR), indicado pelo "Centrão".

Marina Silva (Rede) - O ator Marcos Palmeira (Rede) não aceitou ser candidato a vice na chapa de Marina Silva (Rede).

Em geral, explicam especialistas, um vice deve agregar à campanha algum diferencial em relação ao cabeça da chapa. Podem ser recursos para financiar a campanha ou potencial de votos em determinado setor ou região do país.

Para um dos coordenadores da campanha de Jair Bolsonaro, o deputado Major Olímpio (PSL-SP), os cenários regionais dificultam as coligações.

Ele lembrou que Bolsonaro chegou a discutir o apoio do PR, mas o partido acabou fechando com Alckmin no pacote do "Centrão". Segundo Olímpio, palanques estaduais impediram o acordo.

O presidente do PDT, Carlos Lupi, diz acreditar que o principal empecilho para a definição dos vices são as negociações ainda em andamento das coligações.

"Você não tem vice se não tem o partido. Primeiro, tem que ter o partido para depois ter vice", declara Lupi. Segundo ele, a definição do vice de Ciro Gomes será somente no domingo, último dia do prazo.

A coordenadora do bacharelado em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Márcia Dias, avalia que a dificuldade dos presidenciáveis em definir um vice é um detalhe periférico de uma crise profunda da democracia brasileira.

"A dificuldade na escolha do vice é somente a ponta do iceberg de uma crise sem precedentes que foi causada por uma série de fatores que questionaram a democracia. A democracia está questionada no Brasil. Ela não está sólida, está em seu ponto máximo de fragilidade", afirma a professora, especialista em estudos eleitorais e partidos políticos.

Especialistas interpretam

Veja abaixo alguns motivos apontados por cientistas políticos entrevistados pelo G1 para a dificuldade dos presidenciáveis de encontrar vices:

Fator Lula - A incerteza sobre a presença de Lula na disputa presidencial dificulta a definição do vice pelo PT e pelos demais partidos, dizem os cientistas políticos ouvidos pelo G1. Embora Lula esteja preso e possa ser impedido pela Justiça de disputar a eleição, a cúpula do PT mantém a estratégia de oficializar e registrar a candidatura e de afirmar que não há "plano B". Para Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a insistência em bancar o nome de Lula afastou aliados históricos do PT, como o PCdoB. "Levar ao limite a candidatura de Lula é uma estratégia arriscada. Uma coisa é coligar com Lula e o PT, outra coisa é coligar com o PT sem Lula", diz Grin. Professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a cientista política Maria do Socorro Braga afirma que a estratégia petista atrasou a definição de vices e coligações. "Como o espectro ideológico de muitos partidos é elástico, ficam todos esperando o que o líder nas pesquisas vai fazer. Isso também atrapalhou Alckmin e Bolsonaro", observa a professora.

Pesquisas eleitorais - Com o cenário indefinido, aumenta o risco para um vice que apostar em presidenciável que patina nas pesquisas. "Os resultados das pesquisas acabam tendo reflexo na escolha do vice. Se o candidato não deslancha, outros partidos temem apoiá-lo", diz a professora Maria do Socorro Braga. Alckmin não passou de um dígito nas pesquisas, mas obteve apoio dos partidos do chamado "Centrão". Ele aposta no tempo de TV que a coligação proporcionará. "Alckmin conseguiu o apoio do 'Centrão', então terá tempo de TV, recursos e capilaridade. Agora, terá de explicar a aliança com um grupo de partidos que tem integrantes entre alvos da Lava Jato", adverte a cientista política da UFSCar.

Pragmatismo - Eduardo Grin diz que as alianças são cada vez mais pragmáticas, na busca de certeza de participação em um próximo governo e na construção de palanques competitivos nos estados. Bolsonaro e Marina são filiados a partidos com pouco tempo de TV, que recebem fatias menores de fundo partidário e fundo eleitoral. Na avaliação de Grin, se o desempenho nas pesquisas não atraiu partidos tradicionais é porque as siglas apostam que as duas candidaturas não terão sucesso.

Efeito Temer - O impeachment de Dilma Rousseff em 2016, com apoio do então vice-presidente Michel Temer, alertou neste ano os presidenciáveis para a necessidade de buscar um parceiro de chapa "confiável", acreditam os especialistas. "É possível dizer que esse histórico recente gerou um 'efeito Temer', que é a busca por um vice confiável. No caso de Dilma, ficou evidente que é possível encontrar razões jurídicas para um impeachment, ainda que a decisão seja política", disse Eduardo Grin. Na visão do professor da FGV, será difícil encontrar perfis "discretos e comportados" como os de Marco Maciel e José Alencar, vices de Fernando Henrique e Lula. "Existe a preocupação se o vice será um companheiro de chapa ou se no futuro poderá ser um opositor e criar problemas, buscando maioria no Congresso para afastar o antigo companheiro", destaca a professora Maria do Socorro.

Prioridade para a reeleição - Parte dos deputados e senadores prefere priorizar a reeleição ao Legislativo a se aventurar como candidatos a vice. Sem financiamento de empresas para as campanhas, com maior peso dos fundos partidário e eleitoral, o interesse para indicar um vice diminuiu, em especial se a legenda tiver que injetar recursos na campanha majoritária. Os partidos que apoiam presidenciáveis preferem canalizar recursos para eleições nos estados de governo ou Câmara.

"Outsiders" desistem - As negativas de nomes de fora da política para integrar uma chapa presidencial como vice sinaliza um receio de manchar suas biografias, analisa a cientista política Márcia Dias. "Os presidenciáveis estão com medo de quem escolher, mas também as pessoas que não têm manchas na política não estão querendo correr o risco manchar seus nomes com processos que podem vir a comprometê-las", diz.

Vices no comando

Veja abaixo casos de vices que assumiram o mandato do presidente eleito:

João Goulart (1961-1964) - Em uma época em que os eleitores brasileiros votavam separadamente para presidente e vice, o gaúcho Jango – afilhado político de Getúlio Vargas – foi eleito duas vezes para a Vice-Presidência. Em 1955, ele teve mais votos do que Juscelino Kubitschek, que foi eleito presidente. Na eleição de 1960, Jango foi eleito vice de Jânio Quadros. No ano seguinte, o gaúcho assumiu a Presidência com a renúncia de Jânio, porém, foi destituído do cargo três anos depois por um golpe militar.

José Sarney (1985-1990) - Ex-governador do Maranhão, foi senador durante o regime militar. Filiado à Arena, partido pró-regime, migrou para o MDB para ser o vice de Tancredo Neves na eleição indireta de 1985. Com a morte de Tancredo às vésperas da posse, Sarney acabou assumindo o poder. O governo Sarney (1985 a 1990) foi marcado pela superinflação e pelo desabastecimento de produtos. Durante a gestão dele, foi proclamada a Constituição de 1988.

Itamar Franco (1992-1994) - Ex-prefeito de Juiz de Fora (MG), foi eleito vice-presidente na chapa de Fernando Collor (PRN), em 1989, na primeira eleição com voto direto após a ditadura. Itamar assumiu o Planalto em 1992, após Collor renunciar para tentar se livrar de um impeachment. No mandato de Itamar, entrou em vigor o Plano Real. Após deixar a Presidência, Itamar foi embaixador em Lisboa e Roma, governou Minas Gerais e voltou ao Senado. Morreu em 2011.

Michel Temer (2016-2018) - Um dos principais caciques do MDB, Temer se elegeu vice pela primeira vez em 2010, ao lado de Dilma. À época, além de comandar a sigla, presidia a Câmara. Com o poder que concentrava, impôs ao PT o próprio nome para vice. No primeiro mandato, teve papel discreto, porém, no segundo saiu em busca de votos para o impeachment após romper com o PT. Assumiu a Presidência em 2016 e decidiu não disputar a reeleição neste ano por conta da baixa popularidade.

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