O tabuleiro sucessório de 2026: renovação forçada e estratégias de poder nos estados, por Bosco Martins

Bosco Martins

Com apenas nove governadores aptos à reeleição, cenário aponta para transformações nos comandos estaduais e movimentações rumo a 2026

Se as eleições de 2026
desenham um cenário de indefinições no plano nacional, nos estados o xadrez político já começou a ser jogado — e com uma particularidade: apenas nove dos 27 governadores poderão disputar a reeleição. Os demais, em segundo mandato consecutivo, estão constitucionalmente impedidos de tentar a permanência no cargo. O resultado é uma renovação quase compulsória que promete reconfigurar alianças, redesenhar projetos políticos e abrir espaço para novas lideranças.

O peso do Nordeste e a força do PT

A região Nordeste concentra o maior número de postulantes à reeleição — cinco ao todo. Desses, três são petistas: Jerônimo Rodrigues (BA), Elmano de Freitas (CE) e Rafael Fonteles (PI). O dado revela não apenas a força eleitoral do partido na região, mas também a estratégia do PT de preservar suas bases enquanto articula nacionalmente a sucessão presidencial. Na Bahia, Jerônimo deve reeditar a polarização com ACM Neto (União Brasil); no Ceará, o embate com Ciro Gomes (PSDB) promete reeditar a rivalidade entre lulismo e trabalhismo. Já no Piauí, Fonteles aparece como favorito, o que pode consolidar o estado como um dos redutos mais sólidos da legenda.

Centro-Oeste: entre a reeleição e as articulações nacionais

Em Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP) é o único nome da região que tentará um novo mandato. Sua saída do PSDB em 2025, após a migração para o PP da senadora Tereza Cristina, não foi apenas uma troca de legenda — representou o esvaziamento definitivo da sigla tucana, que pela primeira vez desde sua fundação não comanda nenhum estado. Riedel enfrentará Fábio Trad (PT) em uma disputa que opõe projetos políticos distintos e que pode funcionar como termômetro do humor do eleitorado sul-mato-grossense em relação aos governos Lula e Riedel.

Já no Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) vive um paradoxo. Impossibilitado de concorrer à reeleição, articula candidatura ao Senado, mas enfrenta desgaste com as revelações sobre as relações do BRB com o Banco Master. O caso expõe os riscos de se manter próximo ao poder enquanto se tenta viabilizar um novo projeto eleitoral. Seu destino pode influenciar diretamente os rumos do MDB no Centro-Oeste.

Em Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) aposta suas fichas na Presidência da República, repetindo a estratégia de Eduardo Leite (RS) e, em certa medida, de Romeu Zema (MG). O movimento revela uma tendência entre governadores de segundo mandato: transformar a impossibilidade de reeleição em trampolim para o Planalto. O desafio será equilibrar a gestão estadual com a campanha nacional sem perder o controle das bases locais.

Sudeste e Sul: o peso do “centrão” e a sombra de 2022

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) resiste à pressão de setores bolsonaristas para antecipar uma candidatura presidencial e mantém o foco na reeleição. A decisão, embora pragmática, também reflete um cálculo: consolidar-se no maior colégio eleitoral do país antes de projetar voos mais altos. Seu apoio explícito à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto indica que, a depender do cenário nacional, Tarcísio pode se tornar peça-chave na articulação da direita em 2026.

No Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) vive situação singular. Eleito vice, assumiu com o impeachment de Witzel e foi reeleito, mas não pode disputar novo mandato. Sem vice-governador desde 2025, uma eventual renúncia de Castro obrigaria a Assembleia Legislativa a eleger um governador tampão — cenário que expõe a fragilidade institucional do estado e abre margem para negociações políticas nos bastidores.

No Sul, Ratinho Júnior (PSD) e Eduardo Leite (PSD) disputam o mesmo espaço político nacional, mas com estratégias distintas. Enquanto Ratinho mantém discurso moderado e diálogo aberto com o governo Lula, Leite tenta se reposicionar após a frustrada candidatura presidencial de 2022. Ambos, no entanto, enfrentam o mesmo dilema: como transferir capital político estadual para uma disputa nacional sem perder o controle das alianças locais.

O que esperar até abril

Até 4 de abril, prazo final para desincompatibilizações, os cenários ainda podem mudar. Renúncias estratégicas devem alterar a composição dos governos em pelo menos 18 estados, com vices assumindo o comando e, em alguns casos, tornando-se protagonistas de um novo ciclo político. A renovação forçada pelos limites constitucionais, aliada às ambições nacionais de governadores experientes, promete fazer de 2026 um ano de transformações profundas no mapa político brasileiro.

Bosco Martins é escritor e jornalista