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sábado, 17 de outubro, 2026

01/JUNHO: Aniversário de um menininho chamado CASSIANO MARCELO

Por: Diolbelso Teodoro de Souza

31/05/2019 15h – DN

O menininho loiro de Seis aninhos brincava na rua em frente à casa. Não era de perder muito tempo à mesa da cozinha e logo corria porta afora. Tinha compromissos com pardaizinhos vadios e borboletas que disputavam o pouso no guidão da sua bicicletinha; um cãozinho vira-latas e galinhas também participavam das correrias.

Ria o tempo todo e disparava como uma fatia de Sol nos gramados, nas ruas vermelhas e ribanceiras dali. Voltava para casa com a carinha e as mãozinhas sujas de alegria para descansar no piso fresco da varanda.

Ninguém se sentia incomodado com a algazarra dos pequenos seres dos quintais com o garotinho. Uma alegria desvairada tomava conta do lugar: a locomotiva da vida abastecia ali e o garotinho era o piloto.

A família trabalhava pesado no beneficiamento da madeira bruta e se orgulhava: o dia começava às 5 da Manhã na Serraria em frente à casa. Tinham vindo da Região de Cascavel há poucos anos para fincar raízes em Amambai.

Naquele Dezembro/1.975 havia muita madeira para ser puxada e serrada antes da saída de Férias para Camboriú. O escritório, num terreno ao lado da residência, era um entre e sai de gente para os acertos de final de ano.

Era rotina de um dos motoristas principais da Serraria estacionar o caminhão de carregar toras numa elevação do terreno, em frente ao escritório, para quando fosse sair descer de Ré e o motor não ‘afogar’.

No fatídico dia 05/12/1975, o garotinho pedalava sua bicicleta nas ribanceiras da rua e foi chamado para casa. Quando vinha subindo pela passagem, o motorista ligou o motor do caminhão, colocando-o em funcionamento em Ré, sem perceber o menininho logo atrás, com a bicicletinha.

“Ele concordou e começou a subir em direção à casa, com sua inseparável bicicleta. Nesse momento, o nosso motorista, que precisava levar o caminhão para a oficina, começou a manobrar, dando um longo Ré, bem ao lado do Escritório. O motorista ficou estarrecido quando viu logo à frente do caminhão o Cassiano caído com sua bicicleta” – descreveu a mãe.

O corpinho esmagado não emitiu nenhum som, como um cordeirinho abatido no comecinho da vida: Não teve chance de chorar ou gritar pela mãe, pelo pai… sem uma despedida, o último abraço, o último beijo. Ninguém presenciou o último suspiro, o sopro de vida esvaindo até apagar completamente os olhinhos da cor do Céu.

Contaram-me (e eu faço questão de deixar registrado) que a tristeza ficou tão espessa e palpável por ali, que era como uma cortina de fumaça que emergia da Serraria e alcançava toda a Cidade, molhando os olhos das pessoas.

A família, pouco tempo depois, foi embora de Amambai. Para não sofrer ainda mais com as lembranças tão próximas do ocorrido. A mãe, inconsolável, dizia que “todo mundo deveria ter em casa um menininho assim”.

Eu não estava aqui em 1.975, haja vista que cheguei onze anos depois.

Recentemente, passei por ali: vi as casas da residência e do escritório, construídas de Madeiras de Lei, com as tábuas longitudinais bem lapidadas, ainda íntegras e sem rachaduras. A rua íngreme, a varanda e os quintais parecem entorpecidos, como se ainda à espera do garotinho com a bicicletinha.

Depois eu me sentei no degrau mais alto do Cruzeiro pomposo, reformado – fincado no alto do morro – bem próximo ao local da tragédia, agora com uma longa fatia
de asfalto novinho se estendendo aos seus pés.

Fiquei apreciando o Crepúsculo e por alguns instantes fechei os olhos.

E vi uma pequenina mecha de Sol em disparada pelas ladeiras das ruas, nos quintais e entre as árvores, acompanhada por um cortejo de borboletas, galinhas e passarinhos.

E por um cãozinho barulhento logo atrás.

01/JUNHO: Aniversário de um menininho chamado CASSIANO MARCELO

01/JUNHO: Aniversário de um menininho chamado CASSIANO MARCELO