Há 41 anos, o Brasil iniciava uma trajetória institucional de valorização da ciência, da tecnologia e da inovação. A criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 15 de março de 1985, representou mais do que a organização de políticas públicas para o setor. Não se tratou de construir apenas prédios ou de colecionar relatórios: foi uma escolha de Estado para construir capacidades — universidades fortes, laboratórios, redes de pesquisa — que sustentassem a autonomia do País. Hoje, essa ambição tem destino: transformar conhecimento em soberania, reduzir dependências externas e cultivar tecnologia que responda aos problemas do cotidiano brasileiro.
Essa rota para a soberania tecnológica exige persistência, investimento e, acima de tudo, confiança nas pessoas. Afinal, tecnologia não nasce de políticas abstratas: nasce de mãos que medem, de olhos que observam, de crianças que sonham e de cientistas que retornam para ensinar. É aí que a história do ministério ganha carne — quando as políticas públicas encontram rostos, vozes e vidas.
Onde a ciência começa

- Nathaly Lopes Archilha é pesquisadora e lidera uma das equipes do acelerador de partículas Sirius. Foto: Divulgação CNPEM
Os grandes avanços científicos e tecnológicos de um país começam com pessoas dispostas a fazer perguntas difíceis e buscar respostas que ainda não existem. Pesquisadores são responsáveis por transformar curiosidade em descoberta, descoberta em conhecimento e conhecimento em soluções que impactam a economia, a indústria e a vida cotidiana.
Esses profissionais atuam em universidades, institutos de pesquisa e grandes laboratórios científicos espalhados pelo Brasil. São eles que desenvolvem novas tecnologias, investigam fenômenos da natureza e formam as próximas gerações de cientistas. Um exemplo dessa dedicação está no trabalho da pesquisadora Nathaly Lopes Archilha.
Aos 41 anos, ela dedica sua carreira a estudar estruturas microscópicas que ajudam a explicar fenômenos naturais e industriais e é líder da linha de luz Mogno, no Sirius, o acelerador de partículas brasileiro. O equipamento fica no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP).
É lá que um dos aparatos científicos mais avançados do mundo permite observar materiais em micro e nanoescala, revelando detalhes invisíveis a olho nu e abrindo novas possibilidades para a ciência e a tecnologia.
“Hoje me considero uma pesquisadora de síncrotron*. Eu e minha equipe garantimos a operação estável da infraestrutura, recebemos usuários de diversas áreas, treinamos para a operação do equipamento e oferecemos suporte desde o preparo de amostras até o pós-processamento dos dados”, explica.
Segundo Nathaly, o impacto do trabalho que desenvolve vai muito além da pesquisa básica. “Essa infraestrutura fortalece a pesquisa nacional ao viabilizar experimentos, permitir o desenvolvimento de novas metodologias e capacitar usuários para extrair resultados de alta qualidade”, afirmou.
Para ela, manter estruturas de pesquisa e financiamento contínuo é essencial para que a ciência avance no Brasil. “Poder desenvolver ciência no Brasil com apoio de políticas públicas significa ter condições reais de transformar conhecimento em impacto para o país”, concluiu.
Quando o conhecimento cruza fronteiras

- A pesquisadora Livia Hecke Morais é uma das especialistas repatriadas por meio do programa do CNPq. Foto: Arquivo pessoal
Falar de ciência é falar de uma atividade global. Pesquisadores circulam entre países, laboratórios e universidades, compartilhando conhecimento e aprendendo novas técnicas. Mas, para que um país fortaleça sua autonomia científica, é fundamental que esses talentos tenham condições de construir suas carreiras também dentro do próprio território.
Programas de bolsas e iniciativas de fomento ajudam a formar cientistas desde a graduação e permitem que pesquisadores que passaram parte de sua trajetória no exterior retornem ao Brasil trazendo novas ideias, métodos e redes de colaboração. A trajetória da pesquisadora Livia Hecke Morais mostra como esse ciclo funciona na prática.
A neurocientista iniciou sua trajetória ainda na graduação, quando recebeu uma bolsa de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. “Eu fui bolsista do CNPq durante a minha graduação, por dois anos, o que me ajudou nos primeiros estágios da minha carreira, quando eu ainda estava me descobrindo como cientista”, explicou.
Ao longo da carreira, novas bolsas permitiram que ela avançasse na pesquisa e consolidasse sua formação acadêmica. “Acho muito importante o apoio de programas do governo durante todos os estágios da carreira científica. Sem esse apoio financeiro desde cedo, perdemos muitas pessoas com grande potencial”, complementou a pesquisadora.
Depois de uma experiência internacional, Livia decidiu retornar ao Brasil para dar continuidade ao trabalho científico. “A perspectiva de receber bolsa e verba destinada à pesquisa foi essencial. Foi o momento certo para expandir minha linha de pesquisa e fortalecer vínculos profissionais locais”, disse.
Para ela, investir em ciência significa investir no futuro do País.
Jovens que transformam pesquisa em inovação

- Hermílio Carvalho venceu o primeiro lugar na 8ª edição do Prêmio Jovens Inovadores do Brics. Foto: Luara Baggi (ASCOM/MCTI)
Se a pesquisa científica é a base do conhecimento, a inovação é o caminho que leva esse conhecimento para a sociedade. Startups, empresas de tecnologia e projetos empreendedores transformam descobertas acadêmicas em produtos e serviços capazes de resolver problemas concretos.
Nos últimos anos, programas de incentivo à inovação têm aproximado universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo. É nesse ambiente que jovens pesquisadores começam a transformar ideias em soluções reais. Um exemplo dessa nova geração é o médico e empreendedor Hermílio Carvalho, o jovem que levou uma inovação brasileira ao Brics.
Com apenas 27 anos, Carvalho já lidera uma empresa de software especializada em IA para a área da saúde. Médico de formação e doutorando em biotecnologia, sua trajetória ganhou reconhecimento internacional ao conquistar o primeiro lugar na 8ª Edição do Prêmio Jovens Inovadores do Brics. “Isso representou para mim uma grande alegria e uma excelente realização profissional. Tivemos uma experiência incrível com o ecossistema de ciência e tecnologia do Brics”, explicou.
Para ele, o avanço de iniciativas inovadoras no País está diretamente ligado ao apoio de políticas públicas e ao olhar de uma nova geração de pesquisadores que busca transformar conhecimento em soluções para problemas reais. “Programas como o Catalise ICT e iniciativas apoiadas pela Finep foram fundamentais para trazer nosso projeto da universidade para o mercado. A gente vê problemas no nosso País há muitos anos e acredita que temos o potencial de melhorar essas situações usando o conhecimento construído nas universidades.”
O futuro começa na curiosidade das crianças

- Kayelle O’hara Barbosa Silva, primeira da esquerda para a direita, foi uma das representantes do Campus Teresina Central do Instituto Federal do Piauí (IFPI). Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)
Antes de se tornar pesquisador, cientista ou empreendedor, quase todo profissional da ciência já foi uma criança curiosa — alguém que olhou para o céu, desmontou um brinquedo para entender como funcionava ou fez perguntas que pareciam não terem resposta. Incentivar essa curiosidade desde cedo é uma das formas mais poderosas de construir o futuro de uma nação.
No Brasil, iniciativas como olimpíadas científicas, programas educacionais e projetos de popularização da ciência aproximam estudantes do universo da pesquisa e mostram que investigar, descobrir e imaginar também pode fazer parte da infância.
Foi assim para as estudantes Kayelle O’hara Barbosa Silva, de 17 anos, do Piauí (PI), e Amanda Varollo Ribeiro, de 14 anos, de São Paulo (SP). As duas participaram do Programa Caça Asteroides, uma iniciativa que permite que estudantes analisem imagens reais do espaço em busca de rochas que cruzam a órbita da Terra. Para Kayelle, a experiência foi uma forma de perceber o tamanho do mundo da ciência. “A ciência tem o poder de mover a sociedade e fazê-la evoluir. Ela combina técnicas e saberes para solucionar problemas que fazem parte da nossa vida em todos os aspectos”, afirma.

- Amanda Varollo Ribeiro, primeira da esquerda para a direita, foi uma das representantes do Sesi Sumaré (SP). Foto: Jerônimo Gonzalez (ASCOM/MCTI)
Amanda também lembra que, no início, tudo parecia novo e desafiador — das imagens espaciais aos programas de computador usados para analisá-las. Com o tempo, a curiosidade falou mais alto. “No começo tudo era muito novo: as imagens, o programa que usamos para analisá-las, a equipe. Mas, com o tempo, fui aprendendo com meus colegas, e caçar asteroides acabou se tornando uma parte de quem sou hoje”, conta.
Entre telescópios, computadores e sonhos de descoberta, as duas estudantes representam algo maior do que uma competição científica. Representam a próxima geração de brasileiros que, ainda na escola, já começam a olhar para o universo — e para o futuro — com olhos de cientista.
Ciência que inclui
Se a ciência amplia horizontes para quem pesquisa e descobre, ela também transforma a vida de pessoas que dependem de tecnologias para viver com autonomia. A chamada tecnologia assistiva reúne soluções desenvolvidas para ampliar a independência e a qualidade de vida de pessoas com deficiência.
Essas iniciativas envolvem pesquisa científica, formação profissional e políticas públicas que garantem acesso a equipamentos e serviços especializados. Entre elas está o programa de formação e entrega de cães-guia, que tem mudado a vida de pessoas com deficiência visual em todo o País.
A fala aponta para algo essencial: tecnologia assistiva não é luxo; é condição para participação plena na sociedade. O Plano Novo Viver Sem Limite e iniciativas correlatas colocam a tecnologia assistiva no centro da política pública, reconhecendo que a ciência só cumpre sua promessa quando melhora a vida das pessoas.
Uma dessas histórias é a do bancário Thiago Felipe Diniz Figueiredo, morador de Brasília (DF). Cego desde a infância, ele passou muitos anos dependendo da ajuda de outras pessoas para se deslocar no dia a dia. A chegada de um cão-guia transformou essa realidade e trouxe maior independência, segurança e qualidade de vida.
“Eu costumo dizer que minha vida se divide entre antes e depois do cão-guia. O menor dos benefícios que ele pode trazer é levar do ponto A ao ponto B. O cão-guia significa autonomia, liberdade, autoestima e companhia. É o acesso à tecnologia assistiva que permite que a pessoa com deficiência participe plenamente da sociedade”, afirma.
A ciência que cuida de pessoas
As histórias reunidas nesta reportagem mostram diferentes rostos da ciência brasileira: a pesquisadora que opera um acelerador de partículas, a cientista que voltou ao País para ensinar e pesquisar, o jovem empreendedor que transformou pesquisa em inovação, as estudantes que descobriram o universo da investigação científica e o homem que encontrou autonomia graças à tecnologia assistiva.
Cada uma dessas trajetórias revela algo essencial: a ciência não existe apenas em laboratórios ou universidades. Ela está presente nas escolhas cotidianas, nas oportunidades que se abrem e nas vidas que se transformam. E para que essa ciência esteja a serviço do desenvolvimento nacional e de mais qualidade de vida para as pessoas é preciso investimento, foco, planejamento e visão estratégica.
Ao completar 41 anos, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação reafirma uma missão que continua atual: construir um país mais justo, desenvolvido e soberano por meio do conhecimento.
Porque, no fim das contas, a ciência se inicia no mesmo lugar: nas pessoas. E é por elas e para elas que há quatro décadas o MCTI dedica seus esforços.



