19/02/2014 09h50
Descrença nas leis, na Justiça e também no aparato policial pode incitar na população atos violentos.
Portalohoje
srael Alves de Morais, de 20 anos, foi preso na manhã de ontem após tentar roubar a carteira e a bolsa de uma mulher, no Setor Universitário, em Goiânia. No início da tarde, na Vila Regina, também na capital, Alcenor Neto de Faria, 32 anos, foi detido após tentar assaltar uma residência na região. Dois casos que aparentemente não possuem correlação entre si, não fosse um detalhe: os suspeitos foram presos pela própria população.
Com o adolescente aprendido e amarrado na última segunda-feira (17), foram três casos de linchamento em Goiânia somente nas últimas 24 horas. No caso ocorrido no Setor Universitário, conforme informações da Polícia Militar (PM), o jovem teria abordado uma mulher e roubado a carteira e a bolsa. Em seguida, teria fugido em um veículo modelo Passat, onde um comparsa o aguardava. Assim que fugiu, testemunhas do crime seguiram o suspeito e conseguiram interceptá-lo já na Rua Otawa, no Setor Jardim Novo Mundo, região leste de Goiânia. Com a abordagem, o grupo de pessoas passou a agredir fisicamente Israel.
Os moradores só pararam de agredir o jovem quando a polícia chegou ao local. Ele foi encaminhado para o Hospital de Urgências de Goiânia, onde recebeu curativos e passou por exames. De acordo com informações da PM, o jovem tem passagens por furto e roubo e é conhecido ladrão da região do Jardim Novo Mundo. A vítima de roubo registrou a ocorrência no 1º Distrito Policial. Assim que receber alta médica, Israel deverá ser detido. Os agressores não foram detidos.
Segundo a PM, no outro caso ocorrido ontem, Alcenor Melo de Faria, de 32 anos, tentou invadir uma residência na Vila Regina para furtar objetos. O suspeito não contava com a presença dos moradores na casa. Passou a ser perseguido na rua. Os vizinhos, ao perceberem a situação, também passaram a perseguir o homem. Ele acabou ficando cercado na Avenida Quinto Junqueira, onde foi agredido com paus e pedras. Como no registro anterior, as agressões só pararam quando a polícia chegou.
Linchamentos
Os dois registros de agressão a suspeitos de pequenos delitos somam-se ao caso do adolescente espancado e amarrado no Setor Alto da Glória, no dia 17. Os casos preocupam autoridades. Esse tipo de conduta ficou visível após um adolescente negro ser agredido e amarrado em um poste com uma trava de bicicleta, no inicio de fevereiro, no Rio de Janeiro. A repercussão gerou debates acalorados nas redes sociais e editorial de uma apresentadora de televisão aprovando os linchamentos. Além dos três justiçamentos em Goiânia, houve registros no Distrito Federal, Santa Catarina, Rio de Janeiro e no Mato Grosso do Sul.
Com os três casos de linchamentos em 24 horas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO) designou membros das Comissões de Direitos Humanos (CDH) e de Segurança Pública e Política Criminal para acompanhar as apurações de atuações de justiceiros diretamente nas delegacias. A intenção da ordem é evitar que acontecimentos semelhantes se tornem corriqueiros e fujam do controle.
De acordo com o presidente da OAB, Henrique Tibúrcio, as comissões designadas vão verificar nas delegacias as apurações das condutas dos envolvidos em justiçamentos. “A partir disso, se essa onda de justiçamentos não cessar, a OAB pretende ampliar o debate e pedir para que a Secretaria de Segurança Pública do Estado investigue diretamente, para evitar que a população continue a praticar esse tipo de ato”, diz.
Tibúrcio salienta que os casos de linchamentos dos últimos dias em Goiânia preocupam, pois podem levar a uma reação generalizada. A falta de crença na Justiça, nas leis e no aparato policial pode ser acentuada, gerando um ciclo. Por meio de assessoria, a SSP-GO diz que os casos são investigados e que não irá comentar o assunto.


