Por 11 anos, 2 meses e 22 dias, Carla Pereira Barros viveu sob violência doméstica. Passava fome com as duas filhas e mal podia guardar o próprio salário. Hoje, aos 40 anos, ela é pedagoga formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), cursa a segunda graduação em Letras-Libras e devolveu o cartão do Bolsa Família com o primeiro salário de professora na conta. A história de Carla é também a história de como a rede de proteção social do Governo Federal pode ser, antes de tudo, uma ferramenta de sobrevivência.
O Brasil julgou, em 2025, 15.453 casos de feminicídio, uma média de 42 por dia. No mesmo período, foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora. Os números revelam a escala de um problema que o Governo do Brasil decidiu enfrentar de forma coordenada com o lançamento do Pacto Todos por Todas e do Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio.
A iniciativa histórica reúne os três poderes para estabelecer medidas protetivas mais rápidas, responsabilização de agressores e ações educativas. No centro dessa estratégia está um dado que a trajetória de Carla confirma. Autonomia financeira é a prevenção primária da violência contra a mulher.
Foi no CRAS que a minha história começou a mudar”
Carla Pereira Barros, pedagoga
A virada começou no CRAS
Carla vivia em Aracaju em situação de dupla vulnerabilidade. A pobreza extrema e o controle absoluto do ex-companheiro, que não a deixava trabalhar e, quando ela conseguia um emprego às escondidas, ficava com todo o salário. O ponto de inflexão veio quando duas amigas a levaram ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do bairro Enedina Bonfim dos Santos. Lá, ela encontrou reuniões com mães em situação semelhante à sua, profissionais que a acolheram e, pela primeira vez, uma saída concreta.
“Por lá, havia reuniões com mães desempregadas que precisavam de ajuda. Foi aí que a minha história começou a mudar. Eu vi uma luz no final do túnel”, relatou Carla em carta enviada para sensibilizar o país contra a violência contra as mulheres.
Foi pelo CRAS que ela acessou o Bolsa Família. No início, precisava esconder o benefício do ex-marido. “Ele pegava todo o meu dinheiro. Passei a esconder o que recebia”, contou. O dinheiro do programa foi o primeiro recurso que era só dela e das filhas. Com ele, comprou alimentos, pagou contas e, pouco a pouco, foi acumulando condições mínimas para um dia sair.
De porta em porta
No CRAS, uma psicóloga com quem construiu amizade a incentivou a tentar o Enem. “Para mim, faculdade era coisa de rico”, disse Carla. Ela tentou duas vezes e não passou. Na terceira, em 2018, foi aprovada em pedagogia na UFS. Por um ano, percorreu os quatro quilômetros entre sua casa e a universidade a pé, até conseguir o auxílio-transporte da instituição.
Ao se formar, em 2023, Carla foi direto ao CRAS com o primeiro salário na conta. Devolveu o cartão do Bolsa Família. “Foi uma alegria imensa ter participado do programa e fiquei mais alegre ainda quando pude devolver o cartão”, celebrou. “Eu fui pensando nas outras pessoas que poderiam estar precisando.”
Hoje ela cursa Letras-Libras, também na UFS, mantém vivo o sonho de abrir uma confeitaria, já que aprendeu a fazer bolos, salgados, doces e tortas em cursos oferecidos pelo próprio CRAS. Ela se apresenta como uma sobrevivente. “Minha missão agora é mostrar que é possível.”
Bolsa Família e SUAS no Pacto Todos por Todas
A secretária nacional de Renda de Cidadania do MDS, Eliane Aquino, destaca que o Bolsa Família vai além da transferência de renda. “Queremos, cada vez mais, que o Bolsa Família, que está em todos os municípios, permita que as pessoas mais vulneráveis possam acessar outras políticas públicas, que elevem a sua escolaridade, qualificação profissional e empregabilidade, para que tenham uma maior proteção social e qualidade de vida”, afirmou.
É essa integração que o Pacto Todos por Todas busca consolidar. A iniciativa reconhece que o enfrentamento ao feminicídio não se resolve apenas com medidas protetivas e punição de agressores. Passa também pela construção da autonomia econômica das mulheres, que muitas vezes permanecem em relacionamentos abusivos pela ausência de renda própria, moradia e perspectiva de futuro.
O SUAS, com sua rede de CRAS e CREAS presentes em todos os municípios brasileiros, é um dos principais pontos de contato entre o Estado e as mulheres em situação de vulnerabilidade. “É nos equipamentos da assistência social que muitas, como Carla, encontram pela primeira vez acolhimento, orientação, acesso a benefícios e a porta de entrada para cursos, emprego e educação”, destacou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias.
“Eu sofri tanto que pensava que a vida não significava mais nada. Então Deus colocou vários anjos na minha frente”, escreveu Carla em sua carta. Os anjos, no caso, estavam no CRAS do seu bairro, as servidoras que acreditaram nela antes que ela mesma acreditasse, e um programa de transferência de renda que lhe deu o primeiro recurso que era genuinamente seu.
Assessoria de Comunicação – MDS
Fonte: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome

