A manutenção da escala de trabalho 6×1 — seis dias trabalhados para um de descanso — tem provocado sérios impactos na saúde dos trabalhadores brasileiros, especialmente nos setores do comércio e da indústria. O alerta é do presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins de Mato Grosso do Sul (FTIAA-MS), Vilson Gimenes, que defende a revisão urgente desse modelo para gerar mais emprego e produtividade.
Segundo ele, a rotina imposta por essa escala tem levado ao adoecimento crescente da classe trabalhadora, realidade que, muitas vezes, não aparece nas estatísticas oficiais de emprego.
“Fala-se muito em geração de vagas, mas pouco se fala da qualidade desses empregos. O trabalhador está adoecendo física e mentalmente por conta de jornadas exaustivas, pressão por produtividade e falta de tempo para descanso e convivência familiar”, afirma Gimenes.
Dados reforçam essa preocupação. Informações do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), apontam que o Brasil registra centenas de milhares de afastamentos por ano relacionados a transtornos mentais e doenças ocupacionais. Em 2023, por exemplo, foram mais de 300 mil afastamentos por problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão — muitos associados diretamente às condições de trabalho.
Além disso, dados do INSS indicam que doenças como LER/DORT e transtornos psicológicos estão entre as principais causas de afastamento laboral no país, especialmente em setores com alta repetitividade e pressão produtiva, como a indústria alimentícia.
Em Mato Grosso do Sul, a situação é semelhante. Trabalhadores da indústria, especialmente em frigoríficos, enfrentam jornadas que começam ainda de madrugada. “Tem trabalhador que sai de casa às quatro da manhã para iniciar o expediente às seis e só retorna à noite, muitas vezes depois das 20 horas. Isso compromete totalmente a saúde e a qualidade de vida”, relata o presidente da FTIAA-MS.
Outro ponto crítico, segundo Gimenes, é a ausência de condições adequadas em parte das empresas. “Ainda encontramos locais sem equipamentos de proteção suficientes, jornadas que ultrapassam dez horas e trabalhadores que não têm sequer previsibilidade de horário para sair. Isso é desumano”, critica.
Para o dirigente sindical, o fim da escala 6×1 não é apenas uma reivindicação trabalhista, mas uma medida necessária para melhorar a saúde pública e a produtividade econômica.
“Um trabalhador descansado produz mais, com mais qualidade. Ele tem tempo para estudar, se qualificar, cuidar da família. Isso movimenta a economia, gera mais emprego e reduz custos com saúde”, argumenta.
A proposta defendida pelo movimento sindical é a redução da jornada semanal para 40 horas, sem redução salarial, com a ampliação do período de descanso.
“Não estamos falando de privilégio, estamos falando de dignidade. Dois dias de descanso por semana são fundamentais para a recuperação física e mental do trabalhador”, enfatiza Gimenes.
Ele também rebate o argumento de que a mudança poderia provocar desemprego. “Essa é uma narrativa que não se sustenta. Ao reduzir a jornada, há necessidade de contratar mais trabalhadores. Ou seja, gera mais emprego e distribui melhor a renda”, afirma.
Segundo o presidente da FTIAA-MS, a pauta já é considerada prioritária pelo movimento sindical em todo o país. “Hoje é praticamente unânime entre os trabalhadores que a escala 6×1 é prejudicial. O que vemos é uma sobrecarga enorme, baixos salários e pouca valorização. Isso precisa mudar”, diz.
Gimenes também chama atenção para o impacto social da atual jornada. “O trabalhador não tem tempo para a família, para os filhos, para si mesmo. Vive apenas para trabalhar e gerar lucro. Isso não é qualidade de vida, isso é sobrevivência”, pontua.
Para ele, o Brasil precisa avançar para um modelo mais equilibrado. “O fim da escala 6×1 é uma questão de saúde, de dignidade e de futuro. Não podemos continuar naturalizando o adoecimento da classe trabalhadora”, conclui.

