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segunda-feira, 27 de abril, 2026

Liberando a agricultura do mandato de segurança alimentar, por Décio Luiz Gazzoni

Em 12/3/26 a prestigiosa revista científica Science publicou um editorial intitulado Releasing agriculture from the food security mandate (bit.ly/4s0zoyZ), assinado por Cristoph Müller, líder do Land Biosphere Dynamics working group, vinculado ao Potsdam Institute for Climate Impact Research, da Alemanha.

O editorial argumenta que a agricultura não deveria carregar sozinha a responsabilidade pela segurança alimentar mundial. Embora o setor esteja apto a produzir calorias e nutrientes suficientes para alimentar toda a humanidade, a fome persiste por razões ligadas à pobreza, desigualdade e sistemas socioeconômicos excludentes. O autor chama isso de “armadilha produtivista”: a crença de que aumentar a produção agrícola resolverá o problema da fome, quando na verdade seu cerne é distributivo. Na opinião do autor, essa visão distorce agendas de pesquisa e políticas públicas, usando a segurança alimentar como justificativa moral para evitar regulações ambientais ou redistribuição de riqueza.

Mudar o foco de políticas públicas

Müller destaca que a agricultura enfrenta uma lista extensa de desafios: reduzir emissões de gases de efeito estufa, conter a perda de biodiversidade, limitar o uso de água e nutrientes, melhorar o bem-estar animal e garantir renda digna aos agricultores. Se, além disso, ela for obrigada a manter preços baixos para assegurar a segurança alimentar, surgem metas conflitantes e inviáveis. O editorial defende que a responsabilidade pela segurança alimentar deve migrar para sistemas sociais e econômicos, por meio de políticas de proteção social, programas de nutrição e mecanismos de redistribuição de renda.

O texto enfatiza que liberar a agricultura desse mandato não significa abandonar a pesquisa em produtividade, mas sim permitir que ela se concentre em sustentabilidade, resiliência e bem-estar dos agricultores. A honestidade nos preços dos alimentos é vista pelo autor como essencial: custos ambientais e sociais devem ser refletidos no valor pago, enquanto políticas sociais assegurem que todos possam ter acesso a uma dieta saudável.

Em síntese, Müller propõe uma mudança de paradigma: tratar a fome como um problema de distribuição, não de produção. Segundo ele, só assim será possível conciliar segurança alimentar com preservação ambiental e justiça social, garantindo que a agricultura contribua de forma sustentável para o futuro.

Contraponto

Minha tendência é concordar com o texto, em suas linhas gerais, em especial com o contido na síntese acima. Mas, questiono diversos pontos, entre eles:

Não deveríamos dispor de um cronograma? Implantar primeiro o conjunto de políticas públicas sociais e ambientais, para depois ingressar na agenda de preços agrícolas refletindo a realidade de seu custo de produção?

Retirando-se a priori o compromisso político de alguns países em manter programas de ajuda alimentar humanitária, na esperança de que um novo sistema o substitua, não vai aumentar ainda mais a fome no mundo?

Igualmente, a correção de preços (pela retirada abrupta de subsídios e outros mecanismos) não levará à redução do volume de alimentos dos programas de ajuda, aumentando ainda mais a fome no mundo?

·        Como engenheiro agrônomo alerto que ganhos de produtividade sustentável, controle de estresses (como pragas ou mudanças climáticas), associados a uma forte consciência de integração da agropecuária com o ambiente, é o melhor caminho para evitar impactos ambientais negativos. Não vejo conflitos, mas sinergia entre esses objetivos. É o que estamos buscando no Brasil.

Sempre defendi a tese de que fome não decorre de déficit de oferta de alimentos, mas da conjugação de dois fatores: a falta de renda para acessar alimentos, e o elevado nível de desperdício, estimado em 31 % (bit.ly/4rVNBNu) entre a colheita e o consumo de alimentos. Façamos um cálculo simples: somos 8,2 bilhões de habitantes no planeta, e a FAO estima em 8 % (673 milhões) o número de cidadãos com fome no mundo (bit.ly/4dJBQGr). Ou seja, apenas reduzindo o desperdício em 25% do atual, já teríamos oferta suficiente de alimentos para aplacar a fome no mundo. Mas, ainda permaneceria o problema distributivista: e a renda para adquiri-los?

Reflexão final

Há outro aspecto, não mencionado no editorial, que eu gostaria de trazer para a discussão sobre segurança alimentar: o que ocorreria se, ao invés de gastos militares em guerras – além do impacto destas sobre o mercado internacional e a reconstrução da infraestrutura destruída – esses recursos fossem usados para alimentação das pessoas famintas?

Vamos aos números. A FAO estima haver 673 milhões de pessoas passando fome no mundo. O World Food Program (bit.ly/4rTUpev) calcula em US$300/ano o valor necessário para alimentar adequadamente uma pessoa faminta. Segundo a média de estimativas de analistas internacionais, a guerra dos EUA e Israel com o Irã pode custar US$200 bilhões em despesas militares, além de US$50 bilhões para reconstrução (se acabar ainda em 2026!), sendo de US$ 400 bilhões o valor estimado (até o momento) para a Guerra Rússia x Ucrânia e de US$ 140 bilhões os embates de Israel na Faixa de Gaza e no Líbano, inclusos os custos de reconstrução. Estes três conflitos se alçam a US$ 790 bilhões.

Dividindo o valor de US$ 790 bilhões por US$ 300/pessoa/ano, verifica-se ser possível alimentar 2,6 bilhões de pessoas durante um ano. Ou seja, apenas os custos de guerra e reconstrução, decorrentes dos conflitos atuais, permitiriam saciar a fome no mundo por 4 anos.

Outro aspecto: a proposta orçamentária para 2027 da Secretaria de Guerra dos EUA é de US$ 1,5 trilhão (bit.ly/4tweMzU). Suficiente para acabar com a fome no mundo por 8 anos. Ou, dito de outra forma, apenas 25% do orçamento militar dos EUA acabaria com a fome no mundo.

Os efeitos do conflito no Oriente Médio já estão sendo sentidos pela agricultura, com avanço acelerado dos custos de energia e de fertilizantes, o que deve aumentar os custos de produção, dificultando ainda mais o acesso à alimentação adequada.

A reflexão proposta é: se lhe fosse dado o poder de decidir, qual seria o melhor uso deste recurso: (1) matar pessoas e destruir infraestrutura, ou (2) salvar centenas de milhões de pessoas da indignidade da fome?

Por Décio Luiz Gazzoni, Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.