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segunda-feira, 18 de maio, 2026

“Pantanal Negro” atravessa fronteiras e leva memórias afro-pantaneiras para São Paulo e Bonito

Há um Pantanal que começa a atravessar fronteiras. Depois da estreia oficial em Corumbá durante o Festival América do Sul, Pantanal Negro segue para pré-lançamentos em São Paulo e Bonito, ampliando o debate sobre ancestralidade, território e afroturismo. O longa será apresentado na segunda-feira (18), às 18h, durante o evento “MS Especial por Natureza”, realizado no MASP, em São Paulo, em uma ação promovida pela Fundtur (Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul). Já no dia 21 de maio, o filme integra a programação do Inspira Ecoturismo, realizado pelo Sebrae/MS, no Wetiga Hotel, em Bonito.

Mais do que sessões de cinema, os encontros funcionam como espaços de ativação cultural e territorial. Em São Paulo, a programação também marca uma ação estratégica da Bela Oyá Pantanal, primeira agência de afroturismo de Mato Grosso do Sul e recentemente reconhecida pelo Prêmio Rotas Negras, do Ministério da Igualdade Racial, entre as dez melhores iniciativas de afroturismo do Brasil. 

Durante a programação, a Bela Oyá Pantanal apresentará as experiências de afroturismo desenvolvidas em Corumbá e em outras regiões pantaneiras, conectando memória, espiritualidade, cultura afro-brasileira e desenvolvimento territorial. A agenda também inclui rodadas de negócios com operadoras nacionais e internacionais, onde o documentário e os circuitos de afroturismo serão apresentados como experiências culturais e territoriais conectadas ao Pantanal Sul-mato-grossense.

Com direção de Adriana Farias e Maxwell Polimanti, idealização, direção artística e produção executiva de Thayná Cambará, Pantanal Negro constrói sua narrativa a partir das histórias de vida de personagens que atravessam o cotidiano afro-pantaneiro. São lideranças religiosas, mulheres negras, famílias tradicionais e mestres da cultura popular que conduzem o público por memórias de pertencimento, espiritualidade, racismo estrutural e resistência. Mais do que falar sobre o Pantanal, o filme escolhe ouvir quem sustenta esse território há gerações.

“Pantanal Negro entra para ampliar o entendimento do que é o Pantanal e reposicionar o afroturismo como uma pauta estratégica. É sobre criar pontes entre mercado e memória, entre economia e identidade, entre o que se vende e o que precisa ser respeitado”, afirma Thayná Cambará, que há anos desenvolve ações voltadas à valorização das comunidades tradicionais e da cultura afro-brasileira no Estado.

A semente do filme nasceu justamente a partir desse encontro entre turismo e território. Em 2023, durante uma produção audiovisual sobre ecoturismo em Mato Grosso do Sul, Adriana Farias e Maxwell Polimanti conheceram Corumbá através de uma experiência de afroturismo conduzida pela Bela Oyá Pantanal. O impacto daquele contato transformou completamente a percepção dos realizadores sobre o Pantanal.

“Pela primeira vez, eu tive a oportunidade de pisar em um terreiro e me aprofundar na cultura afro-brasileira. Ficamos emocionados, instigados e maravilhados com um Pantanal negro desconhecido não só por nós, mas para muita gente”, relembra Adriana. “Quando encerramos o projeto anterior, eu saí com o coração partido porque sabia que estávamos diante de grandes personagens e de uma grande história que merecia ser contada.”

No filme, o Pantanal deixa de ser apenas paisagem e passa a ser entendido como território habitado, atravessado por espiritualidades, apagamentos históricos e permanências culturais. “Existe uma tradição muito forte de representar a região apenas pela natureza espetacular. Mas, quando comecei a me aproximar de Corumbá através das pessoas, principalmente das mulheres negras, descobri um outro Pantanal completamente desconhecido para mim”, conta Adriana. “O desafio do roteiro foi deslocar esse olhar sem negar a beleza da região, mas entendendo que ela também é construída pelas pessoas que sustentam esse território todos os dias.”

Entre as vozes presentes na narrativa estão lideranças religiosas, mestres da cultura popular, famílias tradicionais e personagens que revelam como a presença negra moldou a construção cultural de Corumbá e do Pantanal Sul. O Banho de São João, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, surge como um dos símbolos dessa travessia entre fé, território e ancestralidade.

Para Maxwell Polimanti, que assina a direção, fotografia e montagem, o processo exigiu delicadeza e escuta. “Buscamos um cinema que estivesse próximo das pessoas, respeitando o tempo, a espiritualidade e a verdade de cada personagem. Meu olhar esteve voltado para revelar a força presente nos gestos, nos cantos, nos rituais e nas paisagens desses encontros.”

Mais do que um documentário, Pantanal Negro se constrói como gesto de reconhecimento. Um filme que evidencia um território afro-pantaneiro muitas vezes invisibilizado, mas profundamente presente no cotidiano de Corumbá. “O principal impacto que esperamos é o da reconexão. Que as pessoas entendam que existe um Pantanal negro, ancestral, espiritual e profundamente humano”, afirma Thayná.

A obra também reforça o compromisso da produção com diversidade e inclusão. Pantanal Negro será entregue com recursos completos de acessibilidade, incluindo legenda em português e inglês, interpretação em Libras e audiodescrição. “Não falamos apenas sobre invisibilidade, falamos também sobre inclusão e pertencimento”, destaca Thayná. Segundo ela, o audiovisual também vem sendo utilizado como ferramenta estratégica de sensibilização em rodadas de negócios com operadoras nacionais e internacionais de turismo. “Apresentamos essas narrativas para inspirar as pessoas a conhecerem esse Pantanal. Existe uma estratégia de posicionamento onde território, personagens, memória e experiência caminham juntos.”

Pantanal Negro conta com investimento da LPG (Lei Paulo Gustavo), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul), e tem apoio da Pantanal Film Commission.