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sábado, 6 de junho, 2026

Com tradições ameaçadas, indígenas temem o fim das aldeias em Reserva

Para eles, se a língua, a reza, os cantos e a transmissão de conhecimento não forem retomados, as aldeias podem virar bairros

Enquanto a RID (Reserva Indígena de Dourados) completa 124 anos, moradores veem o futuro com pessimismo. O medo é que, se a língua, a reza, os cantos e a transmissão de conhecimento entre gerações não forem retomados agora, as aldeias Jaguapiru e Bororó podem chegar às próximas décadas mais parecidas com bairros pobres de Dourados do que com territórios indígenas.

Na comemoração dos 124 anos da RID, a reportagem produziu reportagens especiais sobre as aldeias Jaguapiru e Bororó. Esta aborda as perspectivas pouco otimistas para o futuro da Reserva. As outras duas tratam dos problemas sociais, que causam epidemias e denunciam o abandono pelo Poder Público, além de contar a história da comunidade por meio das memórias dos indígenas e de documentos históricos.

Lideranças e descendentes de caciques históricos da Reserva revelam suas preocupações. Para Edna Silva de Souza, professora e historiadora de 76 anos, filha de Marçal de Souza Tupã’i e moradora da Jaguapiru, a Reserva pode alcançar os próximos 30 a 40 anos com descendentes de indígenas, mas sem falantes da língua nativa nem lideranças religiosas e com a cultura reduzida a pequenas “ilhas” de resistência.

Já Ronaldo Arévalo, de 49 anos, irmão do cacique Reinaldo Arévalo, da Bororó, e bisneto de Ireno Isnard, primeiro capitão da RID, acha que esse processo pode ser ainda mais rápido na Jaguapiru, já praticamente urbanizada. Em 1977, relatório do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) já descrevia a Reserva como “quase um subúrbio da cidade” de Dourados.

Com tradições ameaçadas, indígenas temem o fim das aldeias em Reserva
Edna Souza e Ronaldo Arévalo. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Priscila Maciel Duarte Martins Lopes, 63 anos, agente de saúde e cacique rezadeira da Bororó, tenta reagir de outro modo: pede uma casa de reza para manter viva a cultura indígena nas crianças e adolescentes antes que os mais velhos morram, levando junto o que ainda sabem. Ela alerta que, sem isso, será difícil manter a tradição.

Jaguapiru vai virar bairro?

Edna Souza é direta ao falar sobre o que teme para as próximas décadas. Para ela, a perda da língua está ligada à destruição da identidade. Sem o idioma, a cultura deixa de ser vivida em profundidade e passa a depender de lembranças, apresentações pontuais ou registros feitos por outras pessoas. “Daqui uns 30 a 40 anos, não vai ter mais Guarani Kaiowá nem Nhandeva. Vai ter descendente. Não vai ter mais índio falante da língua, nem Nhanderu e Nhandesy [lideranças espirituais do povo Guarani e Kaiowá]”, afirma.

Assim, ela acredita que vão existir grupos que tentam sobreviver, mantendo a cultura viva, mas sem uma comunidade inteira de indígenas. “Vão ser ilhas culturais, que vão manter a cultura do povo Terena, Guarani e Kaiowá”, avalia.

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Local de trabalho do cacique, próximo à entrada da Aldeia Jaguapiru. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Bororó resiste

Ronaldo Arévalo compartilha parte do pessimismo. Para ele, a Jaguapiru está em processo mais avançado de urbanização. “Ela [Edna] fala 30 anos, mas eu acho que nem isso. Em uns 20 anos, principalmente a Aldeia Jaguapiru já estará urbanizada. Só falta asfaltar e colocar os nomes nas ruas e bairros”, comenta.

A cacique rezadeira Priscila Maciel concorda com a previsão mais negativa à Jaguapiru. “Vai acabar, porque lá são muitos karaí [brancos]. E aqui, do lado do Bororó, são todos índios Kaiowá e Guarani, um pouquinho de Terena”. Ela se refere à miscigenação, mais frequente na Jaguapiru.

De fato, a Aldeia Jaguapiru fica mais próxima da cidade e tem concentração populacional muito maior, com residências bastante próximas, característica estranha às comunidades indígenas. Além disso, ao caminhar pela Bororó, é muito mais comum ouvir línguas dos povos originários que na outra aldeia.

A Bororó, segundo Ronaldo, ainda conserva mais força Guarani e Kaiowá, especialmente pela proximidade com outras aldeias tradicionais e pelo uso cotidiano da língua. No entanto, ele não descarta a possibilidade de optarem pela municipalização ou emancipação da Reserva. “Se chegar a urbanizar, os índios daqui vão sair todos e vão para outra aldeia. Eu mesmo posso estar bem velhinho, mas não fico.”

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Aldeia Bororó tem residências mais distantes umas das outras. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

A língua segura o povo

Entre todos os sinais de perda cultural, a língua aparece como o mais grave. Para Edna, o domínio do idioma sustenta a identidade e fortalece a luta política. Quando a criança deixa de falar a língua dos antigos, perde também uma parte da forma de pensar, rezar, lembrar e se reconhecer como indígena.

“Eu acredito que hoje o que não deixa um povo cair é o domínio da língua. Porque a língua é o que traz força de luta para um povo e para um embate, dá segurança para ele lutar”, afirma.

A historiadora reconhece que ela mesma não ensinou a língua às filhas. A decisão, conta, foi atravessada pelo medo do preconceito. Edna queria protegê-las da humilhação sofrida por indígenas fora da aldeia, porque ela mesma foi alvo de preconceito quando saiu para a universidade. “É muito doído.”

Dos 13.673 habitantes da Reserva, segundo o Censo de 2022, 5.248 (41%) não falam a língua indígena. São 6,5 mil moradores da etnia Guarani Kaiowá e 5,7 mil falantes do idioma. Entre os 3,1 mil Guarani, 1,6 mil falam a língua nativa. 

Já dos 3,4 mil Terenas, apenas 129 aprenderam a língua. Nem mesmo o cacique da Aldeia Jaguapiru, Vilmar Martins Machado da Silva, 51 anos, aprendeu a falar o idioma Terena, apenas entende um pouco de Guarani. “A maior parte também não é fluente, só os mais antigos e aquelas famílias que ensinam seus filhos. Na minha faixa de idade, muita gente não aprendeu.”

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Cacique Vilmar Terena, da Aldeia Jaguapiru. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Na Bororó, Ronaldo Arévalo descreve outro cenário. Para ele, o Guarani ainda segue como primeira língua em muitas casas. Ele aprendeu português na escola e defende que as crianças indígenas primeiro aprendam a língua materna, depois o português. “A gente tem que começar ensinando o Guarani, que ele aprende a segunda língua em português, conforme vai crescendo”, afirma.

‘Escola que faz de conta’

A escola é uma frente de disputa para a manutenção cultural. Quando Edna estudou, ela era obrigada a falar e escrever em português. Agora, para ela, o ensino das línguas indígenas nas escolas da Reserva tenta reagir ao apagamento, mas ainda erra no método. Ela critica o modelo que coloca Guarani, Kaiowá, Terena, português e inglês como disciplinas obrigatórias, juntamente.

“Como é que vai aprender todas ao mesmo tempo? Sai a professora Kaiowá e entra a professora de Terena. Não existe isso”, critica. “Faz de conta que eu aprendo Terena, Kaiowá e Guarani; faz de conta que eu ensino. É mais uma forma, não de ensinar, mas de negar”, declara a filha de Marçal de Souza. 

Na avaliação dela, cada criança deveria aprender primeiro a língua com a qual se identifica a partir da própria história familiar. Depois, poderia buscar outras. O modelo atual, segundo Edna, enfraquece as três línguas ao mesmo tempo e cria uma aparência de valorização sem formar falantes.

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Escola Municipal Indígena Tengatui Marangatu, na Aldeia Jaguapiru. (Pietra Dorneles, Jornal Mdiamax)

Como transmitir a tradição?

Quando Marçal de Souza era cacique, a residência da família era uma Casa Grande de Sapé, tradição Guarani Nhandeva. Edna Souza lembra que cerca de 50 crianças passavam pela casa dela ao longo do dia e, para isso, caminhavam pelas matas, passando por córregos.

As reuniões da aldeia também aconteciam na casa do cacique. “Parece que era uma coisa sobrenatural”, diz a historiadora. Na roda de chimarrão, os mais velhos contavam histórias, falavam dos problemas cotidianos e das possíveis soluções. Enquanto isso, as crianças e adolescentes brincavam até a hora da refeição. 

“A gente sentava, comia e ia escutar as histórias dos mais velhos”, lembra Edna. Assim, de forma oral, a memória da comunidade era transmitida entre gerações, assim como os costumes e as tradições indígenas. Hoje, tudo isso é muito menos frequente e feito de forma pontual.

Ela ainda mora na mesma área onde ficava a Casa Grande. Bem perto de lá, onde hoje há uma igreja evangélica, ficava uma casa de reza — espaço reservado pelos Guarani e Kaiowá para as danças e os benzimentos. Hoje, há apenas uma na Reserva, que fica na Jaguapiru.

Com tradições ameaçadas, indígenas temem o fim das aldeias em Reserva
Edna Souza, no território que já foi de seu pai, Marçal de Souza. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Cultura não é só 19 de abril

Para a Guarani Kaiowá Nely Machado, de 27 anos, dona de casa, a cultura indígena não pode ser lembrada apenas em data comemorativa. Filha de Priscila, ela cresceu aprendendo com a mãe a participar de danças, fazer brincos, artesanato e falar a língua indígena. Hoje, tenta repetir o ensinamento com os próprios filhos.

“Não é só no Dia do Índio que a gente tem que mostrar a nossa beleza indígena. A gente também tem que manter a nossa língua, que é o Guarani, o Kaiowá e o Terena”, afirma Nely, ao lado da mãe.

Entre as pessoas que Nely conhece, uma parte ainda transmite os conhecimentos, mas outra parcela deixou de passar adiante o que recebeu dos ancestrais. A preocupação dela não se limita ao idioma. Filha de cacique rezadeira, Nely também teme perder a tradição dos remédios caseiros, das ervas medicinais e das práticas de cuidado.

Ronaldo Arévalo também sente falta da frequência dos encontros. “Antigamente, era tipo uma igreja; terça, quinta, fim de semana; o povo estava lá dançando”, relata. Agora, diz ele, é só no mês dos povos indígenas que muita gente volta a ver as apresentações.

Se os mais velhos não ensinam, acaba

Priscila Maciel fala do futuro a partir da responsabilidade dos mais velhos. Para ela, a aldeia se desorientou quando os anciãos deixaram de ocupar o lugar de ensinar. “A comunidade indígena se perdeu porque o vovô e a avó não estavam mais em frente ensinando para o futuro”, afirma.

Priscila começou a se formar como Nhandesy (cacique rezadeira, líder espiritual) aos quatro anos. A referência dela é o Opy Guaçu (grande casa de reza), onde se aprende como em uma aula, mas na língua e pela espiritualidade indígena. Agora, ela tenta fazer com os netos o que recebeu dos antigos. Quer ensinar reza, remédio caseiro, dança, maracá (chocalho utilizado nas rezas) e cuidado espiritual. 

Sobre o possível prazo de fim das aldeias, Priscila não faz uma previsão, mas um alerta. “Se nós, que somos idosos, não ensinarmos as crianças desde os 6 até os 18 anos, eu acho que ali acaba”, afirma.

Ela diz que muitos querem aprender, mas falta estrutura. É nesse ponto que aparece a demanda por uma casa de reza na Bororó.“O que eu preciso mais é de uma oca, uma Casa de Reza para nós. Eu quero para incentivar essas crianças e adolescentes, para ensinar aqui na Aldeia Bororó.”

Priscila diz que ouve esse pedido de moradores por onde passa. “Tem muitos que querem aprender”, relata. Como agente de saúde, ela percorre toda a aldeia em visitas domiciliares, assim como fazia Marçal de Souza.

‘Chamam a gente de demônio’

Desde os anos 1920, a influência cristã evangélica na Reserva é muito grande. Primeiro, a Missão Caiuá entrou nas aldeias para catequizar os indígenas. Apesar de existir uma resistência inicial a respeito da língua materna pelos professores da Missão, a Igreja Presbiteriana traduziu a Bíblia para o guarani e faz cultos na língua indígena.

No entanto, Priscila afirma que outras igrejas protestantes ainda tentam desqualificar e aniquilar práticas indígenas, especialmente as igrejas pentecostais. Inclusive, da casa da cacique, é possível ouvir bem alto as pregações de um desses templos, que fica próximo dali.

Com tradições ameaçadas, indígenas temem o fim das aldeias em Reserva
Cacique rezadeira Priscila Maciel. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

“Eles chamam a gente de demônio, falam que a gente é chifrudo. Tanto nome feio… Mas eu não ligo, deixa que falem. Eu com Deus agradeço”, afirma a liderança religiosa, que segue altiva diante dos ataques preconceituosos.

Ronaldo Arévalo, que é missionário da Igreja Metodista, também faz distinção entre as igrejas que rejeitam a cultura indígena e as que usam a língua e os cantos dos povos originários. Para ele, é possível ser evangélico e respeitar as ocas, danças e rezas. “Acabei concluindo que Deus é um só.”

‘O poder da caneta’

Se a língua dá força e identidade ao povo, a política pode abrir caminho para as demandas. Para Edna Souza, o ingresso de indígenas na política partidária seria o ponto de partida para o reconhecimento de mais direitos aos povos originários em Dourados e o fortalecimento das duas aldeias.

“Eu falo que a sociedade douradense, e meu pai também falava, ela é anti-índio. Porque, enquanto a gente não colocar, nós indígenas daqui de Dourados e de todas as comunidades, representantes lá dentro, para ter o poder da fala e da caneta, ninguém vai trazer benefício para cá”, declara.

Ronaldo Arévalo faz avaliação parecida. Segundo ele, a Reserva tem força eleitoral suficiente para eleger representantes próprios, mas ainda dispersa votos e perde poder político. “Aqui tem mais de 10 mil votos. Quando é época de política, os candidatos estão todos aqui na Aldeia tomando tereré. Mas ganhou, é tchau e bênção. Cada um por si e Deus por todos”, critica.

Para ele, a comunidade precisa acordar para a própria força. “Eu espero que essa comunidade da Aldeia de Dourados acorde e eleja um vereador indígena para lutar por nós na Câmara. E que eleja também um deputado estadual, porque temos condição para isso.”

Edna Souza aposta suas fichas na juventude universitária. Ela diz que os indígenas precisam ocupar as universidades para registrarem a sua própria memória e a de seus antepassados. Assim, eles poderão alcançar o “poder da caneta” — ou seja, a capacidade de escrever projetos, aprovar políticas e disputar decisões sem depender de intermediários não indígenas. 

“A história vai ser escrita por esses jovens que estão nos bancos acadêmicos. Eles vão escrever outra história com o poder da caneta”, diz Edna. Essa é também uma continuação do sonho de Marçal de Souza, que defendia a união dos povos indígenas em torno de uma luta comum.

Fonte: Midiamax