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O Saci, divertido e brincalhão – José Alberto Vasconcellos

04/05/2014 13h25

Quando está disposto a brincar ele guarda seu cachimbo e assovia

Divulgação (TP)

O saci, quando não está propenso a brincadeiras, embrenha-se nalguma pastagem para espantar o gado ou fazer qualquer outra estripulia, que venha incomodar as pessoas; outras vezes, com um comportamento ameno, detém-se para fazer tranças nas crinas dos cavalos, enquanto assobia baixinho, para acalmar o animal.

Para aclarar o assunto, temos de considerar que a designação “Saci” tem origem na língua TUPI e pode ser definida “como “Entidade fantástica muito popular no folclore brasileiro, representada sob a forma de um negrinho de uma só perna que fuma cachimbo e usa na cabeça um barrete vermelho, que lhe dá poderes mágicos. Também é conhecido por Saci-pererê.” (Enc.Larousse).

Pererê, registre-se é o nome de família da entidade, e quer dizer: “aquele que perereca”. Pererecar é mover-se, agitado,de um lado para outro; pular inesperadamente diversas vezes; ou, simplesmente, pular!

Outros o define como “entidade maléfica em muitas oportunidades, gracioso e zombeteiro em outras, representada por um negrinho de uma só perna, carapuça vermelha na cabeça, amigo de fumar cachimbo, e que durante a noite, anuncia-se pelo assobio misterioso e difícil de localizar-se; diverte-se criando dificuldades, como espantar o gado e os cavalos no pasto e espavorir os viajantes nos caminhos solitários.” “Dic.Melhoramentos).

Quando está disposto a brincar ele guarda seu cachimbo e assovia. Seu assovio gera um som fino, alto e penetrante que parece passear dentro da cabeça de quem o ouve. O som do assovio afeta, nas fazendas, mais a cachorrada, que se sente desafiada pelo duende. Enlouquecida e com os pelos arrepiados ao ouvi-lo, tentam acompanhar o assovio para pegá-lo e, aí é que começa a brincadeira do Saci. Assombrados e desorientados os cachorros avançam onde pensam que o saci está, tentando, sem sucesso, agarrá-lo, latindo e uivando nervosa e descontroladamente, o tempo todo. O reboliço que ele provoca entre os cachorros, parece diverti-lo à bessa!

E quanto mais os cachorros empenham-se em persegui-lo, mais gracejos ele faz, mudando-se de lugar constantemente e com uma rapidez impressionante.

Assovia aqui, ali, acolá, alhures e algures, em frações de segundos, e a cada mudança de local, faz questão de passar rente aos animais para desafiá-los e animá-los para que continuem a inglória perseguição.

Afiançou-me o velho Amâncio, um negro centenário que diziam que fora escravo, que o Saci não é solitário: tem esposa! A diferença entre eles, asseverou o velho Amâncio: é que o saci só tem a perna direita; e sua mulher, apenas a perna esquerda. E mais, quando estão abraçados, usam um capote e caminham normalmente; a perna que falta num e suprida pela perna que o outro tem. Assim a entidade caminha com duas pernas (?), sendo difícil ou impossível até, identificá-los como um casal de Sacis. Estranho, apenas, são as duas cabeças acima da gola do casaco.

Asseverou-me, mais, o velho Amâncio: “—Nós não trouxemos o saci da África como muitos dizem e acreditam, o que nós trouxemos foram mudas de Baobá, árvore que reverenciamos.

Na fazenda onde morava o meu tio, despertei uma noite com o que parecia ser um assovio. Fui até a sala e lá estava o meu tio, também ouvindo. Eu não sabia o que era, mas o meu tio interpretando o medo e a interrogação estampados no meu rosto, disse: “— Calma, rapaz, é só um Saci que está nos visitando. Ele sempre vem; não sei se vem para amedrontar-nos ou para brincar com os cachorros. Mal meu tio acabou de falar e o Saci deu duas voltas ao redor da casa, assoviando. Eu me encolhi, com o couro cabeludo arrepiado, morrendo de medo!

Com o novo dia, o sol encontrou os cachorros exauridos. Nem fome tinham, de tanto “labutar” com o duende visitante. Dois cavalos embaixo da figueira, foram encontrados com as crinas trançadas pelo negrinho. Era verdade então, o que me contaram: o Saci-pererê, de uma perna só, trança mesmo a crina dos cavalos e…das éguas também!

Sobre o Saci há muitas lendas, algumas recheadas de bobagens. Há quem diga que o saci foi trazido da África pelos escravos; contra essa assertiva idiota, temos o testemunho do velho Amâncio, e a certeza de que o nome e o sobrenome dele são originários da língua TUPI, índios da costa brasileira!

O Saci é nosso, assim como o petróleo, na voz de Getúlio!
20/27.03.2014 (4.535) Membro da Academia Douradense de Letras.
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O Saci, divertido e brincalhão - José Alberto Vasconcellos