Incêndios no Pantanal são apontados como causa da maior vulnerabilidade da ave, considerada símbolo de Mato Grosso do Sul por lei estadual desde 2025.
A arara-azul voltou à Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção após 12 anos, conforme o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Incêndios no Pantanal são apontados como causa da maior vulnerabilidade da ave, considerada símbolo de Mato Grosso do Sul por lei estadual desde 2025.
“Quando ocorrem esses incêndios no Pantanal, além de queimar ninho, ovos e filhotes, queima o habitat como um todo”, explica a presidente e fundadora do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes. A espécie tem alimentação e habitat específicos: palmeiras servem de abrigo e comida, com frutos e sementes.
Conforme a especialista, os impactos não ocorrem só no momento do fogo, mas por anos após incêndios. Em 2020, a área queimada no Pantanal passou de 39,7 mil km² e mais de 17 milhões de animais vertebrados morreram nas chamas. De 1985 a 2024, o bioma perdeu mais de 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa.
Incêndios, agrotóxicos e tráfico
Monitoramentos realizados pelo Instituto Arara Azul desde 1990 mostram os reflexos dos grandes incêndios.
“Observamos que houve uma grande diminuição do número de casais se reproduzindo e consequentemente do sucesso reprodutivo por conta dos grandes incêndios”, relata Neiva Guedes. Ela cita redução da imunidade da espécie, com lesões na pele de filhotes, baixo desenvolvimento e até aumento de indivíduos com nanismo.
Além da perda de habitat, outros fatores preocupam pesquisadores como o uso de agrotóxicos aplicados por drones, o que prejudica as áreas de reprodução e alimentação das aves. Além disso, o Instituto Arara Azul cita indícios de tráfico de animais na região como fatores para a vulnerabilidade da espécie.
Ceva de araras em Bodoquena
Em fevereiro deste ano, empreendimento turístico de Bodoquena foi autuado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por permitir o contato direto de visitantes com animais silvestres mantidos no local, principalmente araras-azuis.
Conforme o Ibama, a ação concluiu a ‘domesticação’ de araras e um nível de exposição ao contato humano que pode prejudicar o bem-estar da fauna. Em publicações nas redes sociais, o local oferecia ‘experiência imersiva’, mas o ato configurou-se como exploração comercial da imagem de araras.
Além disso, as araras recebiam alimentos considerados inadequados para as aves, como sementes de girassol, amendoim, banana e melancia. A ceva — ato ilegal de alimentar animais silvestres para atração — contribui tanto para a domesticação das aves quanto para atrair turistas.
Ações podem evitar a extinção
A espécie tinha saído da lista de ameaça de extinção em 2014. Para o Instituto Arara Azul, ações como instalação de ninhos artificiais, manejo de ninhos naturais e ampliação das áreas de estudos foram fundamentais para aumentar o sucesso reprodutivo, mas os grandes incêndios diminuíram a procriação.
Essas ações seguem ocorrendo e, segundo a presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes, aumentaram a reprodução da espécie entre 2025 e 2026. “Foi a melhor estação reprodutiva, mas muito em resultado de todos os manejos que foram realizados”, afirma a bióloga.
A equipe do Instituto realiza troca de ninhos, quando eles precisam ser modificados para evitar predadores, e cuida da saúde de cada filhote, subindo nos ninhos diariamente para garantir a sobrevivência dos animais.

Para a pesquisadora, mais recursos financeiros e equipes treinadas são necessários para intensificar o combate à extinção das araras-azuis.
Vulnerabilidade do Pantanal à Amazônia
A categorização na lista considera a presença da espécie em todo o país. O Instituto Arara Azul começou a monitorar aves da Amazônia em 2025 e os primeiros levantamentos indicam um cenário preocupante.
“Há uma perda bastante acentuada de ninhos e hoje a maioria deles são encontrados em árvores isoladas no meio dos pastos e com isso as perdas são mais aceleradas, principalmente com ventos fortes. Já perdemos ninhos recém-cadastados, em 2025”, relata Neiva Guedes.
Crimes ambientais
A Constituição Federal estabelece a fiscalização de crimes ambientais como competência comum da União, dos estados, dos municípios e do Distrito Federal. No âmbito federal, o Ibama atua como órgão de referência no combate a esse tipo de ilícito. Assim, a população pode denunciar irregularidades pelos canais:
- Plataforma Fala.BR
- Central de Atendimento do Ibama: 0800 061 8080 (de segunda a sexta-feira, exceto feriados, das 7h às 19h)
Fonte: Midiamax

