Nascida em 19 de agosto de 1931, em Auronzo di Cadore, no norte da Itália, aprendeu cedo a enfrentar grandes desafios e a olhar para além das montanhas.
Irmã Silvia Vecellio completa 95 anos na quarta-feira (19). Conhecida pela revolução nos caminhos da medicina, da reabilitação física e da assistência social, a religiosa italiana também transformou uma antiga colônia de hansenianos em símbolo de esperança, inclusão e cuidado em Mato Grosso do Sul.
Nascida em 19 de agosto de 1931, em Auronzo di Cadore, no norte da Itália, foi alpinista na juventude e aprendeu cedo a enfrentar grandes desafios e a olhar para além das montanhas. Silvia chegou ao Brasil em setembro de 1959, quando começou a atuar como professora no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Campo Grande.
Professora à frente de seu tempo, Irmã Silvia entendia que educar ia além de ensinar o conteúdo dos livros. Levou o cinema para dentro da sala de aula, estimulou suas alunas a refletir sobre questões filosóficas e sociais e, aos domingos, passou a visitar comunidades periféricas da Capital.
Missão com hansenianos
Em 1964, durante uma visita ao Educandário Getúlio Vargas, crianças teriam mostrado cartas e fotografias de internados em uma instituição pouco conhecida. O local era o Asilo Colônia São Julião, uma antiga colônia de hansenianos localizada, à época, em uma área isolada da cidade.
Lá, Silvia encontrou uma realidade de abandono, com centenas de pessoas em condições precárias, sem assistência médica adequada, medicamentos, alimentação ou o mínimo necessário para uma vida digna. A hanseníase, cercada pelo medo e pelo preconceito, havia transformado aquelas pessoas em invisíveis para grande parte da sociedade.
Comovida com a descoberta, Irmã Silvia decidiu fazer história. Em 1969, após buscar apoio na Itália, trouxe para Campo Grande voluntários da Operação Mato Grosso. Ao lado de religiosos, profissionais, empresários e colaboradores brasileiros e italianos, iniciou uma verdadeira força-tarefa para reconstruir aquele espaço.

Acolhimento
No ano seguinte, nasceu a Associação de Auxílio e Recuperação de Hansenianos. Vieram a recuperação da estrutura física, o saneamento, a melhoria da alimentação, o tratamento médico, a escola, a laborterapia e, principalmente, uma nova maneira de olhar para aqueles que, durante décadas, haviam sido tratados como excluídos.
A antiga colônia começou a deixar de ser um lugar de isolamento para se transformar em um espaço de cuidado, reabilitação, educação e reinserção social. Foi nesse processo que nasceu o Hospital São Julião. Ao longo das décadas, a instituição ampliou sua atuação e se tornou referência não apenas no atendimento à hanseníase, mas também em diversas áreas da saúde.
Atualmente, o hospital conta com centro cirúrgico, atendimento à população, escola, centro oftalmológico, estruturas de reabilitação, ações sociais e iniciativas voltadas à educação, à cultura e à inclusão.
Legado vivo
Para o presidente do Hospital São Julião, Carlos Melke, o maior legado de Irmã Silvia não está apenas nas obras que ajudou a construir, mas na forma como ensinou gerações a olhar para o outro.
“Conviver com a Irmã Silvia é aprender todos os dias que cuidar do ser humano vai muito além de tratar uma doença. Ela nos ensina, pelo exemplo, que cada pessoa precisa ser enxergada com amor, respeito e carinho, independentemente da sua condição ou daquilo que a sociedade possa pensar sobre ela. Sua dedicação à vida é algo que não se explica apenas com palavras. Está em cada gesto, em cada pessoa que ela acolheu e em cada história que ajudou a transformar. O São Julião carrega esse ensinamento todos os dias: ninguém deve ser privado de dignidade, esperança e oportunidade de recomeçar”, afirma.
Aos 95 anos, Irmã Silvia permanece como uma referência viva na história do Hospital São Julião. Sua trajetória se confunde com a própria transformação da instituição.
Seu legado também ultrapassou os muros do hospital. Ela ajudou a mudar a maneira como Mato Grosso do Sul passou a enxergar aqueles que antes eram invisíveis.

Fonte: Midiamax

