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terça-feira, 25 de agosto, 2026

Mais tela, menos movimento? Especialistas mostram quando a tecnologia prejudica e quando pode se tornar aliada da infância

Uso excessivo pode aumentar o sedentarismo, mas recursos digitais também podem estimular movimento e participação.

Smartphones e tablets já fazem parte da rotina das crianças dentro e fora da escola. Mesmo com uma pequena queda recente entre os mais novos, o telefone celular continua presente na vida de mais da metade das crianças brasileiras de 10 a 13 anos.

Dados do Módulo de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) da PNAD Contínua, do IBGE, mostram que 55,2% das crianças dessa faixa etária tinham celular próprio em 2025. Em 2024, eram 56,7%. A redução de 1,5 ponto percentual foi registrada apenas nesse grupo; em todas as demais faixas etárias pesquisadas, a posse de celular aumentou.

É nesse cenário que cresce a preocupação não apenas com o tempo de exposição, mas com o que as telas passam a substituir na rotina: brincadeiras, movimento, convivência e atividades que exigem mais concentração. A discussão também passa pela saúde física. 

Uma em cada três crianças e adolescentes de 10 a 19 anos no Brasil têm excesso de peso, segundo levantamento nacional feito com dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse cenário, nos primeiros anos da vida,  pode aumentar o risco futuro de doenças cardiovasculares, diabetes e Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Mais tela, menos movimento? Especialistas mostram quando a tecnologia prejudica e quando pode se tornar aliada da infância

Para Claudio Henrique Pereira Verão, mestre em Ciências do Movimento e coordenador do curso de Educação Física da Estácio, o tempo excessivo diante das telas pode contribuir para uma rotina mais sedentária, com reflexos também no Índice de Massa Corporal (IMC).

“Com mais tempo em telas e se movendo menos durante o dia com brincadeiras e outras atividades, as crianças tendem a gastar menos quilocalorias”, explica. Segundo ele, esse período pode ainda vir acompanhado do consumo de alimentos mais calóricos, o que acrescenta outro fator à equação.

Em crianças e adolescentes, o IMC precisa ser analisado considerando idade e fase de desenvolvimento. O ponto de atenção, segundo Claudio, não é um número isolado, mas uma rotina em que o tempo sedentário começa a ocupar o lugar de atividades fundamentais para o gasto energético e para a aquisição de habilidades motoras.

Ele ressalta, porém, que relacionar telas e excesso de peso não significa responsabilizar a criança. É importante entender o contexto familiar e social desta criança. “Jornadas de trabalho dos responsáveis, falta de espaços adequados para brincar e questões de segurança podem levar famílias a substituir atividades externas por opções realizadas dentro de casa”, pontua.

Movimento também ajuda a aprender

O impacto de uma rotina mais sedentária não fica restrito ao corpo. Brincadeiras e jogos também ajudam a desenvolver capacidades importantes para a aprendizagem.

“O movimento corporal e os jogos exigem que a criança planeje ações, siga regras, tome decisões e ajuste seus movimentos em tempo real”, explica Claudio. Segundo ele, esse processo exercita funções executivas ligadas à concentração, ao autocontrole e à capacidade de manter a atenção em sala de aula.

O docente também chama atenção para o excesso de estímulos rápidos oferecidos pelas telas. Atividades como ler, escrever, ouvir histórias ou acompanhar uma explicação exigem outro ritmo de atenção e podem se tornar menos atraentes quando a exposição aos dispositivos é frequente e começa muito cedo.

Além disso, o tempo excessivo diante das telas pode reduzir experiências de convivência importantes para o desenvolvimento, como a interação com professores e colegas, a leitura compartilhada e as brincadeiras coletivas.

Tecnologia pode ser parte da solução

Para Caíque Evangelista Fernandes Lopes, professor do curso de Engenharia de Software da Estácio, a discussão não deve se limitar à retirada dos dispositivos, mas também à forma como eles são usados.

“A principal mudança é deixar de tratar a criança como consumidora de conteúdo e colocá-la como criadora, investigadora e solucionadora de problemas”, afirma.

Em vez de apenas assistir a vídeos, celulares, tablets e computadores podem ser usados para criar histórias interativas, animações e jogos, programar, fazer pesquisas, produzir música ou resolver problemas. Para Caíque, uma ferramenta educacional deveria ser avaliada menos pelo tempo que mantém a criança conectada e mais pelo que ela permite criar, compreender ou resolver.

A própria tecnologia também pode estimular movimento. Jogos com câmeras, sensores, realidade aumentada ou outros recursos podem propor desafios em que a criança precise caminhar, dançar ou explorar espaços para avançar.

“A tecnologia não precisa competir com a atividade física; ela pode ser utilizada para provocá-la”, resume.

Caíque também alerta que nem toda ferramenta apresentada como educativa necessariamente promove aprendizagem. Notificações constantes, reprodução automática e sistemas de recompensas podem estimular permanência excessiva nas plataformas.

Para diferenciar uma experiência educativa de uma ferramenta voltada principalmente à retenção, ele sugere uma pergunta: “O que a criança aprende fazendo isso que ela não aprenderia simplesmente assistindo a um vídeo?”

Mais tela, menos movimento? Especialistas mostram quando a tecnologia prejudica e quando pode se tornar aliada da infância

Segundo o professor, uma boa tecnologia deve estimular competências como criatividade, raciocínio lógico, comunicação e resolução de problemas, além de permitir que a criança tome decisões e tenha participação ativa.

Para Claudio, o equilíbrio passa também por oferecer alternativas. Brincadeiras ativas podem substituir parte do tempo sedentário, enquanto jogos de tabuleiro e atividades que envolvam raciocínio e interação são opções para momentos de menor movimento. Quando houver uso de telas, a orientação é priorizar períodos mais curtos e conteúdos com finalidade definida.

O desafio, portanto, não é retirar a tecnologia da infância, mas evitar que ela ocupe o espaço de experiências que continuam fundamentais. A tela pode ensinar, estimular criatividade e até provocar movimento, desde que seja ferramenta, e não substituta da brincadeira, da convivência e do corpo em ação.

Fonte: Evelise Couto