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terça-feira, 25 de agosto, 2026

Veado preto é flagrado no Pantanal e origem é mistério para a ciência

A figura do bicho é cercada de mistério e embasa lenda entre os ribeirinhos jamais confirmada.

A ONG Onçafari e a Embrapa Pantanal registrou o aparecimento raro de cervos-do-pantanal com pelagem escura, animal conhecido popularmente como veado preto. A figura do bicho é cercada de mistério e embasa lenda entre os ribeirinhos jamais confirmada.

Entretanto, desde 2021, a história mística do homem pantaneiro passou a ter novos contornos com a realidade. Em fevereiro daquele ano, um flagrante identificou a presença da espécie no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Os dados chegaram a ser publicados na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos.

O animal, que compõe as histórias da maior planície alagável do planeta, dá nome a áreas como a Baía do Cervo Preto, localizada perto da Estação Ecológica Taiamã, no estado de Mato Grosso.

Veado preto é flagrado no Pantanal e origem é mistério para a ciência
Cervo-do-pantanal com pelagem escura foi flagrado no pantanal. (Foto: Edu Fragoso/Onçafari)

A alteração genética observada nos animais é chamada de melanismo. Ela causa a produção excessiva de melanina e resulta na coloração preta da pelagem. Segundo a ONG Onçafari, anomalias de pigmentação ocorrem em cerca de 13% das espécies de mamíferos.

A ciência já havia catalogado o albinismo (perda total de pigmentação) e o leucismo (perda parcial) na espécie, mas a existência do veado preto ainda carecia de comprovação oficial.

Ocorrências e monitoramento

O primeiro registro ocorreu na base da Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul, onde os pesquisadores observaram uma fêmea adulta de pelagem escura.

Em 40 anos de pesquisas no bioma, os cientistas nunca haviam documentado nenhum veado preto. Após o flagrante de 2021, a fêmea não foi avistada novamente na área.

De acordo com a ONG Onçafari, o Pantanal concentra 88% da população brasileira da espécie, com cerca de 40 mil indivíduos.

No Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no Cerrado mineiro, a equipe registrou a maior concentração da espécie com melanismo.

Desde 2022, o monitoramento por armadilhas fotográficas analisou 61.830 vídeos. As câmeras captaram cervos-do-pantanal em 31 ocasiões, com três registros de indivíduos melânicos.

Nos avistamentos diretos realizados no parque, os pesquisadores encontraram a espécie 12 vezes. Oito destes encontros envolveram animais com pelagem preta (66,7% dos avistamentos).

No total de registros nos dois biomas, os cientistas catalogaram 12 observações do veado preto.

Veado preto é flagrado no Pantanal e origem é mistério para a ciência
Cervo-do-pantanal com pelagem escura foi flagrado no pantanal. (Foto: Taile Emanuele/Onçafari)

Hipóteses genéticas e comportamentais

Segundo reportagem do jornal O GLOBO, a origem do melanismo nestes cervos permanece sem explicação definitiva. Para a população do Cerrado, a ONG Onçafari investiga a relação da mutação com o isolamento populacional. A perda de áreas úmidas e a ação humana restringem os animais aos limites do parque.

O isolamento força o cruzamento entre parentes próximos (endogamia), processo que pode elevar a frequência da característica genética na região.

A hipótese, contudo, não justifica o surgimento do veado preto no Pantanal, onde a população da espécie é numerosa e distribuída por todo o bioma.

Os cientistas também registram um comportamento atípico dos indivíduos no Cerrado. Animais com pelagem preta absorvem mais calor, mas os cervos melânicos permanecem sob sol forte em áreas abertas, sem procurar abrigo em áreas mais frescas.

Edu Fragoso, coordenador da base do Onçafari no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, afirma que o local também abriga outros mamíferos melânicos, como onças-pintadas, gatos-palheiros e gatos-do-mato-pequenos.

“O que animais escuros fazem em lugares tão claros e quentes? Não temos boas hipóteses para isso até agora”, afirmou Fragoso ao jornal carioca.

Fonte: Midiamax