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sábado, 29 de agosto, 2026

Sequelas da chikungunya podem afetar 3,7 mil em MS

A doença começa na fase aguda, que dura de 5 a 14 dias, e é caracterizada por febre e dores nas articulações.

Cerca de 3,7 mil sul-mato-grossenses podem ter sequelas de chikungunya, deixadas pela epidemia que contaminou 12,6 mil e matou 30 pessoas no Estado em 2026. A doença causa dores e inchaço nas articulações, muitas vezes incapacitantes. No entanto, esses pacientes estão fora do radar das estimativas oficiais.

A doença começa na fase aguda, que dura de 5 a 14 dias, e é caracterizada por febre e dores nas articulações. De 15 dias a três meses, ocorre a fase pós-aguda. Se os sintomas persistirem, já está instalada a fase crônica. Cerca de 30% a 40% dos pacientes podem chegar nesta etapa, alertam especialistas.

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A SES-MS (Secretaria Estadual de Saúde de MS) registra 12.663 casos prováveis da doença neste ano. “Seriam 3.700 pacientes que evoluíram ou evoluirão com persistência dos sintomas, em fase crônica”, calcula Andyane Tetila, médica infectologista do HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal de Grande Dourados).

Apenas estimativas

É necessário recorrer às estimativas, porque não há acompanhamento de quantas pessoas seguem sintomáticas três meses após o início da doença.

Também não há informações sobre o impacto da chikungunya na demanda por atendimentos de reumatologia e fisioterapia, tampouco o Ministério da Previdência Social e o Cerest-MS (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de MS) sabem dizer o impacto da doença em afastamentos do trabalho.

Seria muito importante termos indicadores de acompanhamento: quantos pacientes permanecem sintomáticos após três, seis e doze meses; quantos apresentam limitação funcional; quantos necessitam de fisioterapia, acompanhamento especializado ou afastamento do trabalho. Esses dados permitirão dimensionar melhor o impacto real da epidemia sobre a população e planejar a rede de assistência“, opina a especialista Andyane Tetila.

Dor intensa, rigidez, inchaço e fraqueza

Sequelas da chikungunya podem afetar 3,7 mil em MS
Chikungunya causa febre e irritações na pele. (Foto: Flickr)

A chikungunya não é apenas uma doença febril aguda. A dor persistente pode castigar mãos, punhos, tornozelos, pés, joelhos e outras articulações. Também podem ocorrer rigidez, principalmente de manhã, inchaço, limitação de movimentos, fadiga, fraqueza e redução da capacidade funcional.

“Uma pessoa com dor e edema nas mãos, por exemplo, pode ter dificuldade para digitar, trabalhar na construção civil, cozinhar ou exercer atividades manuais. Quando tornozelos, pés ou joelhos estão comprometidos, caminhar, permanecer em pé ou realizar deslocamentos pode se tornar muito difícil”, explica a médica Andyane Tetila.

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A fase crônica pode resultar em afastamentos temporários, redução da produtividade, necessidade de readaptação no trabalho e maior procura pelos serviços de saúde. Além disso, pode haver impacto sobre a qualidade de vida, o sono, a autonomia e a saúde emocional dos pacientes.

“Os sintomas precisam de detecção e manejo adequado por profissionais de saúde”, indica a infectologista. “O número de casos novos pode cair, mas isso não significa que o impacto da epidemia acabou. A chikungunya pode deixar uma demanda assistencial que permanece por meses ou até anos”, conclui Andyane Tetila.

‘Sintomático’

Em nota enviada à reportagem, a SES-MS limitou-se a informar quantas pessoas, no máximo, podem ter evoluído às fases pós-aguda e crônica da doença, conforme o tempo transcorrido após o início dos sintomas. Ou seja, a quantidade de pacientes que registraram os primeiros sintomas de chikungunya há mais de 90 dias.

“Esses quantitativos não representam, necessariamente, pacientes que permanecem sintomáticos ou que apresentam sequelas da chikungunya, uma vez que nem todas as pessoas acometidas pela doença evoluem com manifestações persistentes nas fases pós-aguda ou crônica”, reconhece a pasta, em nota.

A reportagem também perguntou sobre a demanda por atendimentos especializados e o número de pacientes em acompanhamento ou na fila por atendimentos decorrentes da chikungunya. “A Vigilância Epidemiológica estadual não dispõe de dados consolidados específicos”, respondeu a SES-MS.

A pasta diz que mantém monitoramento do cenário epidemiológico, com ações de vigilância, orientação técnica e apoio aos municípios. “Informações específicas sobre acompanhamento assistencial, demanda por especialidades e reabilitação de pacientes com manifestações persistentes dependem da consolidação de dados junto aos serviços e municípios responsáveis pela assistência”, conclui a nota.

Dez vezes mais afastamentos em 2025

Da mesma forma, o Ministério da Previdência Social e o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) não dispõem de dados sobre o impacto da epidemia de chikungunya deste ano no mercado de trabalho. “Os dados de 2026 não estão consolidados”, respondeu o Ministério.

O mesmo vale para o Cerest, vinculado à SES-MS. “Não há, no âmbito da Vigilância Epidemiológica estadual, dados consolidados que permitam mensurar especificamente o impacto da chikungunya nos afastamentos do trabalho ou estabelecer eventual aumento de licenças relacionado à doença”, completa nota da pasta.

Os casos prováveis de chikungunya em Mato Grosso do Sul dispararam de 2,7 mil em 2024 para 14,1 mil no ano seguinte. Agora, já são 12,6 mil registros em 2026. Ou seja, em menos de oito meses, o Estado já alcança 89,5% do registrado em todo o ano passado.

Apesar de não enviar dados deste ano, o Ministério da Previdência informou que o INSS pagou benefício por incapacidade temporária relacionado à chikungunya a três sul-mato-grossenses em 2024. Já em 2025, foram 31 benefícios pela mesma doença. Ou seja, mais de dez vezes mais que no ano anterior.

O benefício é o antigo auxílio-doença, pago ao segurado do INSS a partir do 16º dia de afastamento do trabalho.

Dourados concentra 41% dos casos e 60% das mortes

Sequelas da chikungunya podem afetar 3,7 mil em MS
Dourados recebeu a Força Nacional do SUS durante a epidemia de chikungunya. (Foto: João Vitor Moura, MS)

Mato Grosso do Sul confirmou 30 mortes por chikungunya em 2026 e 17 no ano anterior, que já havia batido o recorde da série histórica. Dourados concentra 18 mortes, o equivalente a 60% do total do Estado. Dos 12,6 mil casos prováveis da doença, 5,2 mil estão na cidade (41%).

Os moradores da Reserva Indígena são as principais vítimas e foram atingidos primeiro pela onda de casos e mortes neste ano. A falta de água e de informação expôs indígenas à epidemia da doença.

A Prefeitura de Dourados também não tem informações sobre o impacto das sequelas. “O município segue em situação de emergência em saúde pública e o foco tem sido o combate ao mosquito Aedes aegypti. Ainda não temos esses dados mapeados”, respondeu a assessoria do Executivo municipal ao Jornal Midiamax.

Na linha de frente do combate à epidemia em Dourados, a médica Andyane Tetila diz que a cidade prepara os serviços para essa fase posterior da epidemia. “Inclusive com discussões e capacitações voltadas ao manejo das manifestações pós-agudas e crônicas da chikungunya na Atenção Primária. Esse é um passo importante, porque agora o desafio não é apenas diagnosticar novos casos, mas acompanhar adequadamente quem permanece sintomático.”

Como enfrentar as sequelas?

Para a infectologista, depois de uma epidemia de chikungunya, existe uma espécie de segunda onda assistencial. Os casos agudos e a transmissão diminuem, mas permanecem pacientes, necessitando de atendimento por manifestações das fases pós-agudas e crônicas.

Ela sugere que o enfrentamento deve ser organizado principalmente a partir da Atenção Primária à Saúde, porque seria inviável encaminhar todos os pacientes diretamente para especialistas. A médica Andyane Tetila cita ações que o Poder Público deve realizar para o combate às sequelas:

  • Capacitação da Atenção Primária para o manejo dessas fases;
  • Ampliação do acesso à fisioterapia, reabilitação e reumatologia;
  • Suporte multiprofissional quando necessário;
  • Garantia de acesso aos medicamentos recomendados; e
  • Definição de fluxos para encaminhamento dos casos mais complexos para especialistas.
  • Avaliação de incapacidade e necessidade de afastamento ou readaptação profissional.

“Na minha avaliação, ainda precisamos avançar principalmente na construção de uma linha de cuidado específica para chikungunya pós-aguda e crônica, articulando Atenção Primária, fisioterapia, reabilitação, reumatologia e, quando necessário, outras especialidades”, completa a médica.

Fonte: Midiamax