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segunda-feira, 14 de setembro, 2026

Ciência e futuro à margem: SBPC critica debate eleitoral esvaziado

Enquanto escândalos políticos e disputas pessoais dominam o noticiário eleitoral, temas cruciais para o futuro do Brasil, como envelhecimento populacional, transição energética e a capacidade de processar minerais estratégicos, permanecem ausentes do debate público. A avaliação é da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que lamenta o que considera um esvaziamento das discussões sobre pautas vitais para o país.

Francilene Garcia, presidente da SBPC, critica a falsa dicotomia apresentada aos eleitores e candidatos, que opõe a necessidade de “passar as instituições a limpo” à discussão e planejamento do futuro. Segundo ela, essas duas agendas são indissociáveis e deveriam caminhar juntas. “O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, afirmou Garcia em entrevista à Agência Brasil.

A pesquisadora ressalta que a ciência, que depende de estabilidade, orçamento previsível e atenção contínua, especialmente diante do risco de novas crises sanitárias, tem sido discutida apenas de forma periférica nas campanhas. A SBPC lançou o Observatório das Eleições para tentar introduzir mais de uma centena de propostas de políticas públicas consideradas importantes para o desenvolvimento nacional, abordando temas como mudanças climáticas, risco de pandemias e transformação digital, que ainda não ganharam espaço nos debates eleitorais.

Historicamente marginalizada, a ciência teve um breve aumento de visibilidade durante a pandemia de COVID-19 e após eventos climáticos extremos como enchentes e secas. No entanto, a atual conjuntura eleitoral, marcada por crises político-institucionais, tem desviado o foco de discussões essenciais, como o aproveitamento de terras raras, fundamentais para a indústria de tecnologia. Garcia aponta para um esvaziamento tanto da participação quanto da relevância dos temas discutidos.

A entidade tem encontrado dificuldades em engajar candidaturas em torno de suas propostas. O Observatório das Eleições conta com poucas candidaturas comprometidas, majoritariamente de âmbito legislativo, e nenhuma de âmbito executivo estadual. A prioridade dada à crise institucional, segundo a SBPC, acaba afastando o debate sobre temas como o financiamento da ciência e outros assuntos que afetam diretamente a vida da população.

Em relação às investigações em andamento, a SBPC e outras entidades científicas defenderam, em nota pública, o respeito ao devido processo legal e ao direito à defesa, evitando julgamentos prévios e vazamentos de informações com interesses específicos que acabam por monopolizar o debate público. A entidade reforça a importância de se cumprir os ritos legais e a Constituição Federal.

Além de investimentos em educação, ciência e tecnologia e da regulamentação da exploração de terras raras, a SBPC destaca a urgência em discutir os impactos da crise climática e a preparação do Brasil para novas crises sanitárias, aprimorando o Sistema Único de Saúde (SUS) e estratégias de imunização. A transformação digital e os impactos da inteligência artificial também são pontos centrais para a construção da soberania nacional na próxima década.

A preocupação da comunidade científica se estende ao futuro demográfico do país, com a projeção de mais idosos do que pessoas em idade produtiva em poucas décadas. Questiona-se qual será a soberania e autonomia do Brasil, e se o país corre o risco de retornar a um modelo de exportador exclusivo de matéria-prima, um cenário que, segundo Garcia, parece alheio a parte da classe política.