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quinta-feira, 17 de setembro, 2026

Em Inocência, a indústria traz moradores de volta e desafia a cidade a crescer junto

Com a construção da fábrica da Arauco, município de menos de 9 mil habitantes vê empregos, novos negócios e antigos moradores retornarem

Durante anos, Leandro Rodrigues dos Santos precisou procurar fora de Inocência as oportunidades que não encontrava na cidade onde vivia. Trabalhou em São Paulo e Minas Gerais até perceber que alguma coisa começava a mudar no município do leste de Mato Grosso do Sul. A perspectiva de novos empregos e negócios fez o caminho se inverter: ele voltou para casa.

Com a família, Leandro planejava construir um hotel de 14 apartamentos. A confirmação da fábrica de celulose da Arauco e o aumento da procura por hospedagem mudaram o projeto antes mesmo da inauguração. O hotel cresceu para 28 quartos e passou a empregar sete moradores.

“As pessoas estão voltando. As famílias estão se reunindo de novo”, contou o empresário em depoimento divulgado pela Arauco.

A história de Leandro ajuda a traduzir, em escala humana, a transformação que Inocência vive antes mesmo de a nova indústria começar a produzir. Hotéis ampliaram a capacidade, restaurantes estenderam horários, empresas foram abertas e milhares de trabalhadores passaram a circular pelas ruas, pelo comércio e pelas estradas de uma cidade com menos de 9 mil habitantes.

Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, Inocência se tornou também um teste para a estratégia de levar investimentos e empregos para o interior de Mato Grosso do Sul. O desafio não está apenas em atrair uma grande indústria, mas em preparar a cidade e seus moradores para que o crescimento não seja acompanhado por falta de moradia, serviços públicos sobrecarregados e mão de obra local sem acesso às vagas mais qualificadas.

Uma fábrica maior que a escala da cidade

Em junho, aproximadamente 60% das obras do Projeto Sucuriú estavam concluídas. O investimento anunciado pela Arauco é de US$ 4,6 bilhões, com capacidade projetada para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano a partir do fim de 2027. No pico da construção, a companhia estima até 14 mil trabalhadores. Quando a unidade estiver funcionando, a previsão é de cerca de 6 mil empregos nas operações industrial, florestal e logística.

Para uma cidade do tamanho de Inocência, números dessa dimensão alteram rapidamente a vida cotidiana.

O emprego já mostra essa mudança. Entre janeiro e maio de 2026, o município registrou saldo de 3.471 contratações industriais, segundo os dados reunidos no levantamento que embasa esta reportagem. Somente em janeiro foram criados 1.081 empregos formais. Em poucos meses, portanto, o volume de vagas abertas passou a corresponder a uma parcela expressiva de toda a população da cidade.

O efeito aparece também fora do canteiro de obras. Segundo informações divulgadas pela empresa, um negócio de alimentação que começou com três pessoas passou a empregar mais de dez. A Associação Comercial relatou a abertura de quase duas empresas por semana e ampliação dos horários de funcionamento.

É nesse ambiente que histórias como a de Leandro deixam de ser episódios isolados. O crescimento começa a criar algo que, durante muito tempo, foi difícil para municípios pequenos do interior: a possibilidade de sair para estudar ou trabalhar e, depois, encontrar razões econômicas para voltar.

O emprego existe; o desafio é chegar até ele

Uma fábrica desse porte precisa de eletricistas, mecânicos, técnicos de automação, operadores, profissionais de logística, química, segurança e manutenção industrial. Se a formação profissional não acompanhar a velocidade do investimento, parte das oportunidades mais qualificadas tende a ser preenchida por trabalhadores trazidos de outras regiões.

Para reduzir essa distância, o Governo de Mato Grosso do Sul inaugurou em abril de 2025 uma Casa do Trabalhador em Inocência. A unidade, vinculada à Funtrab e integrada ao MS Qualifica, faz intermediação de mão de obra, encaminha candidatos e aproxima empresas dos profissionais disponíveis na cidade.

Na época da inauguração, Inocência já acumulava 1.385 admissões e saldo positivo de 730 empregos no ano. A unidade permite ainda que moradores participem de processos de seleção e recebam orientação sem precisar viajar para outros municípios.

Outra frente de formação surgiu com o programa Abrace Este Projeto, parceria entre Arauco e Senai. Foram disponibilizadas 560 vagas gratuitas em cursos de automação, celulose e papel, eletrotécnica, logística, mecânica e química, com bolsas mensais de até R$ 1,5 mil, distribuídas entre Inocência, Paranaíba e Três Lagoas.

Uma feira de profissões também percorreu seis municípios da região e recebeu mais de 2,3 mil candidatos. A proposta é formar 750 operadores de máquinas e 50 mecânicos destinados à colheita florestal, estimulando também a participação de mulheres, pessoas com deficiência e profissionais em transição de carreira.

Segundo o gestor da região Costa Leste do Senai, Rodrigo Bastos, a preparação precisa começar antes da abertura definitiva das vagas.

“Inocência está recebendo um dos maiores investimentos do país, com um crescimento previsto na população e na empregabilidade. Nesse cenário, a qualificação profissional é um diferencial”, afirmou.

Mais de 500 alunos estão atualmente em formação para atender à demanda prevista com a entrada da fábrica em operação. A maior concentração está nas áreas de manutenção e operação industrial, com cursos técnicos de Mecânica, Eletrotécnica, Eletromecânica e Automação, além das formações ligadas à Química e à produção de celulose. Alguns estudantes já passaram por processos seletivos e são acompanhados pelas empresas envolvidas nos investimentos.

A equação é decisiva: não basta criar empregos em Inocência. Para que a industrialização produza impacto mais duradouro sobre a renda das famílias locais, é preciso que os moradores tenham condições de disputar essas vagas.

Quando o emprego cresce, a cidade também precisa crescer

O movimento que aumenta o faturamento de hotéis, restaurantes e lojas também produz novas pressões. Mais trabalhadores e novos moradores significam maior procura por casas, escolas, atendimento médico, saneamento, segurança e assistência social.

A moradia está entre os desafios mais visíveis. A Arauco iniciou a construção de uma vila com 620 residências destinadas aos futuros trabalhadores da operação industrial, com entrega prevista para o segundo semestre de 2027.

A iniciativa tende a aliviar parte da pressão sobre os aluguéis, mas tem alcance específico: atende trabalhadores ligados à empresa e não substitui a necessidade de políticas habitacionais para comerciantes, prestadores de serviço, funcionários de outras empresas e famílias de menor renda.

No saneamento, está previsto investimento de R$ 5 milhões para ampliar a Estação de Tratamento de Esgoto, elevando a capacidade de atendimento de aproximadamente 5,4 mil para 11,7 mil habitantes. O material que embasa esta reportagem, entretanto, ressalva que o estágio atual dessa obra ainda precisa ser confirmado.

O Plano Estratégico Socioambiental do Projeto Sucuriú prevê R$ 85 milhões em iniciativas ligadas a saúde, educação, assistência social, segurança pública, habitação, transporte, trabalho e renda, saneamento, ordenamento territorial e conservação ambiental.

Outra frente, de R$ 9,2 milhões, inclui uma nova sede para o Cras, uma Casa de Passagem e a ampliação do Centro Educacional Infantil Professor Olivalto Elias. A capacidade da unidade deverá passar de 868 para 948 alunos, com entregas previstas para o primeiro semestre de 2027.

“Essas intervenções mostram que a chegada da indústria não afeta apenas seus empregados. A população flutuante e os novos moradores ampliam a demanda por creches, saúde, proteção social e infraestrutura urbana”, afirmou Riedel.

Fazer o dinheiro permanecer na cidade

Outro ponto decisivo é saber quanto da riqueza movimentada por um investimento desse porte permanecerá em Inocência e nos municípios próximos.

O risco, comum em grandes projetos industriais, é que a fábrica se transforme em uma espécie de ilha econômica: produz riqueza e empregos, mas contrata grande parte dos fornecedores e serviços fora da região.

O programa Conexão Arauco, desenvolvido com participação do Sebrae e da prefeitura, qualificou 71 empresas regionais para atuar como fornecedoras do projeto. Segundo balanço divulgado no fim de 2025, a iniciativa havia movimentado R$ 95 milhões em negócios.

O resultado revela o potencial do encadeamento econômico, mas ainda deixa perguntas importantes: quanto desse dinheiro efetivamente chegou a empresas sediadas em Inocência, quais serviços foram contratados e quantos empregos locais surgiram a partir dessas relações comerciais.

Preparar a cidade antes de a fábrica funcionar

Na infraestrutura, o Governo do Estado participa de intervenções na MS-377, principal acesso à fábrica, e da pavimentação de trecho da MS-316 entre Inocência e Paraíso das Águas.

Em abril de 2025, o município também recebeu um novo aeródromo, com investimento anunciado de aproximadamente R$ 20 milhões. A estrutura possui pista de pouso e decolagem, taxiway, pátio para aeronaves e equipamentos de segurança operacional.

Para a gestão de Eduardo Riedel, a transformação de Inocência coloca lado a lado duas agendas que precisam avançar juntas: atrair investimento privado e preparar a infraestrutura pública para absorver seus efeitos.

Em Inocência, a indústria traz moradores de volta e desafia a cidade a crescer junto

A fábrica pertence à Arauco, mas uma população maior não utiliza apenas a estrutura da empresa. Ela precisa de estrada, escola, atendimento de saúde, moradia, saneamento, segurança e assistência social.

“O objetivo não pode ser apenas comemorar os empregos temporários da construção. É preciso preparar a transição para 2027, quando o canteiro começará a dar lugar à operação permanente”, afirmou Riedel.

Essa transição talvez seja o ponto central do desafio enfrentado por Inocência. A cidade já sente os benefícios do novo ciclo, com mais empregos, empresas, circulação de renda e histórias de moradores que conseguiram voltar. Ao mesmo tempo, começam a aparecer os custos desse mesmo crescimento: pressão imobiliária, aumento da procura pelos serviços públicos e necessidade de profissionais qualificados.

Para Leandro Rodrigues dos Santos, a mudança já pode ser medida de maneira bem mais simples. O hotel que a família imaginava com 14 quartos precisou nascer com 28. Sete pessoas passaram a trabalhar ali. E moradores que antes partiam em busca de oportunidades começam a fazer o caminho contrário.

A fábrica deverá produzir celulose no fim de 2027. A experiência de Inocência mostra que a cidade capaz de sustentar esse novo patamar econômico, porém, precisa começar a ser construída muito antes de as máquinas entrarem em funcionamento.

Fonte: Assessoria