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terça-feira, 27 de outubro, 2026

Mal súbito durante a corrida: conheça os sinais de alerta que podem salvar vidas

Com a proximidade da São Silvestre e o crescimento das corridas de rua no Brasil, especialista orienta sobre os riscos cardíacos, os sintomas que exigem atenção e como agir em uma emergência

Com a chegada do fim do ano, cresce também a expectativa para a São Silvestre, a corrida de rua mais popular e tradicional do Brasil. Realizada em 31 de dezembro, em São Paulo, a prova reúne corredores profissionais e amadores em um percurso de 15 quilômetros. Na edição de 2025, foram 55 mil inscritos, um recorde histórico. Para quem pretende encarar o desafio, esta é uma época de intensificar os treinos, aumentar as distâncias e buscar melhorar o condicionamento físico. Mas, na preparação para cruzar a linha de chegada, um cuidado não pode ser deixado de lado: a saúde do coração.

O alerta ganha importância diante do crescimento da modalidade no país. Somente em 2025, o número de provas oficiais de corrida de rua aumentou 85%, passando de 2.827 para 5.241 eventos, segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo). A entidade estima que o Brasil já tenha cerca de 15 milhões de praticantes. Embora a corrida seja uma atividade benéfica para a saúde cardiovascular, sintomas como dor no peito, tontura, palpitações e falta de ar desproporcional ao esforço podem indicar problemas e não devem ser ignorados.

Um estudo publicado em 2025 na JAMA (Journal of the American Medical Association), uma das principais revistas científicas de medicina dos Estados Unidos, analisou aproximadamente 29,3 milhões de participações em maratonas e meias-maratonas realizadas no país entre 2010 e 2023. Foram identificadas 176 paradas cardíacas, das quais 59 resultaram em morte. Isso representa aproximadamente uma ocorrência a cada 167 mil participações. Apesar de relativamente raros, os episódios reforçam a importância da prevenção e da preparação para emergências durante a prática esportiva.

Mal súbito durante a corrida: conheça os sinais de alerta que podem salvar vidas

A pesquisa também revelou que as paradas cardíacas foram mais frequentes entre homens e em maratonas, quando comparadas às meias-maratonas. Entre os casos com causa identificada, a doença arterial coronariana foi a mais comum. Por outro lado, a proporção de mortes entre as vítimas caiu de 71%, em levantamento referente ao período de 2000 a 2009, para 34% entre 2010 e 2023. Os pesquisadores destacam a importância do reconhecimento precoce da emergência e das medidas de ressuscitação.

Para Denis Corrêa, instrutor da CoreHelp, instituição especializada em educação e treinamentos para situações de emergência, esses números mostram que, além do preparo físico, corredores e organizadores de provas precisam estar atentos aos sinais de alerta e saber como agir diante de uma intercorrência.

Quando o corpo pede para parar

A preparação para provas como a São Silvestre costuma envolver treinos mais longos e intensos, especialmente nas semanas que antecedem a competição. Nesse período, é importante que os corredores saibam diferenciar o cansaço esperado de sintomas que podem indicar um problema de saúde. Durante uma corrida, é natural que os batimentos cardíacos e a frequência respiratória aumentem. O sinal de perigo aparece quando o esforço vem acompanhado de manifestações incomuns, como pressão ou dor no peito, falta de ar intensa, tontura, sensação de desmaio ou palpitações associadas ao mal-estar.

“Esses sintomas podem estar relacionados a arritmias, alterações na circulação sanguínea ou outras condições cardiovasculares. Nem todo mal súbito, porém, é provocado por problemas cardíacos. Desidratação, exaustão pelo calor e alterações nos níveis de glicose também podem causar episódios de fraqueza, tontura e perda de consciência”, pontua Denis.

A orientação é interromper imediatamente a atividade diante de sintomas preocupantes e procurar atendimento médico. Em situações de dor no peito, desmaio ou dificuldade respiratória intensa, o atendimento deve ser de urgência. Mesmo que o desconforto desapareça, não é recomendado voltar a correr antes de uma avaliação adequada.

O que fazer diante de um mal súbito?

Se um corredor cair durante um treino ou competição, os primeiros minutos podem ser decisivos. É necessário verificar se a pessoa responde aos chamados e se respira normalmente. Caso esteja inconsciente e não apresente respiração normal, deve-se acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, e iniciar a ressuscitação cardiopulmonar (RCP).

As compressões torácicas devem ser feitas no centro do peito, em ritmo de 100 a 120 por minuto, até a chegada do socorro. Se houver um desfibrilador externo automático (DEA) disponível, ele deve ser utilizado o quanto antes, seguindo as instruções do equipamento.

“O atendimento rápido é um dos fatores associados à sobrevivência. A American Heart Association aponta que a RCP iniciada imediatamente por pessoas que presenciam uma parada cardíaca pode dobrar ou até triplicar as chances de sobrevivência”, lembra o instrutor.

Em eventos esportivos, a presença de equipes de atendimento, profissionais capacitados e equipamentos adequados é fundamental. Mas o conhecimento em primeiros socorros também pode fazer a diferença entre os próprios corredores, acompanhantes e pessoas que acompanham as provas. Instituições como a CoreHelp, por exemplo, oferecem esse tipo de treinamento, que pode salvar vidas.

Preparação também é prevenção

O aumento gradual da intensidade dos treinos, o respeito aos períodos de descanso e a hidratação adequada são cuidados importantes para quem pratica corrida. Pessoas com sintomas durante o esforço, doenças cardíacas conhecidas ou histórico familiar de morte súbita devem buscar avaliação médica para receber orientações individualizadas.

Denis também destaca a importância da capacitação da população para reconhecer emergências e prestar os primeiros socorros. “Uma parada cardíaca pode acontecer tanto durante uma competição esportiva quanto em uma caminhada no parque ou em outras situações do cotidiano”, alerta.

Para quem se prepara para a São Silvestre ou para qualquer outra prova, a principal orientação é não confundir superação com insistência diante de sintomas de risco. Saber a hora de parar e reconhecer uma emergência também faz parte de uma prática esportiva segura.

Fonte: Evelise Couto