18 C
Ponta Porã
quarta-feira, 28 de outubro, 2026

Humap-UFMS alerta: um AVC pode começar no meio de um dia comum

No Dia Mundial do AVC, em 29 de outubro, neurologista explica como reconhecer sinais discretos, por que cada minuto importa e quais atitudes podem reduzir o risco de sequelas

Uma pessoa está trabalhando, conversando com a família ou realizando tarefas habituais quando, de repente, começa a falar de maneira diferente, perde a força em um dos braços ou sente uma alteração inesperada na visão. Como os sintomas podem parecer leves, há quem atribua o mal-estar ao cansaço e espere alguns minutos para ver se melhora. Essa espera, porém, pode comprometer as possibilidades de tratamento e recuperação de quem está sofrendo um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O alerta ganha destaque em 29 de outubro, Dia Mundial do AVC, data dedicada à conscientização sobre a doença, ao reconhecimento dos sinais e à importância do atendimento rápido. No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), filiado à HU Brasil, a orientação é clara: qualquer alteração neurológica que comece de forma súbita precisa ser tratada como uma emergência.

Segundo a neurologista Isabela de C. Florêncio, o AVC acontece quando há uma alteração repentina na circulação sanguínea cerebral. No tipo isquêmico, uma artéria é obstruída, geralmente por um coágulo, impedindo que o sangue chegue a determinada região do cérebro. No hemorrágico, ocorre o rompimento de um vaso sanguíneo, provocando sangramento.

Nos dois casos, as células cerebrais podem sofrer lesões, comprometendo funções como movimento, sensibilidade, fala, visão e equilíbrio. A diferença entre os tipos de AVC não pode ser estabelecida apenas pelos sintomas: é necessário realizar exames de imagem, principalmente a tomografia computadorizada de crânio, para orientar a conduta médica.

Quando a rotina muda de repente

O principal sinal de alerta é a perda súbita de alguma função neurológica. A pessoa pode apresentar fraqueza em um braço ou uma perna, especialmente de um lado do corpo, assimetria facial, dificuldade para falar ou compreender o que é dito, perda visual, desequilíbrio ou alteração do nível de consciência.

Esses sintomas não precisam aparecer todos ao mesmo tempo. Uma única alteração de início repentino já é motivo para procurar atendimento de emergência.

Outro aspecto importante é que nem sempre o quadro começa de maneira intensa. Em algumas situações, a pessoa apresenta apenas uma dificuldade discreta para movimentar um braço, uma alteração da sensibilidade, dificuldade para encontrar palavras ou tontura súbita acompanhada de desequilíbrio. Por parecerem manifestações passageiras, esses sinais podem ser subestimados.

“O AVC tem data e hora para acontecer, justamente porque os sintomas começam de forma súbita”, explica a neurologista.

A intensidade das manifestações também não determina, isoladamente, a gravidade do quadro. Mesmo sintomas aparentemente leves exigem avaliação imediata, pois podem indicar uma lesão cerebral em curso.

O AVC também pode atingir pessoas jovens

Embora seja frequentemente associado ao envelhecimento, o AVC também pode acontecer em pessoas jovens. Além de fatores como hipertensão arterial e diabetes, o risco pode estar relacionado à predisposição genética, a doenças autoimunes, a alterações da coagulação e a determinadas doenças cardíacas.

Hábitos de vida também influenciam a saúde dos vasos sanguíneos. Sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e alimentação desequilibrada podem contribuir para o desenvolvimento de obesidade, colesterol elevado, hipertensão e diabetes, condições que aumentam o risco cerebrovascular.

Por isso, a prevenção não deve começar apenas na velhice. Cuidar da saúde desde a juventude e acompanhar os fatores de risco são medidas importantes para reduzir as chances de um primeiro episódio.

Como reconhecer os sinais de um AVC

Uma maneira prática de identificar algumas das manifestações mais comuns é utilizar o mnemônico SAMU, que ajuda a lembrar o que observar:

  • S — Sorriso: peça para a pessoa sorrir e observe se um lado da boca está caído.
  • A — Abraço: peça para levantar os dois braços e verifique se há dificuldade para sustentar um deles.
  • M — Música: peça para repetir uma frase simples ou um trecho de uma música conhecida. Observe se a fala está arrastada, confusa ou se há dificuldade para repetir as palavras.
  • U — Urgência: diante de qualquer uma dessas alterações, ligue imediatamente para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192.

O teste é uma forma simples de reconhecer sinais de alerta, mas não substitui a avaliação médica. Perda súbita da visão, tontura acompanhada de desequilíbrio importante e dificuldade repentina para caminhar também podem indicar um AVC e exigem atendimento imediato.

Se os sintomas desaparecerem, o perigo não acabou

Um erro comum é deixar de procurar atendimento quando a pessoa melhora espontaneamente. O desaparecimento dos sintomas, entretanto, não significa que o risco passou.

O episódio pode ser um Ataque Isquêmico Transitório (AIT), caracterizado por uma alteração neurológica temporária decorrente de uma interrupção transitória do fluxo sanguíneo. O AIT é um sinal de alerta para um possível AVC, especialmente nas primeiras horas e nos primeiros dias após o episódio.

Por isso, mesmo que a pessoa se recupere completamente em poucos minutos, deve procurar atendimento de urgência. É necessário investigar a causa, diferenciar um AIT de outras condições e iniciar, quando indicada, a prevenção de um novo evento.

O que fazer diante de uma suspeita de AVC

Ao perceber sinais de AVC em casa, no trabalho ou na rua, a primeira atitude é ligar para o SAMU, pelo número 192. A equipe de emergência poderá avaliar o paciente e orientar o encaminhamento para um serviço com estrutura adequada para diagnóstico e tratamento.

Enquanto o socorro não chega, algumas medidas são importantes:

  • Mantenha a pessoa em segurança, em repouso e sob observação.
  • Observe a respiração e siga as orientações da equipe de emergência.
  • Anote o horário em que os sintomas começaram ou o último momento em que a pessoa foi vista sem alterações.
  • Não ofereça água, alimentos ou medicamentos pela boca, pois pode haver dificuldade para engolir e risco de aspiração.
  • Não administre AAS, anti-hipertensivos ou qualquer outro medicamento por conta própria.
  • Não espere os sintomas passarem para pedir ajuda.

Se a pessoa estiver sonolenta ou vomitando, informe a situação ao atendente do SAMU e siga as orientações recebidas sobre o posicionamento seguro. Se estiver inconsciente e não respirar normalmente, siga imediatamente as instruções da equipe de emergência para iniciar as manobras de ressuscitação, se indicadas.

O horário do início dos sintomas é uma informação essencial para a equipe médica. Quando o paciente acorda já apresentando alterações, por exemplo, é importante informar quando foi visto bem pela última vez, geralmente antes de dormir. Esse dado ajuda a determinar quais tratamentos podem ser considerados.

Tempo é cérebro: por que cada minuto importa

Durante um AVC isquêmico, a região cerebral afetada deixa de receber adequadamente oxigênio e nutrientes. Quanto mais tempo a circulação permanece comprometida, maior pode ser a extensão da lesão.

No início, parte do tecido cerebral ao redor da área mais afetada ainda pode permanecer viável, embora funcione de maneira inadequada. Essa região é chamada de penumbra isquêmica. O objetivo do tratamento é restabelecer a circulação antes que essas células também sofram danos irreversíveis.

Em um AVC isquêmico de grande vaso não tratado, estima-se que aproximadamente 1,9 milhão de neurônios possam ser perdidos por minuto. A dimensão dessa perda ajuda a explicar por que o atraso no atendimento pode ter consequências tão importantes.

“Tempo é cérebro”, resume a neurologista, ao destacar a relação entre a rapidez do atendimento e as possibilidades de preservar funções neurológicas.

Quais tratamentos podem ser indicados?

No AVC isquêmico, uma das possibilidades é a trombólise intravenosa, tratamento que utiliza medicamentos para tentar dissolver o coágulo responsável pela obstrução da artéria. Para pacientes elegíveis, a janela habitual é de até quatro horas e meia desde o início dos sintomas, conforme os critérios clínicos e de segurança.

Em situações específicas, a trombectomia mecânica pode ser indicada. O procedimento utiliza um cateter para retirar o coágulo de uma artéria de grande calibre. Em pacientes selecionados, o tratamento pode ser realizado em uma janela de até 24 horas desde o último momento em que estavam bem, conforme a avaliação especializada e os exames de imagem.

A indicação depende das condições clínicas do paciente, dos resultados dos exames e da disponibilidade dos recursos necessários. Por isso, esses prazos não devem ser interpretados como um motivo para esperar: quanto mais cedo a pessoa receber atendimento, mais rapidamente poderá ser avaliada para o tratamento adequado.

Também é fundamental não tentar identificar em casa se o AVC é isquêmico ou hemorrágico. Os dois tipos podem provocar sintomas semelhantes, mas exigem abordagens diferentes. Um medicamento utilizado em determinadas situações de AVC isquêmico pode ser perigoso quando há sangramento cerebral.

Rapidez pode fazer diferença na recuperação

O atendimento precoce aumenta a possibilidade de preservar tecido cerebral e reduzir a extensão da lesão, embora a evolução varie conforme cada caso.

Um AVC pode provocar dificuldades para caminhar, falar, compreender, enxergar, engolir ou realizar atividades cotidianas. Em alguns pacientes, as consequências também envolvem alterações de memória, atenção, comportamento e estado emocional.

A rapidez no diagnóstico e no tratamento pode influenciar as chances de recuperação e a preservação da independência. Mesmo quando não há indicação de tratamento para desobstruir a artéria, a avaliação rápida e os cuidados especializados continuam sendo fundamentais.

Prevenção começa antes dos sintomas

Uma parcela importante dos fatores de risco para o AVC pode ser controlada. Entre os principais estão hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de álcool e determinadas doenças cardíacas, especialmente a fibrilação atrial.

A hipertensão merece atenção especial por ser frequentemente silenciosa. Uma pessoa pode apresentar pressão arterial elevada durante anos sem sentir qualquer desconforto, enquanto os vasos sanguíneos sofrem danos progressivos. A condição aumenta o risco tanto de AVC isquêmico quanto hemorrágico.

O diabetes e a dislipidemia favorecem a aterosclerose, processo caracterizado pelo acúmulo de placas nas artérias. O tabagismo também prejudica os vasos sanguíneos e contribui para mecanismos relacionados à formação de coágulos. Já o sedentarismo pode favorecer a obesidade e dificultar o controle da pressão e da glicemia.

A prevenção inclui medir a pressão arterial regularmente, acompanhar a glicemia e o colesterol, realizar os exames indicados para cada pessoa, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e não fumar. O consumo de álcool também deve ser limitado, e doenças crônicas precisam de acompanhamento e tratamento adequados.

Dependendo do histórico clínico e dos fatores de risco, o médico pode indicar avaliação cardíaca e outros exames. Não há, porém, necessidade de realizar exames de imagem do cérebro indiscriminadamente em pessoas sem sintomas: o acompanhamento deve ser individualizado.

Quem já sofreu um AVC também precisa de atenção contínua. A investigação da causa do primeiro episódio permite definir medidas para reduzir o risco de recorrência, que podem incluir medicamentos específicos, controle rigoroso dos fatores de risco e mudanças no estilo de vida.

Reabilitação e qualidade de vida após o AVC

A recuperação pode levar semanas, meses ou até anos, dependendo da extensão da lesão e das características de cada paciente. O cérebro possui uma capacidade chamada neuroplasticidade, que permite reorganizar conexões e desenvolver mecanismos de adaptação após uma lesão.

A reabilitação busca estimular essa capacidade e recuperar, dentro do possível, as funções comprometidas. O processo pode envolver fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, acompanhamento médico e, quando necessário, suporte psicológico e neuropsicológico.

O início da reabilitação deve respeitar a estabilidade clínica do paciente e ser orientado pela equipe assistencial. O objetivo vai além de recuperar movimentos ou a fala: busca favorecer a autonomia, a independência e a qualidade de vida.

As sequelas variam de acordo com a região cerebral atingida, a extensão da lesão e o tempo até o atendimento. Por isso, não há uma trajetória única de recuperação. Cada paciente precisa de avaliação e planejamento individualizados.

Reconhecer rápido para agir a tempo

Ao deixar uma orientação para quem presencia uma suspeita de AVC, a neurologista Isabela de C. Florêncio reforça a importância de não subestimar sintomas que começam de repente.

Se uma pessoa que estava bem passa a apresentar dificuldade para falar, perda de força, alteração da visão ou do equilíbrio, a recomendação é não esperar para ver se haverá melhora. A atitude correta é acionar imediatamente o SAMU, pelo número 192.

O AVC pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, inclusive durante as atividades mais comuns do dia a dia. Reconhecer os sinais, pedir ajuda sem demora e informar quando os sintomas começaram são atitudes que podem mudar a evolução do quadro.

Mais do que salvar vidas, o atendimento rápido pode contribuir para preservar a capacidade de falar, caminhar, trabalhar, conviver com a família e manter a independência. No AVC, cada minuto conta.

Serviço — Como agir diante de uma suspeita de AVC

Principais sinais de alerta

  • Boca torta ou assimetria facial de início súbito.
  • Perda repentina de força ou sensibilidade, especialmente de um lado do corpo.
  • Dificuldade súbita para falar ou compreender.
  • Perda repentina da visão ou alteração do campo visual.
  • Tontura súbita com desequilíbrio importante ou dificuldade para caminhar.

O que fazer: ligue para o SAMU (192), informe os sintomas e o horário em que começaram ou quando a pessoa foi vista bem pela última vez.

Enquanto aguarda o socorro: mantenha a pessoa em segurança, observe a respiração, não ofereça água, alimentos ou medicamentos e siga as orientações da equipe de emergência.

Como prevenir: controle a pressão arterial, o diabetes e o colesterol; não fume; pratique atividade física; mantenha uma alimentação equilibrada; evite o consumo excessivo de álcool e faça acompanhamento médico regular.

Sobre a HU Brasil

O Humap-UFMS integra a HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

Fonte: Comunicação – HUMAP-UFMS