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domingo, 18 de outubro, 2026

Leia a Coluna – O realejo e a troca dos envelopes, José Alberto Vasconcellos

31/05/2014 07h10

Leia a Coluna – O realejo e a troca dos envelopes, José Alberto Vasconcellos

Realejo, sabemos, é um “instrumento musical mecânico que executa uma melodia quando é girado um cilindro com pinos que ativa uma série de tubos de órgão.”

Divulgação (TP)

Opera o realejo uma pessoa que somente sabe fazer uma coisa: manivelar o realejo, claro! São coadjuvantes do operador do realejo, invariavelmente, um macaco ou um papagaio.

Mediante o pagamento de um cachê, o realejo é acionado para tocar a melodia (há apenas uma melodia na engenhoca) e o operador ordena que o macaco ou se for o caso um papagaio, que PEGUE UM ENVELOPE num maço que está ao lado do realejo. Então o envelope é aberto e “MAKTUB!” (Estava escrito!): descortina-se a sorte (sempre boa!) de quem pagou o cachê. Simples, não?

Minguada a freguesia, o homem do realejo procura outro ponto. As crianças divertem-se a valer, com a música do realejo e com a parceria dos bichos que escolhem e pegam os envelopes, para atender os consulentes que desejam conhecer seus futuros.

Há, também, o “realejo-de-boca” que é o indivíduo que repete as mesmas histórias, sempre!

Em nosso País, o Brasil, a forma de governar imita o realejo: políticos estão sempre dizendo que vão fazer alguma coisa, mas essas promessas, esses empenhos declarados, às vezes até com lágrimas para impressionar, pela repetição não passam de música de realejo – sempre a mesma melodia; a mesma cantilena!

Os bichos coadjuvantes na política – neste caso apenas aves de rapina – que escolhem e pegam os envelopes (das licitações e dos contratos), são legitimados e carimbados como assessores do poder, no caso os ministros; deputados, senadores; e agora até membros do judiciário. Sem nenhum constrangimento, nunca encontram os envelopes que contém a sua obrigação cívica; encontram apenas aqueles que contém as vantagens ilícitas!

Então, quando ouvimos dizer vamos reformar o sistema político brasileiro; vamos reformar o sistema tributário; vamos melhorar a saúde; a educação; a segurança; vamos estancar a ladroagem do dinheiro público! Tudo! Tudo mesmo, é o sistema “realejo-de-boca”: a cansativa e repetitiva conversa “p´ra boi dormir”. O “SISTEMA REALEJO” tomou conta do nosso combalido Brasil, onde se morre de fome em meio à fartura!

Como “modus operandi” para lograr a plebe votante, utilizam diretriz estabelecida no brocardo: “Ad captandum vulgos, panem et

circenses” (Para seduzir o povo, pão e circo.) O pão é o “Bolsa família” para cinqüenta milhões (VEJA, ed.23.04.14, pág. 61) de “famintos e desamparados” que você vê todos os meses nas filas dos bancos; e o circo: “O vale cultura” e a “Arena República”, fracionada em módulos que nunca ficam prontos, mas já consumiram com bilhões de reais dos impostos, que deveriam ser, prioritariamente, aplicados naquilo que o País precisa.

A propósito desses gastos, Antonio Ribeiro (VEJA, ed.21-05-14,pág,33),registra: “Há um fenômeno recorrente no Brasil. Invariavelmente se passa bem longe do cerne das questões. Os bilhões de reais gastos com novos estádios são irrelevantes em relação aos 600 bilhões usados anualmente para sustentar a máquina do governo.”

Em “O Progresso”, ed. 29.05.14 – a manchete: “Governo paga quase 30% dos salários do País, diz IBGE.” A saúde, a educação e a segurança que temos, atestam o despropósito desses gastos.

Enquanto as crianças riem e pulam de alegria, ouvindo a melodia do realejo e o desempenho do bicho que tira os envelopes, pessoas de todos os sexos e idades morrem à míngua torturadas pela dor, no chão frio de um galpão a que chamam de hospital. Esses miseráveis, abandonados à própria sorte, são vitimas de bandidos oportunistas e impassíveis, que preenchem cargos públicos, nas várias escalas de Governo!

Disse um cientista político (não anotamos o nome), que não há interiorização da saúde, porque não há carreira profissional para os médicos, nos moldes de outra de carreiras profissionais. O médico é contratado por uma Prefeitura do interior, passados alguns meses, o prefeito desvia os recursos públicos e não paga mais o seu salário; tampouco providencia qualquer material necessário para atender os pacientes. Nem esparadrapo! Quando constatam ser impossível fazer o trabalho a que se propuseram, debandam. Concomitante à debandada da classe médica, o Governo ao toque do “realejo”, sem preocupar-se com o martírio dos pacientes, vai agraciando com polpudos salários a iniqüidade, que corrói os intestinos da República.

Então, só o macaco e o papagaio do realejo…?

27.05.2.014 (4757) Membro da Academia Douradense de Letras.

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Alberto Vasconcellos - Membro da Academia Douradense de Letras.