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sábado, 17 de outubro, 2026

Leia o artigo de José Alberto Vasconcellos

14/07/2014 07h20

A APREENSÃO DO POLÍTICO MAGNATA.

Divulgação (TP)

Diante do espelho, o político admirando-se, dialogava com seus botões. Tentava posicionar-se dentro do contexto da vida moderna, que baliza o procedimento do indivíduo. O interesse seria diluir sua marcante presença em meio à massa humana circulante. Evitar ser notado quando houvesse interesse. Lidava com o ego, o foro íntimo que faz do sonho a realidade e da realidade o sonho.

Imaginava meios para safar-se da curiosidade e das críticas que o colocavam num outeiro, visível como a um mamute.

—Sinto-me compungido a reconhecer, – dizia para si mesmo –, a ostentação sempre me foi vexatória. Tenho tentado disfarçá-la, empenhado-me em escondê-la, mas minha presença, em qualquer lugar, por mais despojado que esteja, sempre desperta curiosidade e inflama a inveja que deságuam em críticas nascidas no seio da frustração. Frustração dos que não conseguiram vencer!

-—Essa insanidade coletiva empenhada em analisar-me, municia a imprensa para a montagem das fofocas. Daí o ataque gracioso à minha pessoa. Saciam o desejo revanchista da oposição desmamada. Satisfazem-se aborrecendo-me.

-—Nunca tive vontade ou mesmo a intenção velada de explorar a pobreza, parcela importante do eleitorado, e que me tem prestigiado com seus votos. Sei que sem o voto do pobre, nenhum político chega ao paraíso. E se ali me encontro – tenho de reconhecer – é por obra e graça da pobreza, à qual dedico o meu trabalho. É racional convir, não obstante, que quem nasceu para a pobreza, pobre é! E quem nasceu para a nobreza, nobre é! Esse princípio, essa lei universal, isenta-me de culpa por ser abastado.

—É imperativo que eu use o dinheiro que tenho! O que mais poderia fazer com essa dinheirama toda que flui como água de riacho? É a pergunta que sempre me faço!

—Toda vez que checo minha conta bancária, nela há um novo depósito, diligentemente efetuado pelo Congresso. O que posso dizer? Lei é lei e ela me confere essas vantagens! O povo paga-me para ter-me a seu serviço!

—Muitas pessoas movidas pela inveja, pela incapacidade, presas da ignorância e frouxas com a perseverança, dizem quase rosnando: “—Onde já se viu, recebem para comprar roupas, para a gasolina, para as estampilhas, para as contas telefônicas. Apartamentos para morar e mais verba para pagar hotel de luxo, onde realmente moram?

—Passagens aéreas e outras tantas despesas, que cobrem com o dinheiro público garimpado no suor e no sangue dos trabalhadores. Despesas com concubinas! Empregos para fantasmas! Tudo, tudinho, pago com o dinheiro do povo!

—Dizem mais, os caras-de-pau: “—Ainda recebem mensalão! —Desses ataques não excluem nem os honestos, como eu!

—Maldita inveja! Não fossem as imunidades que nos protegem, estaríamos a mercê dessa massa selvagem, deserdada das benesses da Repúbica, que ainda trazem consigo o estigma cultural dos tempos das Capitanias herditárias, raiz da nossa tradição patriótica! Amam e odeiam! Jogam flores e pedras, ao mesmo tempo!

—Imaginem a imagem de um país em que o presidente utiliza-se de um avião velho, para os vôos internacionais; um parlamentar mal vestido, dirigindo um velho automóvel, ou voltando para sua base eleitoral num ônibus? O luxo, a ostentação – já está mais que provado – deslumbra e mantém o eleitor pobre sob encantamento! O entretenimento ajuda a manter nossa existência, independente de ser isto ou aquilo, à nação ou ao país. Tudo é magia, dentro de um mundo mágico! O Parlamento é a cartola de onde sai o coelho e também o jacaré!

Foi despertado do torpor pelo mordomo. —Excelência é hora de ir. O banquete será servido dentro em pouco.

Desperto, desce do púlpito e ainda em estado de graça, pede ao serviçal que o ajude a envergar a casaca do smoking. Ajeita a gravata, alisa os cabelos e anuncia estar pronto.

Impecável no traje, arqueado pelo peso que leva nos ombros: a certeza de ser o Pai da Pátria, caminha para representar, com altivez e desembaraço seu eleitorado, no banquete patrocinado pela “Empreiteira do ano”.

Qualquer desconforto, daí em diante, será diluído pelo uísque e pelo calor do espírito de corpo erga omnes dos seus consortes.

O congraçamento, a felicidade e a alegria foi o ponto alto do encontro. Ao amanhecer receberam, cada um deles, envelope contendo objeto institucional: – o cheque!

Arre égua!

José Alberto Vasconcellos - Bacharel em ciências jurídicas e sociais.