Alta circulação de chikungunya leva Dourados a índice ‘nunca visto’, diz infectologista

Pessoa com chikungunya. (Reprodução)

Conforme o boletim epidemiológico de Dourados, a cidade realizou 1.466 testes de chikungunya em 2026 até terça-feira (31). 

A cada dez pessoas que fazem teste para chikungunya em Dourados, sete têm resultado positivo. A cidade é considerada o epicentro da doença em Mato Grosso do Sul, onde outras 14 cidades enfrentam epidemia da arbovirose. Para a Sociedade de Infectologia de MS, a alta taxa de positividade pode ser inédita no mundo.

“Nós estamos numa situação preocupante, com alta circulação viral e uma positividade nunca vista em outro local do nosso país, talvez no mundo, alguma coisa parecida”, diz a médica Andyane Tetila, presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia.

Conforme o boletim epidemiológico de Dourados, a cidade realizou 1.466 testes de chikungunya em 2026 até terça-feira (31). Destes, apenas 392 retornaram resultados negativos para a doença. Outros 1.074 casos foram confirmados. Assim, a taxa de positividade chega a 73,26%. Na semana anterior, o valor era de 78,65%.

“É inédito pela alta prevalência, as pessoas muito suscetíveis, muitas pessoas apresentando sintomas e realmente evoluindo com doença e uma positividade elevadíssima, principalmente aqui na região da Reserva Indígena de Dourados”, avalia a especialista.

Casos confirmados

Na prática, isso significa que quase todos os casos suspeitos são confirmados após investigação laboratorial. Dourados ainda tem 979 casos de chikungunya em investigação e — conforme a estimativa atual — mais de 685 deles devem confirmar a presença do vírus.

Em Mato Grosso do Sul, há 3.665 casos prováveis de chikungunya. Desses, 1.782 foram confirmados e 1.883 estão em investigação, aguardando resultado de exame no Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública). Isso quer dizer que, conforme o Ministério da Saúde, mais da metade dos possíveis casos não foram concluídos.

No entanto, a SES (Secretaria Estadual de Saúde) não divulga o número de casos descartados, então não é possível saber a taxa de positividade do Estado. O Jornal Midiamax solicitou essas informações e aguarda resposta.

Lotação em hospitais

Com alta taxa de positividade, muitas pessoas ficam doentes ao mesmo tempo, o que pressiona o sistema de saúde. “Estamos vendo aqui todas as pessoas de uma mesma família adoecerem, sequencialmente“, conta Andyane Tetila, que atua no HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados). As pessoas estão muito suscetíveis ao vírus porque nunca tiveram contato antes.

“É muita gente doente ao mesmo tempo, isso faz surgir casos com gravidade, sobrecarrega a internação e as consultas. E a chikungunya tem uma particularidade: é difícil ter toda a resolução numa consulta só, nos casos que não internam. Eles precisam de reavaliações”, explica a médica.

Geralmente, o quadro de saúde do paciente com chikungunya começa com a febre entre 38°C e 40°C e dor muito forte nas articulações. A dor pode ser incapacitante, causando até mesmo dificuldade de esticar a coluna. Em cerca de 30% dos casos, esses efeitos da doença podem durar até 2 anos.

“Então, nós sabemos que isso vai durar muito tempo, porque são pacientes que vão precisar de acompanhamento por muito tempo. A gente se preocupa nesse quesito”, diz Andyane Tetila. Na quarta-feira (31), Dourados tinha 31 pessoas internadas pela doença.

Alta circulação de chikungunya leva Dourados a índice ‘nunca visto’, diz infectologista
Hospital de campanha foi montado em quadra de escola para atender casos confirmados de chikungunya. (Reprodução, Prefeitura de Dourados)

Epidemia em 14 cidades

Subiu para 14 o número de cidades com epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul, segundo os dados do painel de arboviroses do Ministério da Saúde. O Estado acumula 3.588 casos prováveis da doença e sete mortes, com incidência de 122,7 casos a cada 100 mil habitantes, 11 vezes mais que a média nacional.

Confira a relação completa:

  • Jateí – incidência de 305,9 (11 casos prováveis – 7 suspeitos e 4 confirmados)
  • Fátima do Sul – incidência de 2.288 (492 casos prováveis – 485 suspeitos e 7 confirmados)
  • Jardim – incidência de 1.118,2 (274 casos prováveis – 231 suspeitos e 43 confirmados)
  • Sete Quedas – incidência de 1.068,7 (121 casos prováveis – 99 suspeitos e 21 confirmados)
  • Vicentina – incidência de 584,2 (38 casos prováveis – 27 suspeitos e 11 confirmados)
  • Selvíria – incidência de 573,7 (50 casos prováveis – 1 suspeito e 49 confirmados)
  • Paraíso das Águas – incidência de 496,4 (29 casos prováveis – 15 suspeitos e 14 confirmados)
  • Guia Lopes da Laguna – incidência de 435 (44 casos prováveis – 27 suspeitos e 17 confirmados)
  • Bonito – incidência de 423,4 (106 casos prováveis – 57 suspeitos e 49 confirmados)
  • Corumbá – incidência de 396 (391 casos prováveis – 364 suspeitos e 27 confirmados)
  • Antônio João – incidência de 391,1 (38 casos prováveis – 36 suspeitos e 2 confirmados)
  • Água Clara – incidência de 368,7 (66 casos prováveis – 64 suspeitos e 2 confirmados)
  • Amambai – incidência de 364,1 (152 casos prováveis – 131 suspeitos e 21 confirmados)
  • Figueirão – incidência de 346,6 (13 casos prováveis – 1 suspeito e 12 confirmados)

Dourados

Apesar de ter registrado o maior número de mortes (5) e até receber apoio da Força Nacional do SUS, a segunda cidade mais populosa de Mato Grosso do Sul tem taxa de incidência de 282,2. O número subiu 24,2% com relação à semana anterior, mas ainda não configura como epidemia de chikungunya.

No entanto, a reserva indígena da cidade tem 15.023 habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e registrou 1.304 casos prováveis. Ou seja, a taxa de incidência nas aldeias é superior a 8,6 mil, e a epidemia está concentrada entre os indígenas da reserva.

O Governo Federal reconheceu, na segunda-feira (30), a situação de emergência em saúde pública de Dourados, cidade a 228 km de Campo Grande, devido à epidemia de chikungunya.

Com esse reconhecimento, a Prefeitura de Dourados passa a ter mais apoio e liberdade para intensificar as ações de combate à doença, tanto nos bairros da cidade quanto nas Reservas Indígenas, em parceria com os governos federal e estadual.

Sete mortes por chikungunya

O ano passado foi o mais letal para chikungunya no Estado. A primeira morte foi registrada em 4 de fevereiro de 2025, em Dois Irmãos do Buriti. As próximas mortes foram registradas ao longo de abril, quando o número total subiu para sete. Mais cinco pessoas morreram em maio de 2025, outras seis em junho, e a última, em julho.

Neste ano, faltando um dia para o fim de março, o Estado já acumula sete mortes. O óbito mais recente foi confirmado no sábado (28). A vítima é uma mulher com mais de 80 anos, que morava em Jardim. Além disso, em Bonito, morreu um homem de 72 anos, com diabetes e pressão alta.

Em Dourados, a primeira morte foi registrada em 25 de fevereiro: uma mulher de 69 anos, também com diabetes e pressão alta. Em 9 de março, morreu um homem de 73 anos. No dia seguinte, foi registrado o óbito de um bebê de três meses. Em 12 de março, mais uma mulher morreu, com 60 anos de idade. Por fim, a morte de um bebê de um mês foi registrada no último dia 24.

Como me proteger?

Confira dicas práticas de prevenção, segundo o Ministério da Saúde:

  • Estique ao máximo as lonas usadas para cobrir objetos e evitar a formação de poças d’água.
  • Guarde garrafas, potes e vasos de cabeça para baixo;
  • Descarte garrafas PET e outras embalagens sem uso;
  • Coloque areia nos pratos de vasos de planta;
  • Guarde pneus em locais cobertos ou descarte-os em borracharias;
  • Amarre bem os sacos de lixo;
  • Mantenha a caixa d’água, os tonéis e outros reservatórios de água limpos e bem fechados;
  • Não acumule sucata e entulho;
  • Limpe bem as calhas de casa e as lajes;
  • Instale telas nos ralos e mantenha-os sempre limpos;
  • Limpe e seque as bandejas de ar-condicionado e geladeira;
  • Elimine a água acumulada nos reservatórios dos purificadores de água e das geladeiras;
  • Mantenha em dia a manutenção das piscinas.

Fonte: Midiamax