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Após 03 anos de conflito, cenário de abandono nas fazendas ocupadas por terena na Buriti

07/06/2016 15h50

Diante do impasse entre Governo Federal e os proprietários em torno da indenização fundiária, os próprios índios optaram pela cautela.

Três anos depois da radicalização do conflito entre índios e fazendeiros, que teve seu ápice no fatídico, 30 de maio de 2013, quando o terena Oziel Gabriel morreu, provavelmente atingido por um disparo feito por policiais federais mobilizados para a reintegração de posse da Fazenda Buriti, o cenário na maioria das 27 propriedades retomadas (na visão dos índios), invadidas (na perspectiva dos fazendeiros) é de abandono.

Das 31 fazendas que compõem os 15 mil hectares reivindicados como terras indígenas, quatro ainda permanecem sob a posse dos fazendeiros. As pastagens, onde antes havia gado, estão pouco a pouco sendo tomadas pela vegetação. Em alguns pontos isolados, os índios promoveram desmatamentos pontuais, derrubaram algumas espécies mais nobres de árvores e plantaram mandioca, além de cultivar milho e abóbora para subsistência.

Diante do impasse entre Governo Federal e os proprietários em torno da indenização fundiária, os próprios índios optaram pela cautela. Mantiveram suas casas nas aldeias da Reserva Buriti e se revezam na sede das propriedades, numa espécie de vigilância para evitar uma pouco provável reocupação por parte dos fazendeiros.

No grupo de seis indígenas que a reportagem do Região News encontrou durante esta reportagem na sede da Fazenda Cambará, esteve o estudante de Letras, Eliel Lopes, 26 anos, pai de 4 filhos, nascido e criado na Aldeia Lagoinha, para onde voltou depois de passar uma temporada morando na cidade, onde por 4 anos trabalhou na Seara.

Diante da possibilidade de ampliação da aldeia, hoje super povoada com mais de 2 mil pessoas, resolveu voltar à comunidade, ganhando a vida como professor contratado. “Na cidade é tudo caro, o aluguel alto e o salário baixo. Cheguei a abandonar a faculdade em Campo Grande” informa. Agora se matriculou no polo de uma universidade particular na cidade e pretende concluir o curso para poder se dedicar ao magistério.

“Enquanto não resolver esta situação com os fazendeiros, não dá pra gente mudar em definitivo pra cá, construir casa”, avalia. A Fazenda Cambara tem 1.200 hectares e quando foi retomada em 02 de junho de 2013, tinha aproximadamente 1.200 cabeças de gado, parte em regime de confinamento.

O espaço reservado aos piquetes está vazio. Perto dali, só duas vacas permaneciam ruminando preguiçosamente deitadas. Uma das casas da sede foi parcialmente destruída por um incêndio, mas as demais instalações estão relativamente bem conservadas. O mangueiro também permanece em pé.

Só uma família efetivamente mora na propriedade, ocupando uma casa (parcialmente destruída) mais distante da sede, onde provavelmente morava a família de um funcionário. Parte da parede e do telhado foi substituída por uma lona plástica, que em dias de chuva acompanhada de vento, não impede de alagar todos os quatro cômodos.

Quem mora, desde outubro do ano passado é o casal Doralino Pinheiro e Anir Santana. O filho voltou para a Aldeia Córrego do Meio, junto com a mulher e os quatro filhos, porque o ônibus escolar não consegue atravessar as estradas internas (hoje praticamente reduzidas a trieiros que serpenteiam a mata). “Ele preferiu ficar na aldeia porque lá fica fácil chegar à cidade onde trabalhar na construção civil”, explica.

Para chegar à Fazenda Cambará, a reportagem enfrentou uma verdadeira maratona típica de um rally. Onde a vegetação praticamente cobriu a pista, o desafio maior em dias de chuva é atravessar os inúmeros pontos de alagamento que a maioria dos índios transpõe usando motocicletas. Algumas pontes ameaçam ruir sob o peso de algum. O carro da reportagem por pouco não escapou da armadilha.

Antes foi preciso passar pela Fazenda Água Doce, com seus 600 hectares, que fazia parte da Bom Jesus, pertencente ao mesmo dono, que dividiu a propriedade entre as duas filhas. Quando os índios chegaram há três anos as terras estavam arrendadas para criação de gado. Segundo Agostinho Mendes, que mora com a mulher e os filhos, junto com um cunhado e a família, nas modestas casas da antiga sede, atualmente cerca de 50 pessoas costumam aparecer na fazenda, eram 200 na época da retomada.

Um “patrício” como chamam seus irmãos de etnia, construiu um barraco e mora lá. Sem nenhum apoio (“uma vez ou outra a Funai arruma alguns litros de diesel para o trabalho de preparo do solo), estão se dedicou ao cultivo de mandioca. “Na Lagoinha (onde nasceu e foi criado) a área é pequena, da menos de 0,5 hectare para cada família cultiva”, afirma, acreditando que, quando definitivamente os 15 mil hectares forem incorporados à Reserva Indígena Buriti, a comunidade se motivará a investir na produção agrícola.

Quem resolveu pegar no cabo da enxada e tirar o sustento com a produção de mandioca, foi Luís Claudio Lopes Mamede, que continua morando na Aldeia Lagoinha, mas mantém a rotina diária de preparação da terra, limpeza da sua lavoura. Ele diz que consegue vender a mandioca por R$ 1,00 o quilo, retirado da roça pelo comprador. Na cidade, o consumidor chega a pagar R$ 3,90 pela mandioca descascada.

Regiãonews

Após três anos de conflito, cenário de abandono nas fazendas ocupadas por terena na BuritiFoto: Reginaldo Mello/Região News